terça-feira, 14 de julho de 2009

Tempo de não desistir



O Éden, o jardim de Deus, lugar onde Deus “plantou” o homem, tem abundância, tem fontes. Fonte fala de águas que correm. Água: alimento, frescor, dinamismo, vibração, plenitude, purificação. A porta da fonte deve estar continuamente aberta em nosso alma. Nosso jardim particular, nosso jardim comum, necessita abarcar a dimensão da Fonte das Águas Vivas.
Que amor nos move em direção a nós mesmos, ao outro, a Deus? Perdoamos realmente? Desistimos facilmente da pessoas pelas suas falhas?
Há um registro que me chama atenção no livro Bíblico de Oséias, capítulo onze, versículo oito: “Como te deixaria, ó Efraim?” Essas palavras de amor são dirigidas em tempos de apostasia de Efraim. Deus atraía seu filho pelo perdão, pelo amor abundante, frutífero. Deus não desiste de nós. Mas nós desistimos de nós mesmos, desistimos de viver, desistimos das pessoas ao avistarmos suas falhas.
Um dia de grande importância para os judeus é o Yom Kippur, que é o dia do perdão. Somos seres relacionais, formamos alianças de afetividade, de intimidade, alimentamos expectativas várias. Essas relações nos trazem sorrisos, felicidades, como também sofrimentos emocionais, frustrações. Molduras quebradas, botões que não se rompem na profusão de pétalas sonhadas. Manhãs com cheiro de desilusão. A semente parecia boa, a terra parecia pronta. O sol, a água, tudo na dosagem pedida; todavia, a flor não veio, não veio o milagre esperado. Algo aconteceu fora do nosso controle. O outro é uma surpresa. A surpresa sou eu. Provocamos e/ou sofremos feridas.
Nosso jardim não é perfeito. Nossa humanidade é impactante. E mesmo desejosos por mudança, sofremos constrangimentos. Se buscamos a reconciliação, a generosidade, a tolerância, o perdão, nem sempre somos bem recebidos. Para cada estágio de restauração, por vezes virá um nível de ataque: escárnio, conspiração, ameaças, astúcias, acusações, intimidações, sutilezas...
Quantos erros cometidos! E quantas consequências! Este processo: erro, reconhecimento do erro, arrependimento, confissão, mudança, pode ser doloroso, mas tem algo de libertador que vale a pena experimentar. Assim como é necessário enxergar as razões do outro, analisar as circunstâncias que o envolveram, para liberar o perdão. Conhecer as fragilidades, abrir-se em pétalas de humildade, saber-se em processo, em fazer-se constante, em semeadura, oferecer redenção, possibilidade de cura, de reencontros, tudo isso, esse olhar de lucidez para si e para o outro, abre portas de cárceres, constrói pontes, chegadas, nascimentos.
Há que ser valente, hábil, cheio de fé para resistir, para não desistir, para lidar com imperfeições, as nossas, as dos outros. O dia que está por vir traz um novo desafio, um novo chamado, vale viver para gozá-lo.
(Fragmentos do meu livro Sobre Tempos e Jardins)
Luciana Pessanha Pires

3 comentários:

  1. -é necessário enxergar as razões do outro, analisar as circunstâncias que o envolveram, para liberar o perdão. Conhecer as fragilidades, abrir-se em pétalas de humildade...-

    grandes são os que conseguem atingir a humidade de ver e perdoar , colocar-se no lugar do outro e n. julgar as pessoas por algumas atitudes, todos somos passíveis de incorrer em erros ...e de mudar tbém tentando ser acertivos... grande e bela metáfora do jardim

    minha doce Escritora e amiga Luciana quanta sabedoria em tua jornada Espiritual , não tive o privilégio de ler eu Livro Sobre Tempos e Jardins ainda, agradeço por este fragmento , irei divulgá-lo.

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  2. Vi, querida, obrigada. Percebo que o exercício do perdão é um desafio, um convite para olhar além. Penso em Greimas agora.
    Ele fala sobre nossa passionalidade, sobre ser, não-poder-ser, não-ser-mais, ser-o-que não-se-quer ser, não poder-ser, não-querer-ser, deixar-de-ser, não-saber-ser, querer-ser, crer-não-ser, não-sabe-poder-ser, dever-ser, dever-não-ser. E afirma que possivelmente, um dos traços de passionalidade que se constitui em torno dessa condição trágica do humano, é a angústia, o medo e a ansiedade gerada por sabermos que nosso tempo é finito. Que nossa performance no espaço é datada e nossa presença pulverizada a cada instante - nossas células, num arranjo cósmico, se decompõem. Nascemos, amadurecemos e morremos. Temos que conviver com a sombra de nossa morte.
    Na tentativa de se proteger e minimizar essa finitude, o homem monta para si, estratégias de permanência e controle desse caos iminente. Estende no espaço sua teia existencial: sua cultura, sua tecnologia, seus conhecimentos, enfim, complexos organizativos e administradores.

    Toda essa dinâmica nos afeta e as relações ficam comprometidas. "O bem que quero não faço, o mal que não quero está diante de mim". Não é fácil, amiga.

    Beijo grande
    GREIMAS, A. J.; FONTANILLE, J. Semiótica das Paixões. São Paulo

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  3. amiga Luciana anotei mais esta referencia ,
    abraço afetuoso e agradecido desta que muito te admira

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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