segunda-feira, 8 de junho de 2009

Carta-Poema para Lívia

Alguns descontentes com o mundo, filha, mandam cartas-bombas para matar. Eu, entretanto, sou a favor da vida e não saberia destruir o milagre da existência. Escrevo-te esta carta-poema em comemoração aos teus 15 anos e para celebrar nosso amor sem limites e sem palavras.
És para mim a minha continuidade feminina, o que tem me ensinado a compreender melhor o belo mistério da natureza da mulher. Sou para ti uma das partes que te trouxe do nada para ser a pessoa que és, ou que ainda não se reconhece, mas um dia, com certeza, serás. Sou aquele a que chamam pai, de quem se espera desempenhar o papel de amigo, conselheiro, educador e até mesmo... censor. Não se iluda (como eu não me iludo) com os anos de minha experiência, com as bibliotecas que li ou algumas palavras que escrevi e emocionaram alguém. Sou tão humano e imperfeito quanto tu mesma és. Eis um dos segredos do amor: querer o bem absolutamente, apesar de nossas fraquezas e limitações. Meu primeiro legado aos teus 15 anos é esse amor absoluto, sem cobranças, sem fronteiras, pleno de si, aberto ao mundo, exigente apenas com a doação de si mesmo. Assim tenho te amado há uma década e meia. Assim espero que ames os filhos que vieres a ter.
Meu segundo legado aos teus 15 anos é a esperança. A vida precisa ser vivida com sabedoria: saber viver é viver sabiamente. Esperar sem desesperar, acreditar em si mesma como se nadasse contra a maré, ter fé no futuro. Assim espero que venças os obstáculos que vieres a percorrer. É preciso ter força, auto-confiança e serenidade. Estas são as riquezas interiores, que por estarem dentro de ti são invisíveis aos olhos alheios e, para muitos, nem sequer existem. Embora os medíocres – infelizmente a maioria! – vejam somente as riquezas exteriores (dinheiro, fama, poder), a riqueza interior é o tesouro que ladrão algum poderia roubar. E momento haverá quando essa riqueza será notada e fará a grande diferença de sua própria pessoa. Não inveja, trabalha. Não critica, ajuda a consertar.
Quando somos jovens, o tempo é um brinquedo. Cada momento é uma festa, cada festa uma celebração inesquecível. Aproveita tua juventude, mas não se esqueça de preservar as pontes do amanhã. Cuida de amar e ser amada, de dançar, cantar e sonhar, de sonhar com a intensidade dos loucos, mas não perca de vista os horizontes da realidade. Cuida de ti mesma com o mais sagrado dos cuidados. Não faças coisa alguma que possa ofender tua integridade de pessoa humana.
E guarda no recanto mais íntimo e alegre de tua alma, o cuidado para teu pai e tua mãe. Se demos a vida, a vida deve pertencer a ti, não mais a nós. Enquanto viveres, mesmo depois de nossa partida, teremos guarida no quarto mais simples de tua casa. Descansaremos da longa jornada recostados na poltrona onde moram tuas memórias afetivas. E sempre lá estaremos velando por tua felicidade.

Um grande beijo de teu pai e de tua mãe.

Rio de Janeiro, 18 de junho de 1997.

Reinério Simões

Colaboração enviada por email.

2 comentários:

  1. Belíssimo, meu amigo Reinério! Seu texto traz um enfoque poético e toca em questões essenciais da contingência humana.

    Grata

    Abraços

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  2. Reinério, sem dúvidas, uma das cartas mais lindas e poéticas que já tive a oportunidade de ler. Arrancou-me lágrimas. Obrigada por este momento de emoção. Você e sua família são especiais e me orgulho de conhecer, ainda que virtualmente, você e a Sheilinha. Que o amor de vocês continue sendo um dos melhores exemplos de (con)vivência que a humanidade necessita para melhor compreender a essência da vida.
    Um grande abraço.
    Chris

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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