sábado, 13 de junho de 2009

Uma tarde de maio no banco da praça

Um dia destes ao sair do Conservatório de Música, resolvi parar na praça Nilo Peçanha, caminho de casa. A tarde estava agradabilíssima. Convidei-me a apreciá-la. Resolvi sentar e brincar com as horas - esse artigo luxuoso. Uma aragem acarinhava a todos que por ali passavam ou permaneciam como eu, num banco de praça, nada fazendo a não ser observar o que desenrolava ao redor.
Meus olhos sem adestração remexiam, ora para cá, ora para lá. De repente, deparei-me com a Matriz São José, erguida lá no alto do monte, portentosa em sua arquitetura neoclássica, impondo admiração. Acordei do torpor ao ouvir o dobrar e redobrar dos seus sinos.
É mês de maio, mês de ladainhas, mês de recordações, e são tantas e boas. Foi há muito, muito tempo que, neste mesmo jardim de hoje, vi meninas vestidas de cetim branco, da cor da pureza invadirem canteiros, apanhar flores brancas e, em algazarra única, desfolhá-las num pratinho de papelão pardo. Rosas e monsenhores alvos como a neve, desmanchavam-se em amontoado de pétalas, e assim faziam pra jogarem na santa, em todos os dias de maio, no encerramento das ladainhas da coroação.

O que a felicidade trazia para me deleitar em alegria? Sem dúvida, era vê-las, não nos vestidos compridos que a mãozinha pequena esforçava para segurar evitando o tropeço, mas a inocência mais linda que um dia se pode ter. Talvez por isso elas tenham o nome fictício de anjos. Fantasiadas com seda lustrosas e macias, translúcidas, subiam com leveza as escadas do altar de Maria, feito da candura do céu, salpicados de estrelas azuis e prateadas. Na fronte, a tiara escrita com flores, bordava a pureza cristalina, ostentando uma luz cândida... E as asas? As asas também voavam e voavam até o mais alto degrau do sentimento azul, carregando anjinhos inocentes, pelos sonhos de coroar Maria, nas tradições de maio.
Gostava de vê-las. Que extraordinária cena! Corriam e roubavam flores. Brigavam também quando na divisão do “apanha-apanha,” umas tinham em seus pratinhos parcas pétalas. Como anjo é anjo, diante das diferentes porções, tornavam a dividir. Um pouquinho daqui, e um pouquinho de lá e tudo terminava em risos, tudo pueril, tudo sonhado, tudo encantado, tudo pintado em angelicais detalhes, tudo abonado, como personagens de estórias encantadas que não se quer jamais esquecer.

Afinal, não se diz por aí que para anjos não existe castigos, ou que estes seres não têm costas ou, outras lendas a escutar por aí? Como persuadir minha consciência a pensar algo diferente? Seria eu uma tola a levantar este questionamento? Enfim: o motivo pelo qual se fazia o ato valia tudo.
Quando anjos não fazem tudo certo, se é que não fazem, penso que nos tratados da angeologia, os pretensos erros se pagam com beijinhos, iguaizinhos àqueles que mamãezinha distribui e misteriosamente sara o machucado que o filho fez ao cair. É santo o unguento dos lábios que beija o filho aos berros, é santo o colo que o acaricia cantando. É anjo aquela que abraça acalmando por um tombinho de nada, como se o pudesse proteger dos grandes tropeções da vida dos quais ninguém escapa e dos quais não há colo que acalanta.
Hoje não sei mais se ainda existe ladainha de maio, que rotineiramente e continuamente, acontecia em todas as noites daquela época antiga, que já eram frias, mesmas sendo outono. Existe coroação ainda? E os anjos? O tempo passou só pra mim, ou os costumes também mudaram por outros mais modernos?

Cadê as meninas etéreas, que em dias longínquos, eram bando de anjos a enfeitar o trono das nuvens das estórias da minha memória? Voou ou voaram, com suas asas escurecidas pela realidade ou foram os sonhos que subindo, subindo, sumiram no emaranhado de névoas, e ficaram esquecidas, amareladas, nas gavetas do coração, no livro da vida, a história de cada um.

Regina Codeço

(Colaboração enviada por email)

3 comentários:

  1. Esta crônica é multimídia.
    Na primeira leitura, quase pude ouvir as meninas brincando. Já na segunda leitura, confirmei de onde vinha tamanho barulho. A brancura das petalas das flores invadiram o monitor.
    Lembrei-me que imagens e cores sempre fizeram parte da obra dos grandes escritores.

    Abraço

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  2. Queridas Poetas e Escritoras Luciana e Chris nutro grande admiração.
    Agradeço imensamente a eco- lida
    muito obrigada!
    abraços da sua virgínia

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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