sexta-feira, 12 de junho de 2009

AMORES LÍQUIDOS

A palavra “romântico” tornou-se obsoleta e detestável. Foge-se dela como o diabo da cruz. Tem um antiquado cheiro de alfazema, lenço de cambraia, alcova... Foi CDA quem criou a famosa QUADRILHA: João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.

Sofrer por amor – trocando em miúdos – é pagar mico. Amor micou, ficou anacrônico e precisa de muito incentivo do comércio, que entra com as flores, chocolates, anéis e outros mimos para manter o ‘clima’. A realidade crua – e nua! – é que amor ficou reduzido à expressão mais simples e imediata do desejo, que é mercurial, cambiante e fugidio. Não é só la donna que é móbile, os envolvidos na ciranda estão sempre avaliando a próxima conquista que, pela novidade, já se antecipa como mais excitante e mais prazerosa.

Laços do casamento são corrediços, deslisam ou derivam facilmente; ou estrangulam. Regina Navarro em “Cama na Varanda” explica os fundamentos do “poliamor” - “ uma opção ou modo de vida que defende a possibilidade prática e sustentável de se estar envolvido de modo responsável em várias relações íntimas simultaneamente”, que sempre existiu mas se escancarou com a Internet. Ninguém é fiel por natureza - só os torcedores do Coríntians... Amores agora se chamam “relacionamentos” e confrontam as crenças monogâmicas, o que beneficiaria até as crianças: aquelas que têm mais pais e mais mães correm menos risco de se sentirem abandonadas.

Para Roland Barthes, "Desacreditada pela opinião moderna, a sentimentalidade do amor deve ser assumida pelo sujeito amoroso como uma transgressão forte que o deixa sozinho e exposto; por uma reviravolta dos valores, é esta sentimentalidade que constitui, hoje em dia, a obscenidade do amor." (in Fragmentos de Um Discurso Amoroso). O amor quer perpetuar o desejo, mas o desejo não aceita os grilhões do amor. E haja sofrer! Como sair do impasse, se é que se pode sair?

Zygmunt Bauman em seu “Amor Líquido”, que trata da fragilidade dos laços humanos, afirma que “a definição romântica do amor como ‘até que a morte nos separe’ está decididamente fora de moda, tendo deixado para trás seu tempo de vida útil em função da radical alteração das estruturas do parentesco às quais costumava servir e de onde extraía seu vigor e sua valorização”. Mais: “O amor é uma rede lançada sobre a eternidade, o desejo é um estratagema para livrar-se da faina de tecer redes. O amor é uma hipoteca baseada num futuro incerto e inescrutável”.

No filme “A Quase Verdade”, Anne é casada com Thomas, que se sente atraído por Caroline, mulher de Marc, primeiro marido de Anne, que se interessa por Vincent, que ama Lucas... Amor não admite mais cláusulas pétreas, tá mais pra caixa 2 ou dispositivo transitório. Rosas duram uma manhã. Amores hoje duram uma noite, uma semana, um verão, três dias de carnaval. Em seu começo já está seu fim.

Amores são águas passando, barquinhos de papel na enxurrada. Regatos, córregos, riachos, aspirando aos sete mares. Cascata pura! Amores são espumas que recuam. São cascas de nozes brincando de caravelas. São rápidas e pesadas chuvas de verão. Sereno da madrugada. Amores são aqueles rios temporários que sulcam o semi-árido do coração: coisa líquida e incerta.


/ tekka /

Um comentário:

  1. Tekka, querida, sua crônica é linda, mostra seu vasto repertório cultural e uma realidade: tempos de relações fugazes, de amores assim. Muito grata.
    beijos

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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