quinta-feira, 18 de junho de 2009

Des-Encontros? (Parte II)

25 de maio de 2005: me levanto às 5 da manhã para estar na PUC às 10 horas. Ao aproximar-me de São Paulo, encontro-me com o caos devido às chuvas da noite anterior – o rio Tietê não transbordava há três anos. Carros, ônibus e caminhões esperando para entrarem na cidade. Era preciso desligar o motor; o tráfico estava realmente parado. Começo a ficar preocupada, tento telefonar para o celular da professora Maria Rosa: caixa postal. Depois de várias tentativas, por volta das 9 horas, consigo me comunicar. Maria Rosa me tranqüiliza: a Geruza também está "presa" no trânsito. Peço se ela poderia me passar o número do celular da Geruza... pensei em marcar um encontro na entrada de São Paulo para irmos juntas à PUC (se isso fosse possível em meio ao caos). Telefono para a Geruza e descubro que ela está num ônibus, perto de Osasco. Pela lateral direita, consigo entrar na marginal pedagiada da Castelo Branco (quase ninguém a toma por ter de pagar pedágio)... que alívio! Ando alguns quilômetros, sempre procurando se encontrava algum ônibus Vale do Tietê. A partir do momento que começo a procurar a Geruza em meio ao trânsito, saio da monotonia: iniciou-se uma aventura naquele dia. Após alguns quilômetros na marginal pedagiada, encontro novamente um trânsito louco: tudo parado. Uns cinco carros na minha frente e um ônibus Vale do Tietê. Telefono para a Geruza novamente... ela me diz que tomou o ônibus em Porto Feliz. Tomo a pista da direita e consigo me aproximar. Pergunto ao motorista de que cidade ele vem: Tietê. Um pouco mais à frente, uns dez carros e mais um ônibus. Novamente pela direita chego até o ônibus e encontro uma moça na escada me esperando: Geruza. Ela vem para o carro e seguimos conversando algumas horas; o trânsito completamente parado. Decido entrar num bairro e não pegar as Marginais, porque estavam bloqueadas. Descemos para comer algo por volta das 12h30m e aí pedimos conselhos para algumas pessoas; descobrimos que não chegaríamos na PUC nem às 5 horas da tarde, novo horário para a defesa de qualificação de mestrado da Geruza. Telefonamos para a Maria Rosa para marcar nova data; estando tão perto da Raposo Tavares, poderíamos sair do caos e seguir para o interior. Telefono para o amigo Sergio Portela, de Sorocaba, que estava redigindo um projeto de mestrado sobre o teatro de Hilda Hilst e o convido para ir para Campinas conosco. Ele topa, afinal tínhamos de nos encontrar mesmo para discutir a primeira versão de seu projeto. Nos encontramos no Shopping Sorocaba, almoçamos e seguimos para Campinas os três. Geruza recebe telefonema de seu marido, Eric, jornalista e fotógrafo, que queria saber como foi sua defesa (que não foi); ela fala de nossos novos planos e destino: Campinas.
Chegamos em Campinas por volta das 18 horas, seguindo diretamente para a exposição "O Caderno Rosa de Hilda Hilst". Fomos recebidos gentilmente por Cristiano Diniz, amigo e braço direito durante a pesquisa e montagem da exposição. Coincidência e sorte: encontramos o Prof. Dr. Eric Sabinson, que orienta atualmente Leandro Silva de Oliveira em seu projeto "Clausura e angústia na dramaturgia de Hilda Hilst". O professor Eric (o duplo hilstiano nos perseguindo...) conversa descontraído conosco. Ficamos os três encantados com a postura do professor: dinâmico e atencioso, Eric orientou-nos, explicando um pouco sobre o funcionamento da pós-graduação no IEL (Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP). Seguimos os três hilstianos para a palestra "A experiência do corpo", ministrada pelo Prof. Dr. Jorge Coli no Espaço Cultural da CPFL de Campinas. Brilhante, o crítico da arte