domingo, 19 de julho de 2009

Da crítica ao elogio

Nuvens carregadas, vento frio, sinal de muita chuva...
Pela janela do meu quarto observo o quão cinza é a cor da tarde de domingo.
Numa tarde assim o espírito torna-se receptivo a tudo e, um pouco mais, aos tristes sentimentos de mágoa.
Por que será que há sempre alguém magoando alguém? Por que se tornou tão fácil apontar defeitos, discriminar afetos, criar ressentimentos?
Nunca tantas pessoas têm evitado a ansiedade e a angustia, inerentes ao autoconhecimento, preferindo mudar as regras do jogo. Ao invés do elogio que humaniza e dá sentido à vida, preferem a crítica ou, ainda pior, o deboche.
Para que serve a crítica? Basicamente, para que não se corra o risco de sentir-se de forma diferente. Tão somente espelho a refletir, pois a vaidade, a arrogância e a soberba nascem precisamente da falta de amor por si mesmo e esconde uma ferida narcísica de impotência e humilhação. Exaltar o mortal veneno e dizer que busca a verdade jamais será solução de sobrevivência. Entretanto, seguir o caminho inverso ao da crítica é uma maneira de fortificar a solidariedade, incentivando o melhor que existe em cada ser humano. Dar um elogio é uma forma de afago e carinho, tem como objetivo sentirmos queridos e amados, e não implica em dívida nem tão pouco em crédito. Ir da crítica ao elogio é ousar a possibilidade do amor. Em realidade, necessitamos de humildade para adquirirmos o verdadeiro orgulho de sermos quem somos. Fazer brotar a centelha divina que dá ânimo para seguir adiante, enfrentar as durezas da vida e, quem sabe, até arriscar um simples bater de asa no céu, uma cantiga de ave, um atrevimento de vôo...
De súbito, a chuva cai forte acordando-me do devaneio, do balançar entre a inquietação e a paz que só existe nos corações sensíveis. Da lembrança surgem as brigas do tempo de criança quando uma dizia a outra: ‘o que vem de baixo não me atinge’ e em seguida: ‘ah, então senta em cima de um formigueiro’. Duas frases ingênuas, mas que têm um certo um fundamento. Já pensando em fugir de alguns ‘formigueiros’, busco pelo poder miraculoso de transformação do elogio nas palavras adequadas que os mestres sussurram aos meus ouvidos. A eles credito os meus acertos. E de volta à tarde de vento e chuva, busco pelo aconchego, na certeza de que em breve, quando menos esperar, um novo raio de sol vai despontar.

Maria Lucia de Almeida

5 comentários:

  1. Maria Lucia gostei
    grata pelo momento poético. abraços ensolarados

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  2. Lindo texto, Maria Lúcia. Muitas vezes o tempo acorda em nós o que está adormecido e nos leva a reflexões que a agitação não permite. O espírito realmente devaneia e a poesia se faz no momento. É um texto de puro encantamento.

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  3. Grata, Virgínia e Elenir!
    Meu beijo e carinho à vocês!
    Maria Lúcia

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  4. Gostei muito, querida Maria Lucia!Seus questionamentos são pertinentes e sua prosa poética realmente encanta.
    Beijos

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  5. Obrigada, Lu, por suas ternas palavras!
    Você é um encanto!
    Beijo!

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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