domingo, 5 de julho de 2009

PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA

Mnemósine, a deusa da Memória, era filha de Urano e de Gaia. Foi consorte de Júpiter, com quem teve nove filhas, as Musas da poesia, do canto, da dança, do teatro... O papel da memória é despertar lembranças pelas quais, segundo Platão, “a natureza mortal procura, na medida do possível, ser sempre e ficar imortal”. O que o homem mais teme com a morte é ser esquecido, varrido da memória dos seus. Para garantir que sejam lembrados, os homens constituem família e procriam filhos que sejam portadores de sua memória genética. Ou produzem obras literárias, artísticas, artesanais, que o imortalizem. As artes e a ciência, por sua perenidade, são a resposta possível ao esquecimento, ao olvido – a dor que mais dói.

Das artes modernas, o cinema com seu fluxo de lembranças, permite a qualquer pessoa o trânsito franco entre o passado histórico e seu passado humano. No Tríptico A Morte de Sergei Mikhailovitch Eisenstein, de Vinícius de Moraes, ele volta à sua paixão adolescente pelo cinema, homenageando o diretor russo de "O Encouraçado Potenkim", também o teórico da montagem, ao qual o poeta faz referência: "O cinema é infinito - não se mede./ Não tem passado nem futuro Cada/ Imagem só existe interligada/ À que a antecedeu e à que a sucede".

Cinema japonês é lento; imagine um filme japonês que trata da vida após a morte. Os mortos são recebidos por guias numa espécie de ‘estação’ ou pousada; seu papel é ajudá-los a vasculhar suas lembranças e fixar um único momento de suas vidas que elas carregarão por toda a eternidade. Os guias se valem de filmes e videotapes que a relembrar o tal momento que eles imortalizarão. A idéia se baseia de novo em Platão, para quem a alma tem que passar por Lachesis (o passado), por Cloto (o presente) e por Átropos, o futuro. Em um ‘anime’ japonês Kaze no Na wa Amunejia (O Vento Chamado Amnésia, 1990), direção de Kazuo Yamazaki, todos na Terra perdem a memória e voltam a um estado primitivo, exceto um jovem, que fazia pesquisas para aumento da capacidade do cérebro. Ele, então, parte em busca de pessoas que ainda tenham lembranças.

Para Pierre Louys, a memória não se vincula exclusivamente ao passado, mas a um devir, um processo dinâmico, pelo qual a memória humana é um processo cognitivo. O neurocientista argentino, Ivan Izquierdo, acha que a leitura é o meio primordial de se preservar a memória. “Não tem nada que chegue perto. Lendo, você exercita a memória visual, a memória verbal, a memória de outras línguas que você porventura conheça, a memória de sinônimos, a memória de imagens. Você lê a palavra árvore e passam infinitas imagens de árvores em sua cabeça. A leitura é a que evoca mais tipos, mais formas de memória. Ler muito e ter bons níveis de escolaridade também ajudam a prevenir ou minorar os sintomas do mal de Alzheimer. Para aqueles que não têm vista para ler, ouvir alguém contar uma história é ótimo para a memória. Famosos escritores cegos fizeram isso e funcionou muito bem, como o argentino Jorge Luis Borges e o inglês John Milton”.

Cada indivíduo em particular acredita que sua vida deixará marcas indeléveis de sua personalidade. Mas para a Natureza, deixaremos apenas átomos de nossa passagem, em grãos de areia, nas espumas das ondas, no pó do calcáreo. Eu me planto de novo para crescer como a relva que eu amo. Se de novo me quiserdes encontrar, buscai-me debaixo das solas dos vossos sapatos. Deixando de encontrar-me ao primeiro momento, conservai a coragem: em algum ponto eu hei de estar a esperar por vós - Walt Whitman

tekka

3 comentários:

  1. Parabéns, Tekka querida, pelo belíssimo texto!
    E ao maravilhoso 'grand finale' de Walt Whitman
    Te beijo com carinho,
    Maria Lucia

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  2. TEKKA, querida, que leitura prazerosa você me proporciona! Muito grata.
    Beijos

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  3. Obâ adorei ler-te Tekka , imagens seduzem e dão asas, abraços de leitora e amiga,

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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