terça-feira, 14 de julho de 2009

Deus está vivo

DEUS ESTÁ VIVO

“O mito é o nada que é tudo”
Fernando Pessoa

Quando Nietzsche afirmou que Deus estava morto, suscitando uma polêmica que se estende até hoje, homem brilhante que era, sabia que aquele que a humanidade mata diariamente, colocando-o a serviço de sua vaidade e de seus interesses, não era o mesmo que ele reconhecia ser o limite de sua genialidade.
Pediram-me que escrevesse sobre religião, e, desta vez, não recorrerei à origem etimológica da palavra, mas ao conceito pessoal que dela tenho: Deus é o homem. Deus está dentro do homem. Está entranhado no ser humano, faz parte dele e o sustenta vivo. Ele está na essência do homem a que os sábios (?) chamam alma.
O grande Fernando Pessoa, num verso de imensa felicidade, escreveu: “O mito é o nada que é tudo”. É exatamente isso Deus: é nada, porque é impossível de provar-se com fatos concretos a sua existência; é tudo, porque a própria realidade não existe sem seu dedo criador.
É difícil ou impossível ao homem viver sem religião, a menos que acredite que a religião seja apenas um conjunto de ritos amarrados a normas, punições, proibições, céu, inferno, adivinhações, superstições. A religião sustenta o homem, mantém sua direção, quando tudo parece perdido e ele perde sua razão de ser. Ela o faz perseverar na crença de que algo superior o faz vivo e dotado da capacidade de superar obstáculos e superar-se.
Ao longo da história, a religião foi usada pelos dominadores e, em cada momento, moldou-se o céu e o inferno à vontade deles.
Digam-me: que Pai exigiria dos seus filhos só sacrifício, sofrimento, resignação, miséria? Não conheço nenhum, por pior que seja. Que Pai, para manter o privilégio e o poder destruiria os filhos dos outros, as famílias, cidades inteiras? Que Pai ofereceria aos seus filhos um regime de terror e de medo?
Nenhum. O Deus que está vivo em nós, Ser Superior, quer a nossa felicidade, quer o nosso equilíbrio, deu-nos a natureza maravilhosa, deu-nos a vida, deu-nos a faculdade de sonhar. Só cometeu uma falha: fez-nos humanos, imperfeitos, ambiciosos, vaidosos, tolos. Que pena!...Mas, acho que não, até nisso Ele é sábio. Que graça teria a vida sem a imperfeição? Seríamos apenas deuses. Até nisso, Ele garantiu a sua supremacia.

Elenir Burrone

3 comentários:

  1. Bem-vinda, querida Elenir! Estou feliz com sua presença aqui. Beijos e afeto

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  2. Elenir adorável, inteligente e bem humorada sempre,
    parabéns pela originalidade tbém.
    abraços desta que te admira um montão,

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  3. Parabéns pelo belíssimo texto Elenir!
    Abordou com maestria um assunto que não
    é fácil de abordar...gostei do passeio por
    tuas palavras...Estou adorando te ler
    Beijos com carinho agradecido e admiração
    da Eliana

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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