quinta-feira, 25 de junho de 2009

A VELHA CASA DA PRAIA

Regina Codeço


Quando meus filhos e sobrinhos se despedem de mim no portão de entrada de nossa casa da praia, simples e um pouco arcaica, sou tomada por uma forte sensação de prazer. Um arrepio me percorre e me faz bem quando ouço ao longe, como eco, a algazarra dos que caminham felizes para a festa na Praça. Ao fechar o velho portão, debruço-me ainda por um tempo nas envelhecidas tábuas, antigas testemunhas auriculares de tantos veraneios, de chegadas felizes, despedidas tristes, acontecimentos maravilhosos ou simplesmente degraus para descobertas surpreendentes.
Já vai alta a noite. O silêncio, esse meu velho e amado companheiro, abraça-me. Como eu o amo! Ele sempre traz para mim em papel de presente a riqueza da paz. Bate na porta da minha alma mansamente, eu o recebo em sua linguagem característica.
A quietude é grandiosa, e vou ficando debruçada na janela do meu coração por mais um tempo. Olho pro céu. Ele está tão lindo! A lua escancara seu sorriso largo e bonito. É noite de cheia, e a luz que dela flui faz clarear a noite aqui fora, me iluminando me acariciando.O coração também brilha. Eu, a lua e as estrelas em festa. Elas dançam o balé em cores reluzentes, piscando-piscando. Umas mais atiradas bordam o céu num caminho sem fim. Vovó dizia que quando se vê uma estrela cair, é pra se fazer um pedido bem depressa que ele acontece. Ah! santa inocência das avós, ah! que delícia as crendices infantis. Ah! Vovozinha!... Quem dera que fosse tão fácil ser feliz!...
Daquele jeito solitário como a noite, meus olhos se fixam nas casas e casas que se sobrepõem e definem a rua que tanto gosto de olhar. Os arbustos se arrastam e se espicham nessa senda comprida que leva ao mar. Meu olhar a acompanha até se perder da claridade que esvai, esvai; tanto mais se distancia a imagem da rua, tanto mais adormece meu belo pensamento. É silêncio total. Até o mar cochila e seu ronco se mistura na canção que me seduz. Estou só, totalmente sozinha, olhando preguiçosamente esta rua magra, de areia e de casas que se enfileiram e outra vez sinto a sensação de me encaixar na serenata da paz, onde não há solo, todos se completam em harmonia. À calma me rendo. Nada se mexe, até o vento, visita tão constante e querida neste local, foi dormir. Todos dormem. E fica a sensação de que me encaixo como peça relevante nessa harmonização - na linguagem de coisas fortes e puras, no meu diálogo com o silêncio.
Um pouco à frente, a casa mal-assombrada! Seu porte abandonado me inquiriu: há quanto tempo eu deixei de vê-la assim, com medo, naquele canto assustador? Também o tempo de coisas de criança já se foi. Eu lembro de mim, rodeada de primos, naquela cozinha grande, iluminada de lampião. Tempo de criança: sonhava demais e cria em todas as estórias que nos contavam. Lembro-me de que era a Fulgência, a tresloucada lá do fim do mundo, do cume da serra capixaba que, lá na cozinha, mexia no fogão de lenha - empoleirado de linguiças - o arroz doce que esperávamos ao som de estórias que nos assombravam tais quais as fagulhas que subiam vermelhas daqueles tições de fogo e pipocavam nos assustando. A primeira vez que entrei naquela casa esquisita, foi com olhos arregalados, coração na mão e pernas pra correr, mas não encontrei nada demais, a não ser um casarão abandonado pela dor. Também me disseram que os donos perderam seu filho único numa das viagens para lá e assim não mais voltaram àquelas bandas. Mas isso faz tanto tempo, que já perdi as contas.
E de conversa em conversas, resolvo entrar, fecho mais esta página de minha juventude. Até um outro dia, meu amigo silêncio, quando a ti revelarei outras páginas de minhas reminiscências.


(Contribuição enviada por email)

Um comentário:

  1. Que beleza de prosa, Regina! Contemplação e encantamento poético que aquece o coração. Grata, querida! Beijos

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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