domingo, 5 de julho de 2009

JOGOS

ELA: morena; 1,60; magra; cabelos longos; olhos castanhos; sempre cheirosa, carinhosa...

ELE: Claro; 1,75; 65kg, olhos castanhos; pensador...

A primeira vez foi na casa dele, no segundo encontro. Haviam combinado de ir a uma Cervejaria, mas no meio do caminho veio o convite:

─ Tenho vinho em casa! É caminho... O que acha?

─ Pode ser...

Ela concordou. Por que não? “Já estavam ali, de mãos dadas, os dois querendo... O bar, mero pretexto. ─ sabiam ambos.

Subiram.

Ela pediu banheiro. Ele abriu o vinho. Trouxe a música. O clima estava feito. Mal saiu do banheiro e os dois se atracaram, jogando-se na cama, com as taças cheias de vinho e desejo. SEXO. Agora era só o que importava. O mundo se dissolvia em cheiros, toques, suspiros, sabores dos corpos em ebulição. Entre um gozo e outro, um gole no vinho, um trago no fumo. Corpos nus, exaustos... As mãos deslizavam dos seios às pernas... Ela, de costas, provocava com os quadris. “Onde está a camisinha?” E tudo recomeça. A noite não terminaria antes das duas da tarde.

Uma semana se passou.

“Não gosto de camisinha”, reclama ele.

“Sem camisinha não dá!”, responde ela.

Curvas convidativas o hipnotizam. “Não vale a pena brigar por isso agora. Quero mais”...

Mais tarde ele insiste. O cheiro do sexo enlouquece.

─ Sem camisinha não ─ persiste ela.

─ Por que não? Com camisinha é que não dá! ─ Ele sentencia.

─ Não dá ─ ela insiste.

─ Então não dá! Não confio em mulheres que não transam sem camisinha! ─ diz ele, dando a última cartada.

Silêncio.

A música termina.

─ Por que não confia em quem não transa sem camisinha? ─ ela questiona, triste, afetada.

─ Você sabe por que ─ responde ele, testando.

─ Me diz!

─ Não preciso. Você é inteligente o bastante para entender.

Ele coloca um filme. Ascende outro cigarro.

Ela, nua na cama, atravessa as paredes com seu olhar. Por onde andaria sua mente agora?

Uma hora de silêncio preenchido pela TV. O que dizer?

Ela levanta. Veste-se.

Ele finge não ver.

─ O que está fazendo? ─ pergunta ele, em tom ocasional.

─ Vou embora! Já que não confia em mim, vou embora! ─ responde ela, tímida.

─ Sabe que não é isso. Sabe bem... Se não quer sem camisinha é porque não confia em mim! Tem medo de pegar alguma doença? Ou...

─ Ou o quê?

..

─ Ou é você que está doente?

Ela chora.

Ele sente o calafrio cortar a espinha, arrepiar os pêlos do braço. Ela tinha alguma doença!

...

─ Eu não sou confiável?! ─ ela pergunta.

Seus olhos viam outra paisagem agora. Não se poderia dizer se dizia o que dizia para ele ou para uma platéia invisível de fantasmas que assombravam sua alma.

─ Eu não sou confiável... ─ repetiu .... ─ Você sabe o que é herpes?

─ Não ─ ele respondeu, aflito (Era bom demais para ser verdade. Tinha que ter alguma coisa).

─ Você não sabe o que é confiar numa pessoa. No primeiro namorado. E depois descobrir que ele te passou isso. Não sabe o quanto sofri. Depois disso, meus relacionamentos sempre terminam neste ponto. “Na camisinha”. Eu não sou confiável! ─ repete ela, transtornada.

Ele observa. No escuro, só as silhuetas podem ser vistas. O rosto dela, em meio às sombras e os delírios do álcool se metarfoseava em formas assombrosas.

─ Eu gosto de sexo ─ Ela disse.

─ E quem não gosta? ─ Ele responde, constrangido. (O que estou fazendo aqui ─ pensa.) ─ O que isso causa?

─ Dor! Muita dor. ─ Ela responde, ente dentes, entre lágrimas, raiva e dor. ─ Sabe aquelas feridas que algumas pessoas têm na boca? É isso, só que aqui! Feridas, bolhas. Doe, coça!

Silêncio.

─ Por que me contou?

─ Normalmente, desapareço. Esse é o comportamento padrão. Quando chega a este ponto eu simplesmente vou embora e você nunca mais sabe de mim. Mas eu gostei de você. Gostei desde o primeiro dia...

Carência...

─ Te amo! ─ Diz ela.

─ Desculpe! ─ Ele responde.

─ Acharia justo se não contasse? Eu seria mais confiável?

─ Eu quis jogar! Quando se está em uma roleta russa sabe-se o risco que corre. Eu quis arriscar. Seria justo se me contaminasse. O risco era de nós dois. Também posso ter alguma coisa. Por que não? Hoje eu não sei, mas há anos não faço exames. Posso ter! É o risco que escolhemos correr. Faz parte do jogo.

─ Eu não faria isso com ninguém.

─ É por isso que todo mundo transa sem camisinha.

─ Parece que tenho uma estrela na testa.

.

. ─ Preciso pensar ─ Ele diz, rezando para que ela se vá. Que o pesadelo acabe logo.

Não vou ser herói. Nunca gostei dela tanto assim... ─ Ele pensa, enquanto fecha a porta do elevador.

O jogo não pode parar!



AUTOR: Sávio Damato

Um comentário:

  1. Savio, seu texo me remete aos tempos líquidos do sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Gostei. Escrevi uma monografia com esse contexto: "Já é ou já era: uma nova mentalização do amor".

    Abraço

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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