domingo, 21 de junho de 2009

O mendigo mais faminto da rua mais miserável

Eu sempre quis um amor como aqueles de cinema. Desses que fazem o coração bater acelerado apenas por saber que alguém, longe ou perto, pensa em você tanto quanto você nele. Quer seu bem e quer passar a vida inteira ao seu lado. Mas a vida é estranha e real, e no fim das contas sobra pouco das cenas românticas e sublimes que a gente vê na tela. Eu pedi, muito e incessantemente, por um amor que me tirasse o chão e me levasse ao céu. Como o universo costuma ser bem generoso comigo, tenho percebido isso, eu recebi. Primeiro um, depois o outro. Num curto espaço de um ano e meio, experimentei as mais pesadas sensações que um frágil coração, que jamais tinha amado nessa intensidade, poderia suportar. Um coração que sempre quis dar e receber, mas não se preparou para este momento. E então, quando chegou a hora de ser feliz, o coração quis dar demais, além do que havia sido solicitado e acordado entre as partes. Deu tanto, mas tanto, e de uma forma tão intensa, que acabou seco e pequenino, retorcido pelas amarras de algo que nem ele mesmo sabe definir. O tempo passou, o danado estava quase recuperado e pronto, lá veio o amor dilacerá-lo mais uma vez. Veio com tudo: inteligência, ótimo papo, poesia, música, voz doce, um quê de classe e glamour de quem entende das coisas aliado ao jeito mais brejeiro e caipira do cerrado, um raio de sol nos cabelos e a intensidade que ele sempre desejou colocada à máxima potência. Casa, comida e roupa lavada, emprego, piscina, um amor desses de cinema, tudo isso e um pouco mais. Coração teve medo, não soube como agir diante de proposta tão tentadora. Ninguém acreditou quando o BEM recusou o DOM que lhe havia sido dado. Mas acontece que este coração precisa, antes de mais nada, se organizar. Preparar-se para receber o amor. Estar pronto para dar também. É o que ele mais quer. E saberá dizer sim quando chegar a hora.
Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável – já disse o sabido Caio Fernando. O meu não só sente fome, como arde e lembra todos os dias aquelas madrugadas onde não havia distância, nem problema, nem conta de telefone, nem medo. Eram apenas duas almas interligadas por um sentimento único e avassalador. Talvez alguns dos melhores momentos tenham sido passados assim, à distância. E apenas duas pessoas neste mundo sabem como eles foram especiais e intensamente vividos.
Hoje, “meu coração é um anjo de pedra com a asa quebrada”. Estamos aqui, à beira-mar, fazendo a reabilitação da asa e reunindo forças e energias para mais um ano. Nada se perdeu. Tudo que foi vivido representa o que sou hoje e me fez ainda mais forte. Mais feliz também, apesar do gosto amargo da impossibilidade. E, mesmo quando as pernas vão vacilantes e o fardo se torna pesado demais, ainda assim “encho-me dum leite de versos e, sem poder transbordar, encho-me mais e mais”. Por que só sei viver assim. Como quem desaba sobre o outro como uma chuva forte.

Este texto utilizou frases de Maiakovski, Olga Savary e Caio Fernando Abreu.

Camila Micheletti
(texto escrito em janeiro de 2009)

2 comentários:

  1. Camilinha, querida! Eu sabia que sua crônica seria leveza, impulso, verdade. Amei. Muito grata.
    Beijos

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  2. Se continuasse a escrever, desabaria num abismo no lugar de você.
    Espero pela próxima!

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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