segunda-feira, 8 de junho de 2009

Dona Laura

De todas as inúmeras tardes, talvez se sentisse como na primeira. Sentada à mesa do conhecido bar, Laura relembrava sua própria história.Na boca guardava o sabor do café enquanto baforava a fumaça do velho cigarro. Trazia nos olhos um pouco de nostalgia que embaçava com furtivas lágrimas. As mãos, mesmo que as unhas estivessem primorosamente pintadas, já não eram as mesmas; inchadas e pouco trêmulas, deixavam a caligrafia incerta. Já não se olhava mais no espelho, guardava seu reflexo de outrora. No braço o brilho de uma falsa pulseira, e nos pés uma sandália de salto alto, na moda. O perfume adocicado lembrava certa sedução há muito paralisada no tempo. Resgates de uma juventude que a ninguém mais enganava, a não ser a si própria.Estava ali, em todas as tardes, e era quase invisível para as demais pessoas. Apenas a garçonete a observava na expectativa de lhe servir um último café.
Ainda assim, a senhora Laura insistia; buscava um olhar, qualquer um que se mantivesse no seu, apenas por poucos minutos, um pouco de admiração talvez, quem sabe até por cortesia. Mas os olhares a sua volta eram de devaneios, sem desejo e sem impulso. Olhares ausentes, corações frios, atitudes indiferentes. Lembrou-se de certa frase que dizia: “O tormento dos jovens é o tédio do possuído”. E logo ali estavam eles, a beber, como quem sacia uma alma ressequida. Pensou nos jovens de seu passado; jovens que declamavam poesias, que cantavam cantigas de protestos, tramavam revoluções, choravam mágoas e brindavam à vida. Para estes, sentar à mesa de um bar e dividir confidências com amigos representava uma deliciosa aventura.A presença dos jovens e as lembranças de outras épocas fez com que a velha senhora retirasse seus sentimentos das sombras do passado. Compreendeu que muita coisa terminara em sua vida, mas que as infinitas lembranças eram a verdadeira essência de sua paz; o contato humanizador do sentimento que a ensinara a aceitar a si mesma e aos outros, da mesma forma que Deus ama a todos os seus filhos imperfeitos. Compreendeu que a mais elevada virtude é aceitar a fluidez e as transformações do tempo, com resignação e até humildade. Por meio desta conscientização é que Laura foi capaz de continuar expressando sua amável e amorosa beleza, todas as tardes, naquele mesmo café. Concedendo seu perdão aos outros e esperando tão pouco em troca, apenas um olhar.

4 comentários:

  1. Nossa linda!Emoção pura! Sabe o que estou ouvindo agora? Como uma onda! "Não adinta fugir, nem mentir pra si mesmo..." Juro!Quase chorei com sua crônica! Lembrei dos jovens das mesas dos bares, cheios de sonhos!Parabéns, amiga!

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  2. "Na boca guardava o sabor do café enquanto baforava a fumaça do velho cigarro."

    Lindo, amiga! Esse trecho explora uma temática de lirismo reflexivo e marca a feição literária do seu texto.

    Grata

    Beijos

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  3. Maria Lucia, "Dona Laura" é de extrema beleza e poesia em cada palavra, vírgula e ponto. Fiquei emocionada. Parabéns!

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  4. Obrigada, minhas queridas! Elogios vindos de vocês deixam minha alma repleta de alegrias!
    Muitos beijos,
    Maria Lucia

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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