quinta-feira, 9 de julho de 2009

Itaperuna

Ao cair da tarde a praça de Itaperuna enche-se de crianças, jovens, homens e mulheres, o movimento é intenso. Vale a pena olhar o céu, sentir os ares, ouvir o sino da igreja e ver os homens, anciãos dessa terra, passeando na praça. Eles são altivos, conservam as calças de tergal, o suéter, o relógio de bolso. Boinas ou chapéus de boiadeiro na cabeça. Têm um ar de sabedoria na fronte sugada pelo tempo. Têm um ar de graça e de virtude. Nossa praça é cenário para o despertar do amor de adolescentes; piruetas de crianças, caminhadas, conversas longas, discussões inflamadas sobre futebol. Ela abriga pássaros. Abriga homens. Nela convivem os tipos mais diversos. Alguns arriscam acenos, promessas de uma visita, flertes e sorrisos.
Foi em Itaperuna, solo brasileiro dos índios puris, do bandeirante José Lannes, terra com Câmara Republicana antes da Proclamação da República, onde escolhi nascer, nos idos de 1963, e crescer, cercada por pai, poeta e comerciante e mãe, professora, tios e avós apreciadores de valsa e de encontros familiares aos domingos. Nesse tempo precioso aprendíamos com vovô Martiniano cantigas populares, brincadeiras e apreciávamos sua alegria de viver, seus rodopios com as filhas ao som de Vicente Celestino na vitrola. Vovô: uma cigarra aspargindo entusiasmo, jogando purrinha, ouvindo ladainha, apeando teso do cavalo, distribuindo balas para as crianças, distribuindo guaraná Ita, docinho, docinho, antes do almoço.
Reminiscências de infância, quem não as têm? Itaperuna, minha pérola negra, meu caminho da pedra preta, tem me dado muitos amores, nessa terra fecunda, três flores brotaram: Sabrina, Gilmar e Gabriel, meus filhos. Essa terra bendita acolheu minha irmã Cristina. Minha história de vida está deitada nesse solo. Aqui estendi raízes, agigantei galhos, flores e frutos. Deitei no chão algumas lágrimas. É aqui, nesse torrão que eu me gasto e me deixo gastar, construindo sonhos, desbravando fronteiras.

(Luciana Pessanha Pires)

11 comentários:

  1. Querida, vi sua praça pintada por você.Senti saudades de seu avô e do Vicente Celestino, de você, moreninha, chupando balas do vovô. Rica de afetos a praça de sua cidade! Ainda vou me sentar num banquinho dela. Parabéns!

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  2. Minha querida Eloisa, muito grata pelo carinho. Venha passear comigo na praça. Beijos

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  3. Lu, que texto gostoso... que lembranças doces! Eu nem me lembrava mais do termo "calça de tergal" :-) Adorei a crônica. Parabéns!!
    Embora não conheça ainda Itaperuna, deu mais vontade ainda de conhecer. Um dia irei visitá-la, com certeza, assim como outros amigos queridos que aí vivem, como a Wilza e a Sonia e Stellinha Salim.
    Beijos.

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  4. Luciana tuas reminscências são de babar , adoro cidades que mantém um estilo interiorano, nelas a vida e a comunicação são fartos, diferente das grandes metrópoles,
    que sorte a tua e a nossa de poder por tua escrita agradevel sorver punhado de Itaperuna . Um beijo para ti e teus filhos não menos sortudos ,
    tua virgínia

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  5. Gostei Meu romance ATE PARECE VERDADE passa-se em Itaperuna dos tempos da república velha. abrssssss

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  6. Luciana minha querida Amiga,
    Que Maravilha de passeio poeta !!!
    Tua cidade é um verdadeiro sonho
    E você suailustre escritora
    Com maestria, tão bem soube
    descreve-la para nosso encanto!
    Que vontade de conhecer esse pedaçinho
    de chão
    Grata querida escritora e Parabéns!
    Estou adorando te ler viu...
    Beijinhos de super bem querer da Li tua fã

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  7. Quantos comentários! Grata, queridas Virgínia e Eliana! Vou adorar receber amigas tão preciosas em Itaperuna. Faremos um lindo sarau. Beijos

    .....
    Olá, amigo. Será bom conhecer seu livro. Bem-vindo! Grata pela visita. Abraço

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  8. Chris, querida, ficarei muito honrada com sua visita. Venha mesmo!
    Será uma alegria imensa reunir amigas tão especiais aqui.
    Beijo grande

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  9. A palavra

    Palavra, quanta potência,
    quanto poder, quanta vida,
    és audácia e clemência,
    consolo a classe sofrida.

    Quando com diplomacia
    resolves grandes conflitos,
    usando de arrogância
    também tens teus favoritos.

    Oh, palavras, fontes sublimes,
    com o vento vais e voltas,
    levas amor, ódio suprimes
    teus bons sentimentos soltas.

    Interiorizas o que dizes
    com caráter universal,
    pois em ti guardas raízes
    de todo bem, todo mal.

    Até mesmo no além túmulo
    a palavra encontra vida,
    levando sempre o acúmulo
    das obras boas e afetivas.

    Sempre que me deparo com as palavras, quer verbalizadas, quer escritas, sei bem que ali está a expressão maior do "insconsciente como linguagem", deslocado para o presente. A palavra é a expressão maior do nosso existir como seres racionais, humanos.

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  10. Lu, querida, belíssimo texto! Você descreveu Itaperuna exatamente como eu sempre imaginei: doce, quente, entusiasmada, esbanjando vida. Espero estar com você em breve e ver e sentir ao vivo as alegrias desta terra, abençoada por trazer você para o nosso convívio.

    Grande beijo, poeta!

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  11. Muito grata pelo carinho, Camilinha! Ah que delícia receber você aqui na minha Itaperuna!
    Venha logo!
    Estou entusiasmada! Agendaremos um sarau lindo com todo esse povo maravilhoso!
    Beijos

    .........

    Também está convidada, Ninita! Grata pela visita e pelo poema.
    Abraço

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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Grata pela visita! Você é convidado a interagir.
Abraço!

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