quinta-feira, 2 de julho de 2009

Lendo e vendo alguma poesia...

Cyana Leahy


A primeira grande linha divisória da história humana se apresentou na capacidade de comunicação simbólica que prenunciou a invenção da escrita. Em que pese a importância da tradição oral, a invenção do livro ampliou sua fixação e transmissão em grandes quantidades e em formas especiais. Isso teve inestimável valor para a compreensão histórica da estrutura social de forma permanente, aumentando as possibilidades críticas, racionais, lógicas de comunicação do pensamento. Ler e pensar são processos indissociáveis que caminham juntos na expressão nossa e do outro, na revelação e na partilha de idéias e sentimentos. O domínio da leitura e da escrita implica capacitação política, cidadania ativa.

O objeto livro tem fascínio social e cultural multidimensionado. Seu poder totêmico se exibe nas bibliotecas dos ricos, nas lombadas trabalhadas a ouro para serem admiradas. Ter livros, de preferência à mancheia, se traduz em poder social, econômico, político e cultural, quantitativamente: raramente se louva a qualidade da meia dúzia de obras que um bibliófilo possui, mas todos se quedam boquiabertos ante a quantidade de volumes que coleciona. Ler e ter livros é reserva das classes abastadas.

Minha história com a palavra escrita se iniciou nos bondes antigos do Rio, no trajeto entre o Centro (onde minha mãe trabalhava) e o Flamengo (onde morávamos). Para eu não dormir durante a viagem, minha mãe, professora, lia os letreiros das lojas por onde passávamos. Me encantavam as ‘letras com frio’, imensas lantejoulas prateadas da Casa Neno e sua promessa: serve bem ao grande e ao pequeno. Assim, fui alfabetizada nos bondes, tendo por cartilha os letreiros comerciais, fascinada pelo mistério dos sinais. Um pouco mais tarde, ganhei de meu pai a obra infantil completa de Érico Veríssimo, e então entendi o mais importante: tanto em forma de lantejoulas tremulando ao vento, quanto em tinta sobre papel, os sinais só ganhavam vida quando eu, elemento central do processo, lhes atribuía sentido. Sem minha participação efetiva, eram apenas sinais isolados que não se comunicavam com o mais profundo em mim: meu pensamento, minha imaginação, minha fantasia. Em seguida, veio outra descoberta importante: lendo, eu podia reconhecer e partilhar bens de consumo do cotidiano adulto, como a receita de bolo, o letreiro do bonde, o bilhete da vizinha. Eu já fazia parte daquele mundo, e me sentia pronta, aos quatro anos e meio, a desvendar os segredos da existência. Por outro lado, pressupondo que aprender a ler era ato tão natural quanto aprender a amarrar os sapatos, ficava perplexa no contato com adultos não alfabetizados. Entender essa e outras formas de exclusão social ainda levaria algum tempo.

Como prefaciou Célia Lucia Monteiro de Castro em livro meu, ‘a leitura tem muitos mistérios e encantamentos.’ Mistérios e encantamentos cercam a literatura, leitores e práticas sociais de leitura. Ler é olhar e ver, não apenas palavras escritas ou impressas, mas também pessoas e objetos que nos cercam, uma leitura da qual nos apropriamos através dos sentidos, das emoções, da razão – do pensamento. Mistérios e encantamentos.

Ler permite o acesso amplo e extenso aos bens culturais da humanidade, e às variadas formas de sua produção e consumo. Ler é ato transdisciplinar e eclético que compreende os outdoors da rua e a novela da televisão, as obras clássicas ou canônicas e as notícias de jornais e revistas de fofocas sociais. Ler já foi habilidade, exercício espiritual, atividade sagrada, meio de instrução da elite, acesso à verdade absoluta, causa de várias doenças: resfriados e dores de cabeça, enfraquecimento dos olhos, ondas de calor, gota, artrite, hemorróidas, asma, apoplexia, doença pulmonar, indigestão, obstipação intestinal, distúrbio nervoso, enxaqueca, epilepsia, hipocondria e melancolia.

Há leitores que se adaptam ao texto, buscam significados e se submetem às prescrições de leitura; outros contribuem com múltiplas interpretações e modos de percepção. Com formas variadas, são um coral polifônico, vivo, dissonante, em processo de permanente transformação. Merecem respeito. O importante é que a leitura suscite sempre dúvidas, especialmente acerca de nosso próprio olhar, favorecendo a busca de outros caminhos, novas direções, outros sentidos. Interpretar um texto é apenas o primeiro passo para sua leitura mais profunda, rumo a novos mergulhos e vôos, dentro e fora de nós mesmos. Leitores integrais realizam essa utopia liberadora através da literatura.

Para mim, a literatura é a combinação indissolúvel de arte, palavra, sociedade. A palavra é uma construção poderosa de fronteiras sociais, rotulando indivíduos em classes e castas: basta uma palavra mal dita para criar marcas indeléveis. A arte é outro divisor de águas na classificação das culturas e políticas sócio-econômicas: quem diz que só as classes abastadas gostam de arte abstrata e de música erudita nunca foi a um concerto, ópera ou balé a preços populares no Teatro Municipal do Rio. Sem ilusões: não existe uma predisposição biológica, cultural, ou sócio-econômica para se gostar de funk, axé ou concertos sinfônicos. É muito mais uma questão de oportunidade, de acessibilidade social. A arte – da cor, da luz, do movimento, do som, do odor, do sabor, da palavra – exige sentidos, emoções, reflexão; e isso não custa dinheiro. Custa leitura e sensibilidade, com todos os sentidos abertos à beleza, ao gozo, ao prazer. E isso, parodiando o anúncio, não tem preço.

Então, se a palavra e a arte são construções sociais, a literatura, arte da palavra, tem um poder mobilizador ilimitado, do qual nem sempre estamos conscientes. Arte, palavra, vida, liberdade são substantivos abstratos que se tornam concretos através da leitura. Concretizar abstrações através da leitura é ato transformador, revolucionário; é ato de amor e de educação. Leitores integrais são educados; não me refiro a etiqueta social, mas ao impulso de olhar e ver, à consciência da palavra, da arte, dos processos sociais envolvidos. Podem ter uma vida melhor, sendo sujeitos sociais mais plenos e felizes. Não é esse nosso desígnio maior? Crescer, viver e ser feliz?

Fica aqui a questão: isso se aplica à leitura da poesia? Por que sim? Por que não? Podemos experimentar um pouco, sem medir metragem, sem conferir rima, pensando em rhythm and blues apenas?

Com a palavra, os caros leitores, que sempre têm algo a dizer. Ainda bem!

(Contribuição enviada por email)

3 comentários:

  1. Cyana, querida, estamos honrados com sua presença no blog. Muito grata.
    Sua história com a palavra escrita nos bondes antigos do Rio é linda, poética.
    "Olhar e ver, ter todos os sentidos abertos à beleza, ao gozo, ao prazer, Crescer, viver e ser feliz". Que beleza!

    Beijos

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  2. Prazer em conhece-la Cyana
    que beleza de texto!
    Tem cores,imagens de alegria,
    perfume da curiosidade e um
    gostinho de quero mais...
    Agradeço por compartilhar
    beijos com carinho
    da Eliana

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  3. Cara Cyana Leahy seu texto é de uma riqueza singular que requer muitas leituras, à primeira vista sensível posso parabenizar-te pela capacidade de interrogações que nos submete . muito obrigada, voltarei a leitura , abraços virgínia

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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