segunda-feira, 29 de junho de 2009

O MITO DO FOGO NA FALA POÉTICA DE ANTÔNIO LÁZARO DE ALMEIDA PRADO

Desde os primórdios da humanidade, o homem cria seu mundo ficcional, elegendo símbolos para melhor compreensão da existência humana. E o poeta, por vezes, utiliza-se desta simbologia a fim de alcançar maior expressividade na sua fala.

A iconografia do fogo é um tema recorrente na literatura e na fala poética de Antônio Lázaro de Almeida Prado. Percebe-se em sua fala um espaço textual múltiplo, ou seja, em vários textos (linguístico, mítico, sociológico, histórico etc.) que se deixam ler no enunciado poético.

Revela-se na obra pradiana a influência de outros grandes poetas: Petrarca, Leopardi, Carducci, etc. Esse é um tipo de poesia em que a experiência sentimental é passada por constante e intensa reflexão filosófica, associada a uma criativa transcrição literária num itinerário do destino humano, da experiência amorosa e do mundo espiritual. A evocação da natureza, nos poemas de angústia amorosa ou existencial, é estratégia poética geradora de atmosfera rústica propícia à solitária meditação de cunho filosófico e à produção artística.


“Nascemos motivados pelo ímã,

Pelo impulso, que tanto mais exalta

Quanto mais exalta

Quanto mais se mantém fiel à terra...”


A “safra de sonhos” do poeta se apresenta:


“Embora infante boca do futuro

já posso pronunciar meu Evangelho:

SOMENTE O AMOR INFLAMARÁ O PLANETA!”


“Seja o tom do meu Dó o infra-vermelho”


“Eis que o novo e o emergente não suportam

o ritmo fanhoso do ser-lesma”.


Cantigas, acalantos,sonatas, canção: o poeta-menestrel, Assim, diz o fogo:


Num oceano de luz de brilho ardente

Envolto em turbilhão meu corpo em brasas.

Meu voo é expectativa de alvorada,

Meu canto, o amanhã, que eu já soletro.”


Dizer o fogo. Esta marca contida na poesia pradiana mostra como o poeta reforça a idéia de que é preciso devolver ao homem o fogo da paixão, o amor à vida, apesar das dificuldades. Ele faz uso de antíteses, parecendo confrontar a dor de existir à necessidade de sobreviver às intempéries e demonstrando estar consciente da sua hominidade. Nessa poesia metafísica, a angústia do poeta não é maior que sua fé na vida. O poeta faz uso de epifanias, revelações instantâneas de uma unidade superior entre contrários, de paradoxos neo-barrocos para traduzir seus sentimentos.


“Meu voo audaz de pássaro sem asas

É seta que fustiga o alvo em chamas...”


É constante o movimento até a luz/sol e o retorno aos homens e à sua impactante humanidade. Este movimento cíclico denota busca de transcendência, desejo de imprimir à vida significado.


“Meu fogo forja, lento, os diamantes,

Requeimando, furioso, toda a escória.”


“Esse inquietante rastro incandescente

De onde vem? Para onde vai? E como

Viver com ele em ritmo tão vivo

Que a luz e o som são junto dele tardos?!!


Diz-nos que a vida é um átimo

Que a nossa pequenez supõe enorme?

Ou segreda que o instante se dilata

Nas asas desse Pássaro de Fogo?”


O tempo, Pássaro de fogo, incita o poeta ao Carpe Diem, ao aproveitamento da vida. Já que esta, como afirmou S. Paulo ao escrever aos de Corinto: tempus breve est!, ou seja, “ quão breve é a nossa passagem pela terra!”.


“Ah! Esse momento fugazmente belo

vale e compensa o passo paquidérmico

De nosso andar tão trôpego e impedido,

Quando os distantes da inocência lúdica.”


"Toca a trombeta, quer o crepitar da vida.

Para si e para todos."


“Que eu dance ao forte som incandescente

Da espiralada chama saltitante

E suplante a exaustão do fogo fátuo.”


Não morras atrelado a essa tão frágil

capenga exalação de fogo tardo,

nem sejas mariposa ensandecida

Brilhando consumida em luz que é finda.”


O termo chama assume simbologias distintas na obra, como no verso:


“Em Chamas me despeço destas Chamas...”


O poeta/sacerdote também aparece como soldado armado de lança, de prontidão à procura da laje em que se acende o fogo. Numa obra onde percebemos os signos /água e fogo como propiciatório da purificação. Poema propondo libertação. Num ciclo vital o poema emerge do meio da sarça ardente. E o poeta, tal qual Moisés no monte Horebe, vê o Divino em uma chama de fogo. O poema é a sarça que não se consome. É esperança e fé.


