segunda-feira, 6 de julho de 2009

Suavemente Suicida

Vive Le 14 Juillet !!!

O bar, esse ou qualquer um, é um estabelecimento para solitários. Piano que ninguém escuta, palavras que ninguém preta atenção. Um viveiro humano. Cinzeiros cromados, restos de comida e bebida, piolas novas e antigas e projetos de aventuras sentimentais com a duração de uma noite.

Há uma espécie de fatalidade no movimento das nucas marcando o ritmo da noite. Os homens lambem os dentes e as mulheres empinam os peitos. Circulam. Circulamos. O olhar do gueto escorre pelas minhas costas. Levanto-me. Ligeiramente incomodada. Nada tão suave, porém que não me faça desejar uma explosão nuclear em cima do local: suave é a extinção da espécie.

Acho que todo dinossauro sente esse inexplicável langor que nos pega pelo pé nos fins de noite ou nos domingos à tarde. Mais uma dose. Nela se dilui qualquer dúvida, qualquer culpa qualquer ansiedade.

Dois seguranças guardam a entrada. Saio para respirar. Um deles avaliou, com a precisão de uma casa de penhores, a grife das minhas roupas, minha maquilagem lançamento (“Sombras de Inverno”), meus dentes adequadamente polidos, o tamanho e design dos meus saltos alto... e me deixou vomitar em paz.

Lavei o ultraje na pia do toalete e treinei meu sorriso plastificado número dois. Esse sorriso desenvolto me cai bem. Estou fraca da última gripe, deve ter sido isso que acelerou a náusea. Normalmente ela só emplaca depois das duas da manhã, quando as caras em volta estão mais desesperadas.

O próximo passo é o monólogo

Nasci no inicio dos anos sessenta e sou mulher. Tenho quase cinqüenta anos a vida não pode acabar assim: pregando-me somente pequenas peças. Tem que acontecer, espero, ao menos uma catástrofe. Não fujo. Nem mesmo quando corro.

Minhas possibilidades de qualquer coisa realmente nova são muito limitadas. Às vezes acredito que não deve existir uma saída convenientemente digna.

A experiência do estudo e ensino da história me deu conhecimento da aplicação das penas para os que são agarrados por brilhar de mais ou de menos. E a dimensão do punhal de Brutus.

Música garçom, piano... Mudou pra violão

- Por que você diz que ela é uma desajustada?
- Se entope de calmantes e tem medo de acordar amarrada numa fogueira numa praça qualquer, em frente desse bar, na hora dos executivos

Os amigos fazem a história.

Às vezes meu quarto é branco como uma cela de manicômio. Às três horas da manha a vida pode ser bem pior do que ficar aqui escutando esse violão moderninho. Clássicos brasileiros. Daqueles com direito à batucada. A inteligência do bar se anima e bate com os talheres: um sarau...

Continuo a conversar com o vazio fumando o cigarro vagabundo que comprei no fiteiro da frente. Eles (os fiteiros e quiosques) explodem pela cidade, como bolhas de catapora. A classe média sobrevive.

Um ecologista sentou na mesa. Não autorizei. Falou da Amazônia, pulmão do mundo, tartarugas, preservação. Me deu fome. Pedi ao garçom sopa de tartaruga em extinção.Ele levantou irado, dizendo que eu ia acabar inutilmente terrorista, suavemente suicida.Mandei-o preservar os cheira- cola da esquina.Pura demagogia.Detesto os guardadores de carro, os cheira-cola que me arranham o carro e me roubam antenas que não servem para nada. Não dá para se fazer revolução com quem rouba antenas de automóvel. Levassem pelo menos o carro.

Durante os próximos dias vou reduzir minha fala ao mínimo. Vou deixar o telefone fora do gancho e afogar o celular. Só vou sair da toca para os bares. Eles ganham do lexotan habitual, próprio para deprimidos convictos.

Não adianta. Logo vai chegar alguém e ligar o som do carro em volume total. Brega is beaultiful. Nenhuma condição de ir lá reclamar. Em algumas civilizações, bom gosto vale bofetão ou estupro.

Amanha vou tomar umas três garrafas de champagne em jejum. É o dia da queda da bastilha. Vou comemorar meu herói Calabar. De noite , acabarei novamente voltando a esse bar infestado de intelectuais de classe média e falando pro garçom entediado: Vive Le 14 juillet....

Por Madalena Zaccara
Inverno-2009

3 comentários:

  1. Madalena, querida, adorei a sua crônica! Muito grata pela presença. Beijos

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  2. Madalena,
    Muto boa a sua crônica. Retrata com perfeição um cotidiano atual e interessante.
    Parabéns!
    Abraço da Maria Lucia

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  3. Muito bom !...rss..quase pensei que estivesse me descrevendo...rsss..
    parabens!

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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