sexta-feira, 5 de junho de 2009

Casa da Felicidade

Sr Silvino era um mulato baixinho e bem gordinho que tinha uma venda de Secos e Molhados nos cômodos da frente de sua casa e morava bem pertinho da minha. Eu gostava de descer a ladeira que me separava daquele lugar encantado. Ir lá era como entrar nas páginas dos livros de estórias mágicas onde tudo era possível acontecer, tal era o fascínio que aquela casa de tudo exercia sobre mim.
Ali eu chegava pela mão de um adulto. Era tão pequenina que mal chegava à metade do balcão, um móvel de madeira, meio tosco recortado de vidros, estilo comum da época. No teto pendurado em fios que dançavam estavam mil quinquilharias. O que olhar naquele espetáculo encantador? Que poder aquele amontoado de coisas tinha sobre mim a ponto de me seduzir? Era sonho em realidade? Por onde começar? Quais novidades teriam vindo da capital? A piorra colorida, a boneca de tranças pretas, bolas e outras coisas mais que despertavam a minha imaginação. Mas o que gostava mesmo de olhar e comprar estavam nas prateleiras de dentro dos balcões. Eu cobiçava aqueles doces simples. Pra mim tinham o gostinho do céu. Eram balas de mil cores, pirulitos em chupetas e caracóis coloridos. Ah! As delícias dos suspiros que enchiam a boca de água e os pés-de-moleque, hum!... Sem falar nos doces de abóbora, que gosto até hoje, durinhos por fora e amolecidos por dentro. Com uma moedinha eu comprava o que meus olhos queriam e vinha embora saltitando com as mãozinhas segurando o embrulho da felicidade. Era tão pouco, mas para mim era tudo.
Seria bom se a vida não só deixasse a gente ver o seu balcão enfeitado com a felicidade, mas também deixasse a gente com uma moedinha comprar o que deleita nossa alma. Se assim fosse, que maravilha! Sair da loja da Felicidade, como eu saía da venda do Sr Silvino: Despreocupadamente, feliz da vida!


Regina Codeço

Contribuição enviada por email.

Um comentário:

  1. Que crônica encantadora!Vi-me na infância também.Adorei! Qualquer hora vou falar sobre as lembranças q tb tenho das vendas.Claro que não será com tanta propriedade assim, mas valerá arriscar pelo sabor de reviver!
    Eloisa Helena.

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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