sexta-feira, 5 de junho de 2009

Inquietações sobre a arte ou a estupidificação do ser humano

Que a arte é indispensável não apenas na formação do ser humano, mas para a sua própria existência e pertinência a tal gênero, creio não haver quem negue. Contudo, difícil mesmo é encontrar uma definição geral de arte que atenda as necessidades do gênero humano e exclua aqueles que se usam dela para estupidificar as pessoas.

Já faz uns vinte anos que os Titãs, de Arnaldo Antunes, cantavam uma música que clamava a necessidade da arte na vida das pessoas. Uma de suas estrofes dizia com todas as letras que “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. Porém, me é impossível não refletir, toda vez que escuto esta música, até que ponto essa nossa “arte” não se transformou em mera diversão ou, melhor dizendo, entretenimento no sentido mais estrito que essa palavra possa ter, isto é, entreter. Fico a me perguntar o quanto dessa arte, da qual tanto necessitamos, não foi transformada naquele circo da famosa máxima romana Panis et Circenses.

Em uma crônica de 1925 o poeta Manuel Bandeira considerava um ato digno de heroísmo a realização de concertos no Rio de Janeiro em um “meio que vai-se tornando cada vez mais adverso a tudo que é arte!..” Claro que é muito difícil é chegarmos a um consenso do que é arte, mas para Manuel Bandeira estava muito claro aquilo que não era. Para ele, “a invasão do ‘morbus’ ‘fox-trot’ alucinou a nossa população. Desviou-a do caminho que conduz a civilização. Desorientou-a com a liberdade expressiva tolerada por uma sociedade que só pensa em diversões...”. Fico imaginando o que ele pensaria, se vivo estivesse, do famigerado Funk Carioca...

Aqui, não vamos cair no mesmo engano do saudoso poeta de querer indicar qual é o caminho para se atingir a civilização ou se tal ou qual expressão da arte é mais ou menos civilizada (com exceção do funk, já criticado). Mesmo porque, não creio que a arte e a civilização européia sejam modelos a serem copiados, como parecia pensar o poeta. Não é esse o mérito que estou buscando refletir nessa crônica. O que me chama atenção na passagem de Bandeira é justamente o diagnóstico de uma sociedade que só pensa em diversões. Eis o que para ele, e para mim também, nos separa da arte. O quanto, hoje, podemos dizer que tal ou qual arte são, verdadeiramente, expressões de um sentimento genuinamente humano e não meros produtos criados para entreter e, sobretudo, vender?

Óbvio, não tenho resposta para esta questão. Mas parece-me que nesses setenta e poucos anos que separam o texto de Bandeira e o meu, é nítido que houve um investimento maciço de recursos na criação de uma indústria artística que parece ter sido criada apenas para a diversão das gentes. Não que não precisemos de diversão, aliás gosto muito de muitas delas, mas e aquela arte de que a gente também precisa e a música clamava. Onde é que está ela?

É difícil não poder concluir essa crônica tal como Bandeira, que pensava na música erudita como um meio de atrair “uma parte dos fascinados pelos sports, pelos cinemas e pela dança licenciosa”. Triste é concluir que sequer isso podemos mais clamar em função da vitória dessa sociedade fascinada por distrações. É evidente que a música erudita teria papel relevante nessa tarefa, mas em uma sociedade onde a lista das fascinações só fez aumentar com a chegada de novas e mais eficientes tecnologias de diversão e entretenimento como a televisão e a internet, dentre outras, e a qualidade da educação só fez decair, talvez seja mais realista pensarmos que hoje não tenhamos cultura suficiente sequer para clamar por música erudita, como queria Bandeira, ou por arte, como cantavam os Titãs. Hoje queremos apenas pedir pelo mínimo. Queremos apenas pedir por uma educação de qualidade. É só!!!

Um comentário:

  1. "Numa sociedade onde a arte já não tem nenhum lugar e que está abalada em toda a reação contra ela, a arte cinde-se em propriedade cultural coisificada e entorpecida e em obtenção de prazer que o cliente recupera e que, na maior parte dos casos, pouco tem a ver com o objeto."
    ADORNO, Theodor W. Teoria Estética. Lisboa: Edições 70, 1970.


    Roger, bela reflexão! Affonso Romano de Santanna também fala sobre a tal "Anomia ética e estética".
    Abraços

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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