sexta-feira, 26 de junho de 2009

A MULHER DAS GRANDES COISAS

Quando se recria a imagem do homem, por que repetir os erros de Deus?
Arundhati Roy

Arundhati Roy é uma mulher indiana de 39 anos e beleza mansa. Cabelos negros, longos, um olhar que se encomprida, sobrancelhas escuras, boca farta. Sorri como quem pastoreia almas... Leve. Sua imagem convida a ouvi-la, é daquelas pessoas que intuímos raras. A fala é pausada, e ela é rodeada pela própria suavidade, a suavidade do Ganges noturno. Mas é capaz de enfrentar represas. Represas mesmo. Militante de direitos do meio ambiente, Roy foi condenada em 2002 a uma pena simbólica de prisão (um dia) e uma multa de cerca de 41 dólares, por protestar contra a construção de uma enorme represa no vale de Narmanda, criticando a autorização concedida pelo Supremo Tribunal da Índia.
Arundhati Roy é escritora. Publicou o Romance “O Deus das Pequenas Coisas”, e trabalhou em cinema como designer de produção e roteirista. Hoje, diz não saber se voltará a escrever romances, porque se dedica em tempo integral à militância social. De há muito, a luta pelos direitos da mulher, pela paz, pelo meio ambiente e por outros direitos humanos tornou-se sua grande devoção. Roy esteve no Brasil em 2003 para o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Este ano, fez o discurso de abertura do mesmo Fórum, em Mumbai, Índia.
A Índia é um país cindido. Contraste é uma palavra cujo significado não enlaça as diferenças, as contradições, a diversificação. Dentro desse país extenso, há intensidades jazendo, há uma Índia soberana e uma Índia subjugada; uma Índia de quietude e uma Índia de fúria; uma Índia sagrada, uma Índia profana e outra sacrílega. A Índia que se enfeia, adornando-se com o trabalho escravo infantil, e outra, a Índia dos belos tapetes, tecidos com mãos indefesas das crianças; uma Índia dos horrores do genocídio e outra do Taj Mahal, para adoçar o espírito de satisfação. Há uma Índia de castas, que separa seres humanos tocáveis de intocáveis, e há uma Índia livre, a Índia de Arundhati Roy.
Enquanto no seu país, Roy foi condenada por defender direitos fundamentais do homem, em maio passado a França lhe entregou o prêmio da Academia Universal das Culturas, outorgado pelo governo francês a pessoas que, com sua obra, tenham contribuído para a luta contra a intolerância, o racismo, ou a discriminação das mulheres. É de se comemorar. Merecida resposta à Suprema Corte indiana, que a condenou pelo crime de desacato, porque “a liberdade da palavra está submetida a restrições razoáveis”
Mas quem escreveu “O Deus das Pequenas Coisas” não poderia fazer nenhuma restrição à liberdade das palavras. No romance, as palavras não se contentam em jazer, elas levantam-se de seus leitos de tinta, despem-se dos seus significados habituais para erguer um altar à liberdade. Liberdade de ir, vir, correr. Liberdade de contorcer-se. E de amar, de desobedecer a “leis que determinam quem deve ser amado, e como. E quanto”. “O Deus das Pequenas Coisas” é a história de três gerações de uma família de Kerala, de dois gêmeos que, no interior da Índia, aprendem o silêncio pendente “no ar como uma perda secreta”, as tradições, os preconceitos, a hipocrisia, a violência de seu país, “presos do lado de fora da própria história e incapazes de retornar sobre os próprios passos porque as pegadas tinham sido apagadas”. Dois gêmeos aprendendo dores. Mas é também a história de sua mãe, Ammu, mulher luminosa amando um homem luminoso. Um homem tocável, um corpo sentido na pele, corpo de sins, ainda que as leis impusessem nãos. Mas leis às vezes são coisas pequenas. “Só as pequenas coisas são ditas”. As grandes coisas ficam jazendo “para sempre do lado de dentro”.
Nem todas as grandes coisas jazem para sempre do lado de dentro. Em sua militância, Roy vive a escrever artigos cheios de coragem e vivacidade contra o desrespeito aos direitos humanos no mundo. Muitos deles traduzidos para o português e acessíveis pela internet. “O Deus das Pequenas Coisas” foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Arundhati Roy diz e faz grandes coisas. Uma mulher luminosa, uma pessoa pela qual vale a pena acreditar na humanidade.
Carmen Vasconcelos

(Contribuição enviada por email.)

2 comentários:

  1. Estou muito honrada com sua participação no blog, querida Carmem. Muito grata. Que beleza de texto!
    Quero ler o livro de Arundhat Roy.
    Forte abraço

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  2. parabéns Carmen Vasconcelos que espetácular exposição desta personalidade que honra o feminino. muito obrigada pelo passeio pela complexa cultura da ìndia tão bem explorada em tua crônica. abraços

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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