quinta-feira, 4 de junho de 2009

Três poetas em conluio

Luiz de Aquino

Abstenho-me de contar quotidiano, de analisar fatos e façanhas. Hoje, resumo meu texto a um poema decorrente, produto da leitura de dois poemas, dois poetas. E aqui vão as nossas vozes, a começar pela professora e poetisa Sílvia Neves, de Porangatu, Goiás:

Silêncio


No silêncio da cidade pacata

Aguça-se a percepção

Da melodia da existência

Contrapondo-se à essência

Na noite não se ouve ruídos

Enquanto o corpo descansa

A mente grita a ausência

Do barulho cotidiano:

O disse-me-disse

Da injustiça muda

Do desejo reprimido

Do suor expelido

Da doença que abrasa

Do desempregado sem casa

Do idoso que chora

Do visitante que vai embora

Do homem sem dentes

Da dama cega ardente

Do cavalheiro surdo

Da boiada no sol quente


Do som do berrante

O cansaço do estradeiro

Do mendigo errante

E a labuta do boiadeiro

Da moça que namora

Um amor que aflora

Com rapaz anda de bonde

No jogo do esconde- esconde

Da mulher que trabalha

No varal roupas anis

A animação do cachorro

Meio ao canto dos bem-te-vis

Do zunzunzum do mosquito

Um bando de periquitos aflora

Um despertar pelo canto do galo

No frescor da afetuosa aurora

No silêncio

A vida prossegue

Numa luta sem voz

Suave..

Atroz...

E aí vem Brasigóis Felício, poeta em tempo integral, analítico em profundidade das coisas humanas, incluindo-se a múltipla alma do poeta Pessoa...

O ESTEVES DA TABACARIA

Queria ser como

o Esteves da tabacaria

- sem poesia

e sem metafísica. Não como

Fernando Pessoa, o poeta,

que lá ia comprar

o seu fumo e a sua palha.

Olharia a pedra

e veria a pedra

e não uma forma imóvel

do rosto de Deus.

Se eu não fosse tão cheio

de certezas, tão carregado

de livros e medos,

seria simples e humilde,

como os que renunciaram

à vitória e à derrota.

Sabendo que a verdade

é uma terra sem caminhos,

seria tão silencioso

como as folhas na relva,

ou a solidão da neve

ou tão vasto como as aves

que não precisam de escadas

para voar na amplidão do céu.

Passaria a vida entregue

à minha desimportância

a fumar minha cigarrilha

na calçada do nada,

dando bons dias aos passantes

sem me sentir consumido

pelas moendas do tempo.

Passaria pelos dias

sem lamentar a passagem

da vida que viria

se tudo não tivesse dado em nada

como tudo dá, quando tudo acaba.

Seria um ser

tão sem destino

que todos os caminhos

levariam a quem Eu Sou.

Passaria pelos outros

mortos vivos como eu

indiferente ao vazio em que vivem

sem ter que cumprimentar os vizinhos

por mero protocolo

de civilizado aparente.

Não seria tão irônico e sibilino

como um cão filosófico

a vagir teorias pós-tudo

como animal raivoso a rosnar

em defesa de seu osso.

Se eu não fosse tão cheio

de certezas, tão carregado

de livros e medos,

seria simples e humilde,

como os que renunciaram

à vitória e à derrota.

Sabendo que a verdade

é uma terra sem caminhos,

seria tão silencioso

como as folhas na relva,

ou a solidão da neve

ou tão vasto como as aves

que não precisam de escadas

para voar na amplidão do céu.

Abelhudo, cheguei com a minha colher-de-pau...

Meu canto à Silvia

Os versos de Sílvia silvam

no silêncio dos meus tímpanos

vetustos (por isso, cansados).

Os versos de Sílvia

têm cores de madressilvas

e rostos comuns de pessoas

sonantes, suadas, silentes.

Verseja a mestre-mestra

de letras e formas de artepalavra

e desperta olhar de analista

do poeta em brasa

que não dorme, nem é cinza.

Cinza é a cor da minha cabeça,

cabeça armazém de ecos

em meses repetidos tantas vezes, somatório

de dores e de flores, que não se é poeta

impunemente, nem esteio,

nem dormente.

Meu nariz não aceita, minhas vias

de ares e aromas não suportam. Por isso, abro mão

do Esteves e da cigarrilha, beijo Pessoa, abraço

a brasa do poetamigo sulgoiano e elevo

salvas à Silvia, a nevar no cerrado

nortegoiás.



Um beijo, L.deA.

(Sílvia, permita-me sempre a revisão).

Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras (poetaluizdeaquino@gmail.com).

2 comentários:

  1. Bem-vindo, meu amigo! Bonita as vozes dos poetas e as imagens. Abraço

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  2. Obrigado, Luciana!

    Espero não decepcionar os leitores do blog...

    Luiz de Aquino

    ResponderExcluir

"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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