sábado, 20 de junho de 2009

CEM ANOS APÓS MACHADO DE ASSIS

Quando morreu Machado de Assis ocupava o cargo de presidente da Academia Brasileira de Letras – 1908.
A data de seu nascimento, em 21 de junho de 1839. Seu pai o pintor José de Assis e, sua mãe, a lavadeira, portuguesa, da Ilha de São Miguel, Maria Leopoldina Machado. Seus avós ex-escravos, alforriados.
Acrescentem-se às dores da pobreza: órfão cedo, criado por outra lavadeira. Foi vendedor de doces no morro do Livramento, ali viveu sua infância já apresentando sintomas de epilepsia e gaguez que o acompanharam pela vida inteira, o que o fez um homem tímido e recatado.
De origem humilde, iniciou sua carreira trabalhando como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Oficial, cujo diretor era o romancista Manuel Antônio de Almeida. Em 1855. Aos quinze anos estreou na literatura, com a publicação do poema " Ela " na revista “Marmota Fluminense”. Continuou colaborando intensamente nos jornais, como cronista, contista, poeta e crítico literário, tornando-se respeitado como intelectual antes mesmo de se firmar como grande romancista.
Apesar de sua origem humilde e mestiça, surgiu como sol candente acima da mediocridade e da hipocrisia do fim do século XIX. Infiltrado na sociedade da época, ria dos homens que se julgavam superiores e que viviam envolvidos em mazelas sob a empáfia da Corte; e contra tal comportamento social, Machado de Assis trabalhou sem piedade, dentro da própria tragédia; e ao invés de chorar por sua irreversibilidade, achou melhor compreendê-la, assimilá-la e rir de tudo.
Em suas obras não há entretenimento, mas problematização. Apresenta fatos humanos, ou seja, preocupa-se em levantar indagações óbvias sobre a existência humana. Trabalhou a Ironia pontiaguda que fere fundo a essência da vida.
Preferiu dissecar, esquadrinhar, triturar, expor as chagas humanas. Mas também propicia ao leitor a oportunidade de melhorar e elevar a si – o ato de viver.
Machado é a tese e a antítese: escravizador e escravizado cuja síntese é o povo brasileiro, colocado em sua obra através do caráter de brasilidade de suas personagens numa inigualável expressão de amor à sua pátria.
Representa a fusão de preto e branco, de Brasil e Portugal e, além disso, é o borrão da escravização que corre em suas veias – o que faz saltar de seu coração de artista das letras o grito da convicção de o estigma da escravidão não é irreversível.
Ele venceu apesar de todos os obstáculos.
A ele o dom de gênio! Os títulos de: “Gênio da Literatura Brasileira”, “O Escritor da Escravização.”, “O Mestre dos Mestres da Literatura Brasileira Contemporânea.”.
Machado de Assis revelou-se um clássico através da disciplina de seu temperamento e de suas tradições — um autodidata, um dos maiores escritor brasileiro.
Numa sociedade mais egoísta e fechada que a do século XXI, ele era um mulato, pobre, gago, epiléptico. Um vivo exemplo de esperança para os lamentadores que rodam em volta de sua mediocridade enquanto na história se acumulam os registros da humanidade.
O mundo mudou, deixando para trás o homem da antiga corte, seus salões e os escravos da época de Machado de Assis. O progresso marca o advento de um novo tempo, mas nós – os humanos, continuamos entre o ser e o parecer – provisórios, numa forma de parecer dentro com nosso pouco desejo de servidão que nos fere, que nos aprisiona – somos cativos não do que somos, mas do que gostaríamos de ser. Negando ou escondendo a legitimidade humana.
Somos a ganância da civilização.
Machado mostra o avesso do homem, o que ele é com suas misérias e glórias, quebra as idéias definitivas da racionalidade e da irracionalidade. Não o faz no sentido de aniquilar o ser humano por suas fraquezas, ou humilhá-lo por sua hipocrisia, mas para exigir dele uma reação, a percepção de sua nudez, de sua real posição no mundo, de seu papel ativo na sociedade.

Natalia Dias Boechat- Professora- Membro da Academia Itaperunense de Letras.

(Colaboração enviada por email)

2 comentários:

  1. excelente Natalia Dias Boechat, parabéns !
    abraço afetuoso e agradecido

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  2. Concordo, querida Virgínia! Excelente!
    Parabéns, Natalia! Grata.
    Beijos

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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