segunda-feira, 6 de julho de 2009

PORQUE DELAS É O REINO DOS CÉUS


Carmen Vasconcelos

Há lugares no Brasil - país do futuro - onde a natureza faz mudar o rumo do espírito. São vivências indizíveis, impactos sensoriais além da beleza, esta sim, comunicável. Cantada e decantada. Às vezes, chegar a esses lugares, porém, é um ritual de passagem. Passagem por rodovias deploráveis.
O caos está fincado no chão. As estradas estouram com as chuvas e, mesmo as mais transitadas, têm extensos trechos deixados ao abandono. Pior acontece com as vias marginais, com as rodovias que se estendem ao interior do país. Você está indo e, súbito, a estrada começa a sumir. Vai sumindo, sumindo... E some mesmo. É uma angústia viajar por esses caminhos, só compensada pelo desejo de respirar uns tais destinos. Contudo, as curvas do chão ferido reservam outras angústias.
E elas surgem aos bandos na estrada acidentada. O asfalto carcomido quase impede os carros de prosseguir. Quase não há caminho para quem trafega por ali. Haverá caminho para as crianças que jogam areia dentro dos buracos da estrada, em troca de uma dádiva qualquer, jogada dos carros obrigados à marcha lenta?
Elas vêm portando suas pás foscas, nas mãos pequeninas foscas. Sua roupa infestada de poeira. Fosca. Seu rosto fosco. Sua vida fosca.
Governar é reparar estradas, agora que estão construídas, é urgente, preocupam-se os ocupantes dos carros. Alguém precisa avisar aos governos. É. Mas, os caminhos esburacados dessas crianças, haveremos de repará-los?
Chegam tão perto que, mesmo engatinhando, os carros estão a ponto de feri-las. Ali passam ônibus, caminhões, e há o risco maior com as motocicletas, mais afoitas, zunindo de arrojo, desenhando zigues-zagues entre os buracos. Piora quando voltam as chuvas, os carros patinam sem controle pelo atoleiro, como barcos à deriva num rio de lama.
Essas crianças, aluvião nas margens da estrada, já nasceram feridas pela falta. Tudo lhes é tão insuficiente, tão pouco desde sempre, que os riscos, expostos sem pudor, são a sua alma, o seu hábito, o seu agora. E para elas há somente agora. Não se pode pensar em depois quando tudo é tão premente. Não se pensa em escola, jardins, brinquedos, traquinagens. Nem no quanto há relatividade na palavra supérfluo. Nem no absoluto contido na palavra abandono. “Palavras, palavras, palavras”... Palavras são partículas. A vida é volátil, mas pesa muito. Um peso enorme no vazio: a vida, partículas pendendo, partículas chocando-se. Não, como pensar em literatura ou teorias quânticas, com o pêndulo da fome no vácuo da barriga?
São quilômetros e quilômetros de estradas, a cena a se repetir, como se um cruel diretor de cinema a ordenasse centenas de vezes. Não cobrirão os buracos das estradas suas parcas pás de areia. Ficarão descobertos, como descoberta ficará a vulnerabilidade dessas crianças. Tudo combinado, tudo no ritmo da conspiração cósmica: os carros passando, apesar das dificuldades. As crianças ficando, com seus buracos, sua esperança movediça, sua inocência enlameada. Fincando-se, como as feridas do chão. Atadas ao seu caminho sem rumo, emboscadas pelo seu agora, inundadas pela impossibilidade do futuro.
Assim como a experiência com a natureza é muito mais do que desfrutar do belo, governar também não é só reparar estradas, não é só tapar buracos no chão. Governar é curar as feridas dessas crianças e prevenir outras feridas. Alguém precisa dizer isso aos governantes e aos que se pretendem governantes, mas quem o dirá? Será que as urnas, com sua costumeira indolência, esses entes por tantas vezes tão automáticos e sem autonomia, ousarão dizê-lo?


(Contribuição enviada por email)

3 comentários:

  1. Encantos e desencantos

    passei o ferro
    gomando a goma
    da vida gomada
    engomada pelo tempo
    equecendo os alentos
    que o sofrimento
    inventado pelo homem
    ainda consomem
    feito guerra
    de labaredas em chamas
    vulcânicas e apaixonadas
    quando acalmas a brisa
    em passos leves
    sobre as calçadas
    descalças sob os pés
    da maresia astuta
    de uma menina ingênua
    para o mundo de meu Deus,
    quer dizer: nosso Deus !

    sérgio, beija-flor-poeta


    amei o blog discutindo literatura

    sergio, bjp

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  2. Compartilho da sua indignação, Carmem. Aqui no interior sentimos o abandono, estradas em péssimas condições.
    Que habilidade, amiga! Seu texto merece respeito.
    Grata.
    Beijos

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  3. Bem pensado e dito. Precisamos de alertas como estes. Parabéns à Carmem pelo texto!

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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