terça-feira, 23 de junho de 2009

Olhares espelhados e nossos estranhamentos na realidade opaca

“O eu se conhece, sem dúvida, como refletido por toda a realidade objetiva que constituiu ou para
a qual contribuiu; portanto, ele se reconhece a partir de uma realidade conceitual.”(LÉVINAS, 2005).



Babel. Ninguém escapa da sensação gauche, um estar deslocado, perdido entre monólogos e alguns silêncios, intervalos e desencontros . Dada a habitualidade dos comportamentos, parece não estar entre as prioridades ouvir e compreender o outro. A caminhada apressada e mecânica nos conduz às conversas superficiais e repetitivas e testemunham nossa incomunicabilidade. Ver e não ver, dizer e não dizer. Entre avanços, recuos e torneamentos, nossos canais perceptivos falham, incapazes de conviver com o pluralizado.


A vida parece por princípio, cindida. Os que sabem e os que não sabem, os que podem e os que não podem, os que têm e os que não têm, o princípio da inalteridade reina mesmo nas pertenças grupais, o que acabou por naturalizar a açăo invisibilisadora .


Esses sujeitos do querer, do saber, ou do poder são bem delineados em Vidas Secas, pela enorme carga humana que a leitura traz:


“Evidentemente as criaturas que se juntavam ali não o viam, mas Fabiano sentia-se rodeado de inimigos, temia envolver-se em questões e acabar mal a noite.” (RAMOS, 1989, p.75). “Comparando-se aos tipos da cidade, Fabiano reconhecia-se inferior. Por isso desconfiava que os outros mangavam dele. Fazia-se carrancudo e evitava conversas. Só lhe falavam com o fim de tirar-lhe qualquer coisa” (RAMOS, 1989, p.76).

Identidades dissolvidas, substituidas pelo retrato estereotipado e classificado, presas no jogo de invisibilidade e visibilidade, privados das relações dialógicas.
A gama de especificidades das relações que estabelecemos com o outro aponta para a necessidade de redefinição das possibilidades de escuta, de contato e de interpretação. A identidade se constrói no espelho, no olhar do outro.Vencer barreiras invisíveis, e conquistar relações alteritárias é um desafio contante.

Restituir o olhar, o diálogo, a partilha, é um bom começo para o exercício da responsabilidade ética que se correlaciona com a experiência humana e a ressignificação do existir.

Referências:

LEVINAS, E. Entre nós: ensaios sobre a alteridade. Tradução de Pergentino Stefano Pivato. Petrópolis: Vozes, 2005.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 1989.

5 comentários:

  1. excelente Luciana , parabéns e muito obrigada , abraços

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  2. Beijo, Virgínia, muito obrigada, querida!

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  3. Parabéns, Luciana!Sábia crônica. Estamos necessitados de textos como estes, que nos levem a refletir sobre nossa humanidade, para que não tenhamos vidas secas...
    Beijos.
    Eloisa Helena

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  4. Lu, ao ler sua crônica pude perceber a profundidade de sua investida sobre a realidade que busca na aparência a validade ou por que não dizer, a verdade ética individual. Por ela, parece que tudo já está definido como critério absoluto de vida social. As expressões que você usa: “gauche, cindida, inalteridade e naturalizar”, mostram claramente todo entulho que se abate sobre um sujeito (indivíduo) que se deixa rotular por formas criadas numa relação social cujo critério de verdade é aquele que o separa da disputa existencial pelo bem; o que leva os excluídos a se conformarem com seu estado de sujeitos incapazes de serem importantes para o mundo. Não se permite, nessa realidade castradora, o acesso às formas privilegiadas do bem-vivido, mas cabe aos excluídos o inferno que sustenta a sociedade de privilegiados . Parabéns pela crônica, você é uma poetiza com mente de filósofo, consegue tirar questões valiosas em meio aos excrementos de uma sociedade porcalhada. bjs

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  5. Virgínia! Elô! Luiz! Que bom saber que gostaram! Muito grata pelo incentivo.
    Beijos

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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