quinta-feira, 18 de junho de 2009

No caminho da liberdade

“Que marchem!” Marchar fala da atividade insessante, indica luta, coragem, requer idealismo, diligência, perseverança. É um imperativo que aponta para o progresso contínuo, para uma peregrinação saudável e frutífera rumo à liberdade transformadora do olhar. Já Aristóteles ressaltava a primazia da visão sobre os outros sentidos. Santo Agostinho celebrava platonicamente como “o mais espiritual dos sentidos”. Certo é que com o olhar capturamos, cedemos, extraimos, doamos, acolhemos, rejeitamos, permitimos, negamos, negociamos intenções, desejos, fantasias e frustrações.

Com Machado de Assis, quantos de nós não apanhamos o hábito de investigar as pessoas antes de aceitá-las? O Olhar de ressaca de Capitú pode tornar-nos “exímios” leitores de olhares. Desprezar as evidências do olhar não é inteligente. Mas às vezes é imprescindível lançar olhares desarmados, sem os preconceitos que nos foram impostos.O preconceito diminuiu-nos, aviltou-nos, amesquinhou-nos, tolheu nossa liberdade, impediu nosso diálogo com os outros.

Conhecemos a inclinação humana para a negligência, o desânimo, o receio da novidade, a soberba. Esse comportamento nos paraliza, deixa em nossas mãos receituários que pouco nos servem, limita nossas expectativas.Sobre isso já escreveu Mário de Andrade: “o passado é uma lição para se meditar, não para reproduzir” Quando não há liberdade, os conhecimentos são escolhidos e impostos para que os aceitemos e nos moldemos por eles. É a filosofia do conformismo e da passividade.

Apesar das marcas da luta em que pesem algumas desilusões ou desencantos, vale a pena enxergar em profundidade, além das aparências frias das coisas.Ivan Lins e Victor Martins, na letra da música intitulada: DAQUILO QUE EU SEI, disseram: “Não fechei os olhos/não tapei os ouvidos/cheirei, toquei, provei/ ah! eu usei todos os sentidos/só não lavei as mãos/e é por isso que eu me sinto cada vez mais limpo. Agir com liberdade é não ter receios para usar todos os sentidos. É não nos omitirmos. É aguçar nossa capacidade de visão.

Fazer as massas levantarem-se e ver um pouco além de seus estreitos horizontes foi o mister de cientistas como Einstein, estadistas como Lênim, libertadores revolucionários como os latino-americanos Bolívar, Martin, entre tantos outros. Mas nem sempre as pessoas estão preparadas ou dispostas para ver. Estão presas em demasia aos seus valores tradicionais, perdendo, com isso, a perspectiva de julgar com isenção e serenidade outros valores, diferentes dos seus.

Há que se apostar nos sonhos, quebrar certas rotinas, deixar o grão do inesperado brotar, ver com os olhos livres. Ser acrobata, flexível. Aprender a partilhar, regar e colher no tempo oportuno. Não impedir o avanço, a descoberta. Nascer a cada dia para o novo. Criar dentro de si o tempo renovado. Estar um passo a frente. Desamarrar laços inúteis. Expandir o olhar. É preciso deixar os embaraços do medo, dos preconceitos. E brindar ao novo. Expelir olhares frios, rotineiros, mecânicos, formais. Cultivar o respeito as opiniões alheias. Duvidar de tantos paradigmas. Aproveitar as oportunidades. Ousar. Que vantagens auferiremos por trilhar esse caminho? Há um particular tesouro no caminho da liberdade. Só precisamos levantar os olhos e ver.

Luciana Pessanha Pires

2 comentários:

  1. Minha queridíssima e luminosa amiga Luciana que texto visceral!
    Enxergando além das aparências e do aprendido. Vens transmitir conhecimentos e emprestar a dose de transgressão necessária àquele que deseja encontrar sua singularidade . Crônica oriunda de um espírito crítico e libertário, parabéns e muito obrigada , abraços afetuosos da tua admiradora e virgínia

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  2. Virgínia, minha amiga, como foi generosa comigo! Muito grata. Beijo e carinho

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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