“Eis o meu corpo:-

Centelha...

Eis o meu sopro:-

Fagulha...

Este meu verbo:-

Bebei-o

...

E ide em paz

Para exercer

o amor...”


É surpreendente a densidade da literatura pradiana: erudita e singela, mística e sensual, poemas de amor, celebração de amigos, diálogo com poetas do passado e do presente, com a Literatura universal e brasileira, parece que intui soluções para este momento histórico que vivemos. Esta é uma poética que propõe falar sobre a energia da criação, da vida e da transformação.

É uma poesia que "queima" de amor, paixão, e que nos impulsiona a ter fé na vida. É a poesia de um homem de 84 anos, de uma formação clássica, mas ao mesmo tempo é uma poesia contemporânea. É a poesia de um poeta que embora extremamente culto, e que faz interlocução com Antonio Machado, Murilo Mendes, Antonio Candido, Pe. Antonio Vieira, Goethe, Wolfgang Amadeus Mozart, Dante Alighiere, Franz Schubert, e também com canções populares.

A poesia de Prado nos impulsiona sempre para a esperança, e para a alegria, ainda que inventada. É uma poesia cheia de ritmo (Sinfonias possíveis), feita por um poeta-compositor, que tem ouvido para música:


        “Trago dentro de mim harmonizados

        Muitos sons e canções, que não componho,

        Tão vibrantes, coesos, concertados

        Que enformam a textura de meu sonho.”


        O estudo da obra pradiana cria e desenvolve instâncias de reflexão e construção do conhecimento acerca das grandes questões contemporâneas que estão enraizadas na literatura e na filosofia.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BOECHAT, W. Mitos Arquétipos do Homem contemporâneo. Petrópolis: Vozes, 1995.

BORDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

DURAND, G. As estruturas antropológicas do imaginário. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

PRADO, A. L. de A. Ciclo das Chamas e outros poemas; prefácio Antônio Candido. - Cotia, SP: Ateliê Editorial: São Paulo: Oficina do Livro, 2005.

.....

Sarau inaugural com o tema "O Sonho do Poeta", com Alex Dias, Fernanda Almeida Prado, Gabriel Almeida Prado, Irineu de Palmira e Miriam Samorano. Homenagem ao poeta Antônio Lázaro de Almeida Prado.


14° Festival Internazionale della Poesia 2008 16 giugno 2008 Palazzo Ducale - Genova (Italia) con il poeta Antonio Lazaro de Almeida Prado e l'attrice Patrizia Ercole



4 comentários:

  1. Luciana!!
    Agradeço a bela apresentação da obra de meu pai.Ser filha deste pai poeta é uma grande dávida e motivo de grande alegria.
    Seu admirável trabalho nesta comunidade contribui para a divulgação e reconhecimento da importância da obra de meu pai e de tantos outros poetas e intelectuais que você divulga aqui.
    Parabéns!Você é uma pessoa muito querida.
    Muito obrigada!!
    Grande abraço,
    Fernanda de Almeida Prado

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  2. Trouxe para cá o comentário da querida Cristiane Grando. Ela postou no meu orkut.

    "Parabéns, Luciana querida. Bom saber de notícias literárias dos Almeida Prado... Hilda Hilst, de Jaú, também pertence a essa família. Seu pai é Apolonio de Almeida Prado Hilst.
    Interessante o seu blog... Às vezes passo por aqui.
    Beijos"


    Grata, Cristiane! Beijos

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  3. Fernanda, querida, divulgar a poesia do grande poeta Antônio Lázaro de Almeida Prado é um deleite, um privilégio. Sou muito grata pela oportunidade de ter participado do convívio, na sua casa, por ocasião do sarau "Ciclo das Chamas", evento maravilhoso na Casa das Rosas, em Sampa. Que homem sábio!
    Sua família é linda, querida! A amizade permanece.
    Sou sua admiradora, acompanho seu belíssimo e apurado trabalho como Curadora Cultural. Cada evento e projetos tão perfeitos!
    Que bom ser sua amiga, receber seu afeto! Muito grata.
    Beijos

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  4. Luciana muito obrigada por tanta beleza , divulgar eventos como este realmente nos enche de esperanças. A produção literária de
    Antonio Lazaro de Almeida Prado é encantadoramente madura; traz em si uma inocencia que nos pões em espirais de fogo e dança .
    Parabéns tuas palavras amiga, teu olhar sensível nos conduz pela magia do Poeta - o verdadeiro erudito , conheço alguns, trazem esta característica de abertua ao diálogo com o singelo senão não seria capaz de sua pr´pria poésis, penso,
    abraços de sempre admiradora virgínia

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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