sábado, 4 de julho de 2009

Herdeiros do mar ?

Embarco e deixo-me embalar, em devaneios e reflexões, na imagem dos barcos vazios à espera dos Pescadores .Incomensuráveis foram as horas que me detive ao exercício contemplativo, talvez, buscando uma aproximação das figuras ausentes pelas quais nutro admiração nostálgica . Estas levam-me aos primórdios da civilização,anterior a agricultura que modificou hábitos; pescadores juntamente com o caçador-coletor, vivia integrado à natureza sob suas leis.O arquétipo de pescador poderia povoar-nos ? Poderemos utilizar da ancestralidade para aproximarmo-nos do antropos, arquétipo do homem natural dono de um saber instintivo, sensível ?Enfrentar o mais temido ; as forças da natureza e respeitá-las cabe ao bom pescador. Possuidor de conhecimentos sobre as condições climáticas, adquiridas através da observação celeste , ventos e, movimentos e sons das aves e marés...Serão Poeta leitores de estrelas ?
As águas negras das noites sem luar o amedrontam certamente mas não entregam-se às forças sombrias da psique. Acompanhado ou só com seus pensamentos e fé prosseguem . Embora tenham intimidade com embarcações não se avalentam demasiadamente ao ponto de desafiar o mar. Parece que não são consumidos pelo ideal de um eu... São ecologistas naturalmente, bem aterrados, apesar de sobre águas, quase sempre, estejam ocupados seus pensamentos.Flutuam como anjos sem asas no horizonte resguardando o sentido do sagrado ... Seus olhos encharcados de sol trazem o brilho dos que sabem que não estão a procura de quimeras e recompensas vãs. Seus sonhos também sobrevivem às ameaças do galope vertiginoso do progresso destituído de ética.No meu imaginário este homens que vivem da pesca são privilegiados por conta de poderem vivenciar a figura mítica do herói em sua lendária individuação , integração da própria psique emprestando conceitos junguianos. Esta atividade tão antiga não é ensinada nas escolas e sim no exercício de vida, transmitida oralmente de pai para filho na maioria das vezes.Quiçá haja espaço nos dias das cidades, para o homem contemporâneo que vive espremido entre os idéais de seus pais e seus próprios anseios de liberdade, para que vivam suas fictícias façanhas e, sintam-se fortes guerreiros; os melhores aos seus e aos olhos de suas mães. E, que um contentamento lhes sobre para sorrir ante as batalhas íntimas e as possa enfrentar de cabeça erguida.
Aos senhores , não de escravos, ou da natureza, mas de si mesmos, com suas mãos calejadas, cortadas pelas linhas de redes e vidas, açoitados pelo vento, frio e sal , que na tenaz coragem e humildade sobrevivem, pretendi reportar-me em singela referência. Ainda, fomentar a crença que possa haver respeito aos homens do mar e ao próprio.
Anseio que seus costumes simples sejam ensinamentos a futuras gerações o que não é fácil. Que a literatura ocupe-se também do valor das narrativas seculares de seus feitos, ansias de inclusão e, consiga aproximar-se , com linguagem acessível aos simbolos locais de seus herdeiros.
Alguns dentre estes homens, ainda são como pedras, simples na aparência contendo em seus interior um rio de fogo, apesar da pouca importância midiática a eles dispensada. Constituem uma resistência ante aos apelos do ter . Quero crer que hajam mantenedores da ligação com o centro da personalidade, contrastando com a corrida pelo capital e bens irreais ...

2 comentários:

  1. Virgínia, querida, Sua crônica é maravilhosa! Gostei tanto, amiga! Muito grata.

    Li outro texto que dizia que a imagem do pescador *é uma forma de registro coletivo da subjetividade e da memória, pois emanam do imaginário e de devaneios do homem ao desafiar a imprevisibilidade das águas. A relação do pescador com o espaço e o tempo, constituída no enfrentamento das condições de existência estabelecidas no entorno da água, é materializada na linguagem, dando visibilidade a seu imaginário, aos devaneios, sonhos, afetos, desejos e tormentos.

    *Andréia Duarte-Alves e José Sterza Justo

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  2. Luciana aprendo sempre contigo, muito obrigada amiga, estou indo procurar o texto.
    um grande abraço

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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