sexta-feira, 17 de julho de 2009

Caminhando no jardim na viração do dia

Jardim deriva do persa antigo pairidaeza, de paraíso. Jardim é uma tentativa de resgatar o paraíso perdido. Quem não quer a oportunidade de criar ou recriar seu jardim? Quem nunca experimentou o medo de jamais ter o seu paraíso? Aproveito o passeio pelo jardim na companhia do Jardineiro. Meus passos no jardim são cuidadosos, meus olhares aguçados, meus ouvidos atentos à Sua voz . Ele me diz que para criar um jardim há que se levar em conta seu uso, o terreno disponível, a estética desejada, as estações do ano e o clima. Conhecer as plantas, os processos de semeadura. Além disso, realizar diferentes trabalhos de cuidado e proteção das plantas que compõem a área ajardinada.
Preparar o solo, arejar a terra, enriquecer com adubos e fertilizantes para então iniciar o plantio. Depois regadura, poda, tratamento... Perguntei sobre as escolhas certas já que esses plantios jardinísticos são extremamente diversificados e desempenham numerosas funções na estrutura do jardim. Ele disse que um jardim é construído após um projeto. Na História humana muitos povos projetaram seus jardins. Pensei sobre o meu jardim. Ele adiantou a fala. Há plantas como as folhagens que emprestam ao jardim toda a motivação decorrente do seu colorido, da sua textura ou da sua faculdade de emanar perfumes. Outras, como os arbustos servem para formar limitações especiais. Lembrei-me de uma obra de Van Gogh rosas dentro de um pote verde, rosas com pétalas entumescidas de todas as cores, desabrochando em labirintos lapidadas pelo pincel. Meu olhar, bem desamarrado sobre o jardim quis os mistérios da semente. O Jardineiro sorriu pedindo calma. E me contou que há sementes que se acham sem proteção pois o fruto dessas plantas é constituído de carpelos que não se fecham, outras ficam protegidas no interior do fruto, formado de carpelos que se fecham. Disse que há semente fértil, outras estéreis. E que para haver germinação são indispensáveis certas condições, umas próprias da semente e outras do ambiente. Faz parte das condições próprias da semente a integridade (possuir os órgãos essenciais); a vitalidade (estar viva e respirando); e maturidade (ter o embrião completamente desenvolvido e com reservas nutritivas acumuladas). E faz parte das condições próprias do ambiente a composição química apropriada do solo; umidade adequada; arejamento; luminosidade e temperaturas adequadas. Fiquei interessada no assunto. Ele me disse que há semente dormente, aquela que embora viável, não germina mesmo em condições favoráveis do ambiente. A causa pode ser física ou fisiológica. A dormência física pode ser provocada pelos envoltórios duros e impenetráveis à água e, em algumas plantas, até ao oxigênio.
Muitas sementes só conseguem germinar depois de demorada ação de microrganismo do solo e de outros agentes do ambiente que enfraquecem suficientemente seus envoltórios, a fim de permitir a entrada de água.
Como há semelhanças entre nós e as sementes! Que envoltórios duros estão nos impedindo? Na viração do dia, o Jardineiro convida-nos à reflexão, à experimentação de um viver pleno. Viver= ter vida, estar com vida, existir. Também significa: Perpetuar, gozar a vida sabendo aproveitá-la, habitar/residir/morar, sustento/alimentação, dedicação, conviver, forma de existir.É possível ao homem preservar sua centralidade e sair de sua própria centralidade para participar com os outros seres.
Ser e não-ser, é a decisão tomada a cada instante. Estas questões levam ao tratamento de quatro temas básicos da vida humana, que podemos denominar pressupostos básicos da existência. A saber: a morte, a liberdade, o isolamento existencial e a carência de sentido da vida. Os alicerces da existência às vezes estão cercados por duros envoltórios.

(Fragmento do meu livro Sobre Tempos e Jardins)

Luciana Pessanha Pires

3 comentários:

  1. Por mais que cuidemos , ou não, de nossos jardins, o Jardineiro maior, só ele, é que sabe o que carrega a semente...Já vi um galho seco brotar ao ser usado como estaca para outra planta, foi fincado por uma criança.Creio que você ao falar de sementes e plantas , fala de nós, de nossas relações com o mundo.Cada um carrega sua natureza, por mais que haja jardineiros cuidadosos.Lindas reflexões!Obrigada!
    Eloisa

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  2. Luciana parabéns, trasmites tua sabedoria de vida com propriedade e deliciosamete ,
    adorei, abraços de admiração e carinho
    tua virgínia além mar

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  3. Luciana como é bom aprender contigo minha querida , lindíssima crônica parabéns e muito obrigada ,
    abraços

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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