terça-feira, 16 de junho de 2009

FRAGMENTOS MACHADIANOS



Nascido no Morro do Livramento, subúrbio do Rio de Janeiro, Joaquim Maria Machado de Assis, filho de pais humildes, gago e epilético, trabalhou desde menino vendendo balas e doces. Ficou órfão muito cedo. Frequentou somente os primeiros anos escolares, época em que os estudos só eram possíveis às famílias mais abastadas. No entanto, aluno exemplar, ávido por conhecimento, autodidata, tornou-se culto e alcançou alta posição social, vencendo até mesmo o preconceito racial, pois era mulato e o Brasil vivia o regime monárquico escravocrata.

Além de escrever poesias, contos, crônicas, romances, peças teatrais, artigos políticos para jornais e revistas, foi crítico literário. Suas obras, iniciadas no Romantismo, se tornam mais expressivas no Realismo, movimento que se opõe ao idealismo romântico e se propõe a uma visão objetiva e fiel da vida humana, procurando criar as personagens na observação direta da realidade.

Desse modo, a temática machadiana está voltada para o cotidiano, com muita originalidade: enredo não-linear, humor sutil, linguagem plurissignificativa repleta de lacunas, digressões e ambiguidade. Ao invés de apresentar heróis burgueses, retrata os anti-heróis, como se vê na figura de Brás Cubas, com sua “mania de grandeza”; o apadrinhamento, o status social, o “jeitinho” brasileiro; frases irônicas como em Quincas Borba: “Ao vencedor as batatas!.”; a traição, no enigmático Dom Casmurro, ao descrever a mulher Capitu:

“[...] olhos de cigana oblíqua e dissimulada ... Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido, misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.”

Vê-se, também, o narrador interferir e conversar com o leitor: “[..] porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar.”, em Memórias Póstumas de Brás Cubas. Nesse livro encontra-se narrado um passeio em que Quincas Borba e Brás Cubas assistem a uma briga de cães por um pedaço de osso: “[...] nem deixou de recordar que em algumas partes do globo, as criaturas humanas é que disputam aos cães os ossos e outros manjares menos apetecíveis.” A crítica e a denúncia dos problemas sociais estão presentes em Senhora e outros; a ociosidade do aposentado também ficou registrada em Memorial de Aires: “Nada há pior que a gente vadia, – ou aposentada, que é a mesma coisa; o tempo cresce e sobra e se a pessoa pega a escrever, não há papel que baste.”

De sua obra, fica, ainda, uma visão pessimista do mundo e das pessoas: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.” (Memórias Póstumas de Brás Cubas).

Em Memorial de Aires, seu último romance, identificado pela crítica como autobiográfico, mostra-se “neutro e impassível” ao afirmar: “Não morro de saudades por nada.” No entanto, no mesmo romance cita um verso do poeta romântico inglês Shelley: I can give not what men call love ou Eu não posso dar o que os homens chamam amor... e é pena!” (p.20).

Enfim, Machado de Assis transitou por muitos temas, alguns intertextuais com seus próprios textos e personagens. Rememorar este escritor e contextualizar suas obras, é refletir sobre a vida, é levar conhecimento e entretenimento, é despertar para a leitura que, embora seja apregoada nos projetos escolares e na mídia, falta muito para se fazer de nosso país um país de leitores. Essa preocupação não é recente, Machado de Assis, numa crônica publicada em 15 de agosto de 1876, escrevera: “A nação não sabe ler. Há só trinta por cento dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses, uns nove por cento não lêem letra de mão. Setenta por cento jazem em profunda ignorância.”

Desde sua primeira publicação, em 1855, até sua morte, em 1908, Machado de Assis não parou de produzir e, no decorrer deste centenário, suas obras foram lidas e relidas no mundo inteiro. Segundo Lúcia Miguel-Pereira, ele foi: “o primeiro entre nós que pôde ser universal sem deixar de ser brasileiro.” Harold Bloom, escritor e crítico literário norte-americano, revela que se Machado de Assis tivesse vivido hoje, seria tão conhecido e famoso quanto Shakespeare.

Queremos, ainda, ressaltar a importância de Machado de Assis para as Academias de Letras. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, da qual foi o primeiro presidente. Ele via na criação da Academia a possibilidade de dignificar o trabalho do escritor. Certamente, essa idéia permeia as demais Academias, já que todas têm sua origem na ABL. Assim, seu objetivo foi concretizado, e outros, como os que foca a ACIL – Academia Itaperunense de Letras – o complementam: desenvolver atividades culturais, recuperar a memória cultural e literária do município, bem como divulgar a cultura e as artes em nossa região.

Esperamos que, com esta abordagem de fragmentos machadianos, se desperte o prazer pelos textos! Segundo Mário Quintana, “Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem.” Não sejamos, pois, analfabetos! Que nas entrelinhas dos textos literários possamos encontrar entretenimento e sentido para nossas vidas, como podemos depreender do conto A cartomante:

“A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir.”

Marina Caraline

(Marina Caraline de Almeida Carvalhal – Membro da Academia Itaperunense de Letras, ocupa a cadeira nº. 20, cujo patrono nacional é Machado de Assis)

(Fonte de Pesquisa: OBRAS de Machado de Assis; BOSI, Alfredo et all; CAMPEDELLI, Samira; MIGUEL-PEREIRA, Lúcia).

(Contribuição enviada por email)

2 comentários:

  1. Machado de Assis tem um lugar importantíssimo na história da Literatura Brasileira e mundial. Influenciou muitos escritores, além de ser um exemplo maravilhoso e eterno para quem acredita e deseja investir em seu talento. Uma ótima contribuição de Marina Caraline, Lu. Apreciei demais a leitura.

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  2. Marina Caraline quem poderia resistir a tão importante convite. Machadianos abraços,
    virgínia

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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