percorre a passagem do século XVIII para o XIX, chegando até o XXI, apresentando, em telão, reproduções de obras universais que vão sendo interpretadas em seu contexto histórico. Entre os muitos temas tratados, Coli enfatizou que é impossível introduzir a perfeição no mundo, como queriam os nazistas. Os nazistas queriam tornar perfeito um mundo que é imperfeito, desvalorizando as diferenças e a diversidade. E conclui: “o mestre do perfeito é o imperfeito”... estamos diante de nossos limites e fragilidades – idéia que o professor utiliza para encerrar a conferência e iniciar um debate. Coli toca numa questão fundamental para a nossa experiência contemporânea do corpo: somos frágeis e imperfeitos – o que é sempre bom lembrar, especialmente nessas épocas de bulimia e anorexia entre adolescentes.
No feriado do dia 26, Geruza, Sergio e eu trabalhamos o dia todo: revisão do projeto de mestrado do Sergio, revisão da defesa de qualificação da Geruza e discussão de um tema para seu projeto de doutorado. Passamos o dia lendo e discutindo a obra de Hilda Hilst, a poesia, as artes em geral. Lendo o mestrado da Geruza e ao mesmo tempo Marcel Duchamp ou O Castelo da Pureza, de Octavio Paz, e seguindo o desejo de Geruza de representar visualmente os movimentos da obra hilstiana, tenho um insight, que se confirma na conferência do professor Coli. Por que não investigar possíveis diálogos entre a obra hilstiana e as artes plásticas? O movimento e a multiplicidade, por exemplo, são características marcantes tanto na obra de Duchamp quanto de Hilda Hilst. Como lembrou Maria Rosa, em discussão posterior, analisar também as diferenças é essencial nesse caso, já que os artistas em questão elegeram materialidades diferentes para realizarem seus trabalhos: o desenho e a pintura (Duchamp); a palavra e a sonoridade da língua (Hilda Hilst). Mas vale lembrar que Duchamp utiliza a palavra para realizar seus projetos e dar títulos a suas obras e que Hilda Hilst também praticou o desenho, principalmente em seus manuscritos e, em alguns momentos, a pintura. Diálogos intersemióticos!
Por e-mail, Maria Rosa marca nova data para a defesa da Geruza: 2 de junho pela manhã, coincidindo gentilmente com a data da reunião do Laboratório do Manuscrito Literário, que acontece sempre na primeira quinta-feira do mês às 14h30 na FFLCH-USP, sob coordenação do Prof. Dr. Philippe Willemart, amigo e orientador há tantos anos. Convido a Geruza para me acompanhar. Philippe, no intervalo da reunião, conversa conosco e demonstra interesse em ler a dissertação de mestrado da Geruza, “A (meta)física poética em Hilda Hilst”. A metafísica não está além da física; na obra de Hilda Hilst, encontra-se na física e na materialidade do poema. Philippe conta-nos que o filósofo francês Condillac, no século XVIII, defendia que a metafísica se revela na sensualidade, ou melhor, através dos processos sensoriais. Para Condillac, intelecto e sensações se entrelaçam na construção do conhecimento. Nesse mesmo sentido, Geruza mostra em seu trabalho que Hilda Hilst nos coloca diante do pensar-sentir.
Para Geruza Zelnys de Almeida e Sergio Portela: “Guardo-vos, Iluminadas / Recendentes manhãs tão irreias no hoje / Como fazer nascer girassóis do topázio / E dos rubis, romãs.” (Hilda Hilst, versos de Amavisse).

Professora Dra. Cristiane Grando
Diretora do Centro Cultural Brasil - República Dominicana
Professora Convidada na Universidad Autónoma de Santo Domingo - UASD


(Colaboração enviada por email)

Um comentário:

  1. Gostei muito do texto. Parabéns!
    Abraço
    Lúcia Spadarotto

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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