sábado, 25 de julho de 2009

Frase de camiseta





Luiz de Aquino



Com esse título, o poeta Marcelo Ferrari cumprimentou-me na manhã. Marcelo é presença diária entre meus e-mails, em mensagens curtas e densas, com a profundidade que o bom poeta sabe medir.

Pois bem! Desta vez, ele resume tudo dessa forma:


“Eu não tinha este rosto de hoje, / assim calmo, assim triste, assim magro, / nem estes olhos tão vazios, / nem o lábio amargo / Eu não dei por esta mudança, / tão simples, tão certa, tão fácil: / — Em que espelho ficou perdida a minha face?” Quando leio estes versos da Cecília, vejo alguém derramar em poesia a dor de se ver envelhecendo. E foi num espelho que vi o rosto de Cecília pela primeira vez. Os olhos vazios estavam estampados numa camiseta, ao lado de muitas outras, numa vitrine. Despencando sobre o ombro da sofredora, feito mão amiga, estava a camiseta de Caetano, que dizia: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Comprei e vesti. Desde então fiz da frase um lema. Leme. Uso a camiseta toda vez que estou com pena de mim mesmo. Vesti-la é como pelar a dor. Faz lembrar que é minha delícia. Que só eu tenho o privilégio de vesti-la”.


O parágrafo acima, todo ele, é a mensagem de Marcelo Ferrari.

Lembrei-me: lá pelos idos de 1968, uns raros estudantes brasileiros, retornados de intercâmbio cultural, usavam camisetas com as letras UCLA, de Universidade da Califórnia. Torcíamos narizes: eram alienados, baba-ovos dos imperialistas do Norte, os que bancavam as ditaduras militares da América Latina. Nossas camisetas ostentavam frases em português do Brasil. Mas volto ao texto de Ferrari e recordo o que li, ouvi, aprendi e curti. Noel Rosa escreveu “Pra que mentir?” em 1937 (o ano de sua morte), em parceria com Vadico.


Pra que mentir se tu ainda não tens
/ Esse dom de saber iludir?
/ Pra quê?! / Pra que mentir
 / Se não há necessidade de me trair? / 
Pra que mentir, se tu ainda não tens
 / A malícia de toda mulher?
 / Pra que mentir 
se eu sei que gostas de outro 
/ Que te diz que não te quer? / 
Pra que mentir
 / Tanto assim 
/ Se tu sabes que eu já sei / 
Que tu não gostas de mim?!
 / Se tu sabes que eu te quero / 
Apesar de ser traído
 / Pelo teu ódio sincero / 
Ou por teu amor fingido?!”.

Em 1982, Caetano respondeu-lhe com “Dom de Iludir”:


Não me venha falar
/ Na malícia de toda mulher / Cada um sabe a dor
/ E a delícia
/ De ser o que é... 

/ Não me olhe
/ Como se a polícia
/ Andasse atrás de mim 
/ Cale a boca
/ E não cale na boca
/Notícia ruim... 

/ Você sabe explicar 
/ Você sabe
/ Entender tudo bem /
Você está 
/ Você é 
/ Você faz / 
Você quer /
Você tem... 

/ Você diz a verdade
/A verdade é o seu dom
/ De iludir 
/ Como pode querer
/ Que a mulher
/ Vá viver sem mentir”.


Em suma: temos à nossa disposição centenas de milhares de belos versos para enfeitar camisetas, mas o que se vê nas lojas são expressões na língua dos imperialistas. Se eu fosse usar alguma camiseta com inscrição no idioma deles, a frase só poderia ser uma, trazida dos meus verdes anos: “Yankees, go home”.



Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras e escreve aos domingos neste espaço.

Um comentário:

  1. Luiz, perfeita! Gostei muito. Sua crônica tem a leveza aparente das frases que nos levam a profundas reflexões! Queremos mais.
    Eloisa Helena

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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