sexta-feira, 19 de junho de 2009

NINGUÉM ME CONTOU, EU VI


Itaperuna, 18/11/08


O cubículo, situado no morro, que talvez a família denominasse de casa, abrigava cinco pessoas: o casal e mais três filhos.
Pelo bolor e escuras marcas escuras de mãos escorridas pelas paredes sem esboço, percebia-se ao adentrar naquele local que ali estava erguido o castelo da pobreza onde a água não era encanada, não havia esgoto e as teias de aranha apresentavam-se como o ponto alto da decoração.
No piso de terra batida quatro esteiras de palha encontravam-se empilhadas em um cantinho da casa. Um pouco afastado, na parede ao lado, estava um fogão artesanal confeccionado com tijolos e sobre ele uma trempe de ferro enferrujado com duas bocas: atrás dele um canecão sem a alça e duas panelas pequenas de alumínio, as quais, bem amassadas, e em cada lugar côncavo o pretume acumulado preenchia todo o espaço. Encostados em outra parede via-se cinco amontoados de tecidos dobrados: talvez somente uma muda de roupa em cada um deles. Um pano carcomido pelo tempo servia como cortina para uma abertura onde algum dia pudesse vir a ser uma janela. Ah! Sim, na sala, quarto, ou cozinha, nem sei como me referir a este local, havia uma porta que com toda certeza fora jogada no lixo por uma pessoa bem pobrezinha, porém para eles era de grande utilidade, pois vedava a intimidade daquele interior. No teto forrado por telhas-vãs colocadas sobre caibros apodrecidos e sinuosos, pendiam picumãns bem unidos, que iam aumentando... aumentando... nos raros momentos em que a lenha ardia no fogão.
O marido estava ausente à procura de algum biscate. Ela dialogava com a visita, sentada no chão e acompanhada de dois filhos. O outro, uma menina, em total nudez engatinhava pelo terreno que circundava o barraco: local onde tralhas e entulhos misturavam-se a papéis esvoaçantes.
O coração da visitante derreteu-se pelos sentimentos mais profundos de piedade, pois ao despedir-se presenciou uma cena ainda mais comovente: a criancinha desnuda alimentava-se dos seus próprios excrementos.
Pelo tempo que se passou (uma década e meia), e se a tudo isso essa criança conseguiu sobreviver, ela deverá estar hoje debutando pelas ruas da minha cidade – Itaperuna.

Flora Malta Carpi - Presidente Emérito da Academia Itaperunense de Letras.

(Contribuição enviada por email)

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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