domingo, 14 de junho de 2009

Alto do Farol

Assim, como em todas a vezes que o sol se recolhia, o faroleiro se encaminhava à escada caracol. Lembrava-se quando iniciou na profissão, sempre neste mesmo continente; os incontáveis degraus eram para ele como um exército adversário enfrentando sua grande vitalidade e nenhuma paciência em galgá-los um a um.

A missão de vencê-los dia a dia, com saltos vigorosos e largos engolindo de cada vez, dois, três degraus, tornava a escalada mais primordial que seu então secundário intento; o de prover a luz, necessária aos navegantes, como auxiliar e às vezes único sinal do seco horizonte.

No começo, a escada gemia resignadamente, enquanto seu algoz brincava de comemorar solitariamente a diminuição do tempo em que levava para alcançar as lentes do farol. E ali, inerte, degraus sem movimento, tirava a cada passo ascendente, uma centelha da vitalidade do faroleiro. Demorou para que ele se apercebesse da estratégia. Num dia, atribuiu a um passageiro mal-estar o fato de ter demorado mais para alcançar o topo. Com o passar do tempo, teve de antecipar a subida para acender as luzes do farol sem maiores atrasos.

Vigorosos agora eram os degraus daquela espiral escada, que primeiramente lhe tiraram o fôlego, depois enfraqueceram suas articulações, fazendo com que, nos dias mais frios, os pés que saltavam avante e acima, agora precisavam de um passo para subir, e outro para confirmar o sucesso, repetindo este processo, não mais preocupado com os índices, apenas sonhando em chegar.

E a escada transformou-se em serpente.

Como fora tolo, a escada serpente sempre tivera movimento.

Aprendeu então a tratar o presente momento de cada passo.

Cada passo.
Não como se fosse o primeiro,
Nem como se fosse o último,
Não como se fosse o próximo,
Nunca como se fosse o depois nem o antes.
Apreciava então o passo Presente.
O instante.

Imaginou-se louco no dia em que, no meio da subida, sentou-se e conversou com um dos degraus da escada:

“Obrigado, meu amigo, que me suporta por tantos anos. Amanhã, trago tinta azul para reparar seus desgastes. Desculpem-me, a todos, pela falta de atenção em servir-me. Veremos juntos o horizonte de cada passo. Nunca mais solitário horizonte, de um solitário mirante.”

Os degraus continuaram degraus, mas agora ele passeava todos os dias em sua escada rolante, rumo aos céus...


CARLOS ALBERTO VEIGA MUNIZ
(CAR_LITOS VEIGA)

Um comentário:

  1. Gostei da crônica, meu amigo Car. Intimista, uma proposta ousada, inteligente. Grata.
    Abraço

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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