domingo, 28 de junho de 2009

Quando a dor chega

Regina Codeço


Os últimos dias têm sido de muita tensão. Minha cachorrinha de dezesseis anos adoeceu pra valer. Ao chegar em casa, feliz e relaxada de uma viagem, ela não veio me receber como é de praxe. Desconfiada penso que algo sério está pra ser revelado, e como os pensamentos não são bons agito-me, apressadamente começo a procurá-la. Onde andará a Tuquinha? É de se admirar como num segundo eu posso pensar em tanto disparate? Lá vou eu pro seu cantinho, e vejo que não está; embaixo da cama - lugar que gosta de se esconder do que não quer fazer ou em qualquer outro espaço pequeno onde ela porventura coubesse, já que é uma cadela de raça pinche bem miudinha. Qual nada! Ela sumiu. Retorno pelos mesmos lugares já passados, prováveis esconderijos de minha Tuquinha, totalmente desgovernada, gritando seu nome aos berros, mas qual nada!

Chega aos meus ouvidos um ronco mais pra gemido. Estou escutando ou imaginando ouvir já que não é nada preciso? Não, realmente sei que escutei, mas de onde vem o ruído e como saber se o qualifico como a voz da minha pequenina. Outra vez o som estranho e meio sumido que agora sei que vem lá do quintal. Sim, lá estava ela no meio dos arbustos, debaixo do pé de jaca que prepotentemente enfeita os fundos da casa. Tuquinha pedia socorro à moda dos cachorros, extravasando seu gemido educado embaixo de uma chuva fina e fria. Ao trazê-la ao meu colo, abraçada no meu peito percebo que seus olhinhos esbugalhados, estão mais ainda proeminentes e uma terrível verdade me estremece. Ela estava ficando cega. E agora? Foi por isso que não achara o caminho de volta? Por que não conseguira subir as escadas, trapézio acrobático de sua existência pueril? Ou era eu que como ela não entendia, não queria saber? E atormentada pela verdade ameaçadora, finjo não entender, não querer pensar, saber...

Após o banho, percebi que estava faminta e enquanto a via comer fiquei sabendo que de manhã ela estava em casa. Olhei seus espertos olhinhos pretos, meio apagados, meio sem vida. Aí viajei no tempo, retornei há alguns anos atrás. Eram férias escolares, tempo de passear. Como deixar aquela pequerrucha longe de mim e das crianças? Quando os filhos são pequenos não querem ficar separados da gente. Assim sendo é mais afável sair com toda família junta inclusive os animais de estimação. Ou se sai com todos ou então se perde várias oportunidades.

Certa ocasião, nas férias de inverno fomos para um hotel. Como entrar com ela numa bolsa de viagem? Lembro-me que morri de medo de que latisse. Até que pra entrar deu tudo certo. Mas de nada adiantou o subterfúgio. Num dia inesperadamente ela latiu, alto e forte. Alguém ouviu e você já imaginou o final da história?... Pagamos uma multa e fomos embora. Tuquinha foi nossa companheira de viagens. Já subiu serra, tomou banho de praia, já participou de pescarias, já passeou de barca, já foi ao circo, touradas, participou inteligentemente de ensaios de cantatas, até seu retrato foi parar na casa de parentes lá do outro lado do mundo para ser conhecida e contar suas proezas. Já brigou latindo mais que podia pra cavalos, pra gente que se aproximava de mim, pra folia de reis e carnavalesca quando de férias visitávamos alguma estação balneária. Mas o que ela tinha mais medo mesmo era do boi pintadinho que quando disparava pra nossa direção, ela que latia corajosamente, corria assustada pro meu lado pedindo colo. O que será que passa na fantasia de uma cachorrinha tão pequenina, perguntava-me, perguntava-me? Bem eu não sei, mas afinal, atrevo-me a pensar que para um medo tão grande, a alegoria de um boi que renascia só podia ser um monstro pré-histórico, um ET., sei lá... Mas o fato era que seu coraçãozinho batia tão forte que ao abraçá-la eu lhe dizia: Ô Quinha, é nada não! ...

Tuquinha sempre me esperou sentadinha na entrada do portão. Era ela a primeira que me alegrava com seus abanos de rabo cotó, suas piruetas rebolativas, seus grunhidos alegre e baixinhos que diziam que era bom voltar ao lar. Eu lia sua mensagem de afeto, do nosso antigo relacionamento de amizade. Apanhava-a no colo, fazia-lhe um cafuné em sua cabecinha lisa, com voz de quem fala com criança, dava-lhe meu amor, a minha festa também; e só isso era o bastante pra lhe fazer feliz.

Sempre soube que a morte chegaria para ela, afinal eram dezesseis anos, mas sofrimento não. Ao ouvir as palavras do veterinário que estava tudo perdido, que já tinha passado da margem de vida... que agora era sacrificá-la ou vê-la sofrer, não soube responder as suas duas opções graves e racionais, que me estrangulavam, me matavam devagarzinho.Embora eu não quisesse sofrer, optei pela lei divina. Quando enfim chegar a hora, o resto não vou escrever, você já deve ter entendido.

(Colaboração enviada por email)

3 comentários:

  1. Querida, você descreveu Tuquinha com tanta poeticidade que senti uma certa intimidade com as cenas pitorescas e pueris que vocês viveram com ela. Sei como é triste perder um cão. Perdi um também. Eu e meus filhos sofremos muito.
    Beijos

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  2. ola querida
    passei por isso, fazem 2 anos.É uma dor desigual! A minha ja estava com 17 anos, os veterinarios, que foram dois, desenganaram, nesse mesmo dia...ela morreu nos meus braços. Junto com ela, foi um pedaço de mim. sinto falta dela ate hj. Não consegui substitui-la por nenhuma outra.
    Fique com Deus.
    bjus
    Marcia

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  3. Regina Codeço
    sua crônica creio é um jeito de apaziguar a saudade, Estes amigos tão verdaeiros nos ensinam sobre fidelidade e pureza afetiva, tenho ainda minhas próprias saudades. Cada perda levou mais ou menos dois anos para o luto ser superado...mas em memórias as criturinhas vivem, abraços compadecidos ,

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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