domingo, 28 de junho de 2009

Avós: somos semeadores

“Estes são homens de misericórdia; seus gestos de bondade não serão esquecidos. Eles permanecem com seus descendentes; seus próprios netos são sua melhor herança.”
(Ecl. 44, 10-11)
Julho é realmente um mês especial, nele se comemora o dia dos avós. Uma das boas coisas da vida é ver os filhos de nossos filhos intermediando a nossa vida. Filhos são presentes, as dádivas mais preciosas que Deus nos deu, mas netos são os tesouros que encontramos, as pedras preciosas que precisam ser lapidadas. Quem transporta o tesouro são os pais, o papel dos avós é apenas o de lustrar, o de fazer brilhar aos nossos olhos e os nossos olhos, pois netos renovam a vida, dão sangue novo, fazem surgir uma energia que se faz escondida.
O texto da epígrafe vem abrir nossos olhos para refletirmos sobre o papel dos avós. Mostra que a melhor herança que se deve deixar é o exemplo de amor, dedicação, caráter, bondade, honestidade, justiça, para que sejamos espelhos para nossos descendentes.
Sempre ouvi dizer:
– Neto é melhor que filho!
Penso que seja meia verdade. Filho é muito especial! Neto é alguém tão importante quanto os filhos. Só que visto de um ângulo diferente. Quando temos os filhos, nos preocupamos com a educação, saúde, formação. Por isso, nos esmeramos no trabalho, na conquista de bens espirituais e materiais para mantê-los, para dar-lhes segurança no futuro, sobretudo o alicerce da educação. Já com os netos é diferente, é só curtir. A responsabilidade primeira é dos pais. Então, nos dispomos apenas a ajudar. Daquilo que ouvimos dizer ratificamos:
– Neto é bom demais!
Apesar de nossa responsabilidade ser um pouco menor, a semeadura é bem maior. Já passamos por outras experiências. Tivemos uma vida de trabalho, de lutas, de conquistas. Agora é amar, amar, amar... e nada mais.
O amor faz amadurecer, o amor transforma, o amor é o caminho seguro. Se não colocarmos um jeito especial para lidarmos com as pedrinhas preciosas, ter paciência na lapidação, elas podem se quebrar, ou pedacinhos podem se perder. De pedras raras não se perde nada. Não se pode perder absolutamente nada. Portanto, é preciso ser ourives, lapidadores e ainda semeadores. Conheço uma bela história que é metáfora de tudo isso:
“Todos os dias um trabalhador saía da fábrica e pegava o ônibus para voltar à casa que ficava a 50 km. Ao seu lado, sentava-se uma senhora que abria a bolsa, tirava um pacotinho e passava a viagem inteira jogando algo para fora. A cena se repetia todos os dias. O homem, curioso, perguntou o que ela jogava pela janela:
– Sementes, respondeu.
– Sementes de quê?
– De flores. É que olho para fora e vejo a estrada tão triste e vazia... Gostaria de vê-la toda florida!
– Mas a senhora não acha que caem no asfalto, os carros passam por cima, os passarinhos comem... A senhora acredita que elas vão germinar na beira da estrada?
– Acho, meu filho. Mesmo que muitas morram ou se percam, algumas podem cair na terra e brotar.
– Mesmo assim, demoram para crescer, precisam de água...
– Ah, eu faço a minha parte. Há dias de chuva! E se alguém jogar as sementes as flores nascerão.
E continuou o seu trabalho. O homem desceu logo adiante e foi pensando que ela já estava muito senil.
Algum tempo depois, no ônibus, o homem, ao olhar para fora, percebeu flores na beira da estrada. Muitas flores, a paisagem colorida, perfumada e linda!
Lembrou-se da velhinha. Procurou-a em vão. Perguntou, então, sobre ela, ao cobrador que conhecia todos os usuários do percurso.
– A velhinha das sementes? Pois é... morreu há quase um mês.
O homem voltou-se para seu lugar e continuou olhando a paisagem: ‘quem diria, as flores brotaram mesmo. ’ – pensou. ‘Mas que adiantou o trabalho dela? Morreu sem ver esta beleza toda.’
Nesse instante, ouviu risos de uma garotinha sentada à sua frente apontando pela janela e dizendo:
– Olha que lindo! Quantas flores! Como se chamam aquelas flores?
Então entendeu o que aquela senhora havia feito. “Mesmo não estando ali para ver, fez a sua parte, deixou a sua marca, a beleza para a contemplação e a felicidade de outros.”
Nós, avós, temos um papel semelhante a da velhinha: fazer a semeadura. Espalhar no meio do caminho, o sorriso, o carinho, a paciência, a fé, o amor a Deus, a brincadeira, o olhar de confiança, o ideal de esperança. Jogar a semente esperando que germine no tempo certo. O que importa se não vermos nossos netos crescerem, ficarem adultos? O importante é servir de modelo para que, com ou sem a nossa presença, possam seguir confiantes, seguros, serem felizes e realizados. Desta vida só levamos o que plantamos. E um dia, certamente, acontecerá a colheita.
E a história continua:
“No dia seguinte, o homem entrou no ônibus sentou-se, tirou do bolso um pacotinho de sementes e começou a jogar pela janela.”
Bela lição! Assim, nós avós devemos ser: semeadores. Amanhã nossos netos seguirão nossas pegadas.
“Se semeamos boas sementes, os frutos igualmente serão bons.”
Marina Caraline

(Contribuição enviada por email.)

Um comentário:

  1. Querida Marina, este texto, de pedras lapidadas, sementeiras, amor que transforma, aquece pelas delicadas lembranças por ti despertadas. Grata, querida.
    Beijos

    ResponderExcluir

"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
...
Grata pela visita! Você é convidado a interagir.
Abraço!

Para correio: discutindo_literatura@yahoo.com.br