sábado, 20 de junho de 2009

O HOMEM E SEU FILHO

Sábado, 13/06/2009

O homem e seu filho acocorados, separando camarões. Os grandes formam o lote menor. Camarão seco. O homem mais ainda. O sol tórrido. A pele crestada que nem pergaminho compondo mapas da vida sofrida na lida só ida, sem pausa, que ninguém pediu pra percorrer. Mapa do tesouro. Do camarão. Seco. O sol. Neste sol, nesta vida de arremedo sem medo, pra quê?... o medo?... Será que finalmente chegou o verão? Em julho dá pra ganhar mais com os camarões da região... Região de duas estações, cidade de poucas opções pra quem vive de vender camarão. Pra quem não vive, também. Tem gente que não vive, mas finge bem. Que nem aquelas pessoas do ônibus. De Mosqueiro a Belém o bodum do camarão quase visível em espirais olorosas... Vontade de vomitar com o misto do primeiro trago ao fedor indefinido, pavoroso.
- Credo! Que pitiú é este?! Que gente porca!...
Algumas pessoas, naquele ônibus, fediam mais. Os cheiros até se confundiam. A moça suava e disfarçava. Será que a inhaca vinha de lá de dentro das suas vergonhas... “A gente sua...” Cheiros que se confundem. Perfume sem valor, nem precisa pagar. O dia trouxe o sol com vontade de brilhar e revelar o que todos tentamos esconder com Boticários ou Alfazemas da vida... Quase todos, colhidos de surpresa, revelavam o vencimento precoce de seus protetores axilares, íntimos, recônditos. Ou nem. Mãos segurando na barra. E fediam. Nem sentiam. A gente se acostuma a tudo nesta vida. Principalmente com (o) dores. E indiferença diante da dor que cutuca e até parece arroto quando preso. Comida pouca, barriga de vento do menino que aprende o ofício de misturar camarão grande aos muitos pequeninos que devem ficar escondidinhos... Aprendendo o ofício de enganar pra melhor levar a vida de ciladas e logros. Quanto mais esperto e atento, menos chance de escorregar no limo das palavras cuspidas de tudo que é lado. Será que a moça de tênis de marca que vem ali não vai querer comprar?... “- Mas quando, já...” O sol, a fome, a pressa de chegar pra comer o churrasco nosso de cada sábado, “porque hoje é sábado”. E eu nem gosto assim de churrasco, mas como. Eu como... eu como... eu como... eu como... A gente se acostuma a tudo na vida. E o que é bom, vira hábito.
O homem seco e seu filho aprendiz de enganar, bem que iam gostar, mais do que eu, de comer churrasco hoje.
“E o povo aqui sempre pobre...

”Regina Makarem - Belém (PA)

(Colaboração enviada por email.)

2 comentários:

  1. Regina, querida, sua participação me deixa muito feliz. Adorei os percursos do texto predominantemente temático-figurativo. Grata.
    Abraço afetuoso

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  2. Luciana querida, obrigada pela publicaçao e pelos comentários generosos.
    Meu carinho.

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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