domingo, 7 de junho de 2009

Escritores com banda larga

E ela se foi.

A minha base, o princípio ativo da matéria onde deitava as minhas criações, havia sido extinta.

Quando irrompeu a tal guerra das telecomunicações, já sabíamos que seria desastrosa. Com uma clicada só, foram deletados todos os endereços da internet; nenhuma página, nenhum link, nenhum endereço de blog foi após este fato re-encontrado, causando inomináveis perdas culturais e patrimoniais. Todos os endereços da internet já não mais existiam, e assim, ficaram perdidos.

De nada adiantaram os backups, cópias dos arquivos das obras publicadas, pois os editores de textos necessitavam de licença eletrônica com senha, somente disponível nos sites dos fabricantes que já não fabricavam mais nada. Os códigos-fontes destes editores também estavam gravados em textos com chaves de autenticação online. Portanto, o acervo digital de todo o planeta estava eliminado.

Para complementar a catástrofe, a lei de preservação emergencial da natureza já com dez anos de vigência, que punia com pena de morte quem fizesse uso qualquer derivado vegetal para a confecção de papéis ou similares, não deixou viva nenhuma obra impressa.

Alguns escritores, arriscando a própria vida, surrupiavam móveis, pisos, vigas desde que feitos de madeira, para produzir papel ilícito, e assim, tentavam perpetuar as suas obras agora nada ecológicas. Porém, como não podiam ser copiadas e replicadas, tornaram-se perecíveis tesouros piratas.

Porém algumas crônicas e poesias permaneciam vivas. Preferencialmente, as mais curtas, pois eram fáceis de guardar na memória. Não foram perdidas as frases de efeito. Os grandes escritores, agora declamavam seus pensamentos em saraus como a Casa das Rosas. Cada apresentação era única, já que não havia quadro de avisos com a data prevista para cada apresentação. Para não perder cada novidade, os frequentadores já não iam mais embora. A Casa virou Recanto, e o Recanto virou Templo.

Esta é a história da Cidade das Rosas, onde a palavra é caneta, e papel é memória.

Aproveitando, declamo um poema sobre pedras se alguém tiver algum sobre prosas poéticas.

Carlos Alberto Veiga Muniz
(Car_Litos Veiga)

3 comentários:

  1. Car_litos, muito boa, muito boa mesmo! Sou admiradora de tudo que escreve.Escreve sempre de forma poética, inteligente! A memória é um bem precioso de fato, inestimável!Amei!
    Eloisa Helena!

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  2. Gostei muito, Car_litos! Grata por caminhar conosco.
    Abraço

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  3. Sua crônica traz as marcas de uma estrutura temperada com espírito e humor. Muito boa!

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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