quinta-feira, 23 de julho de 2009

Uma canção Belkiss

Uma canção Belkiss


Luiz de Aquino


Três jovens jornalistas, recém saídas das salas de aula e cheias de imaginação, criatividade e vontade de render. Três mulheres decididas, dispostas a viver e deixar marcas – assim são Dalcione Gomes, Fernanda Ramos e Paula Sampaio. No decorrer de 2008, elegeram o tema de seu trabalho de conclusão de curso, o famoso TCC que fecha a grade curricular da formação acadêmica, ou seja, o projeto que se tem como o décimo quarto verso do soneto... Seu título: “Eu Kiss para sempre uma canção”.

Fernanda, Dalcione e Paula


Foi Dalcione quem me provocou. Contou que a musicista, pesquisadora, professora, escritora e multiacadêmica Belkiss Spenziere Carneiro de Mendonça seria o tema de sua monografia. Empolguei-me! Há décadas confessei, de público, o meu amor por Belkiss, e tratei logo de publicar em vários textos essa confissão. A cada nova notícia que eu punha no jornal, meu telefone tocava e, do outro lado, a voz jovial e firme da mais importante mulher goiana em todos os tempos me repreendia docemente:

- Seu exagerado... Muito obrigada, eu não mereço.

Não? Quem merece, então? Belkiss é um símbolo quase perfeito, exemplo de mulher a ser seguido por todas, principalmente as que ainda pensam que feminismo é queimar sutiã. Para ela, a ocupação do espaço e a assunção aos direitos implicava tão-somente o aprendizado, a criatividade e o trabalho, no que sempre foi ímpar, quase única.

É sabido que a avaliação de um TCC não se dá apenas na apreciação dos textos, na forma impressa adequada às normas da ABNT, às exigências de professores. A escolha do tema e a ótica com que se conduz a pesquisa, a linguagem (criativa às vezes, às vezes inovadora), a seleção de fontes de pesquisa e informação, de entrevistados, a edição de texto e imagens, tudo isso é o conjunto de critérios escolhido pelos autores, de modo a contemplar algo de novo ante os olhos dos mestres que, por sua vez, orientam e cobram para, ao final, consagrar a vitória dos novos profissionais.

Foi assim, imagino eu, que Dal, Paulinha e Fernanda atuaram. E listaram-me entre os entrevistados, com base em crônicas por mim publicadas sobre a Diva da música e das artes em nossa terra, aquela que transpôs fronteiras desde a verde adolescência, com realce justo durante seus estudos no Conservatório Nacional de Música, no Rio de Janeiro.

Nas três jornalistas egressas da Faculdade Araguaia, achei mais um detalhe que merece ser citado: o cuidado em retribuir gentilmente, com gestos de fina educação, aos que contribuíram com sua missão. Dalcione e Paula vieram à minha casa entregar-me cópia do DVD, tal como o conceberam para mostrar à banca de professores que lhes deram o grau acadêmico. O gesto é nobre, diferente do costumeiro entre estudantes de má índole (desses que, se os conhecemos estudantes, tememos quando os vimos profissionais). Essas moças têm educação formal e social, sem perder a jovialidade. São profissionais que, certamente, sempre terão boa recomendação, mas independem de terceiros porque talento e dedicação lhes dão a base justa.

Confetes? Flores? Jogo, sim. Elas merecem. Lamento que um trabalho como esse acabe condenado às gavetas e estantes, numa época desta sociedade em que só escândalos, violência e falta e caráter ocupam a mídia. Se formarmos 20% de jornalistas com a visão dessas jovens, certamente os jornais, tevês e rádios terão outras faces e o nosso tempo será ocupado com coisas de valor maior do que os trambiques de congressistas, executivos, maus empresários etc.

Já contei aqui de leitores que tentam me censurar por censurar autores de tramoias contra o erário e o povo pagador de impostos. Há também os que não gostam quando cito maus profissionais, pessoas que se empenham em ludibriar a clientela. Continuarei fazendo tudo isso, mas reservo-me para a água-benta também. Hoje, esparjo-a nesse trio de novas colegas no ofício da notícia, pois que elas sabem fazê-lo com arte e dignidade.

Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

Um comentário:

  1. Muito grata pela colaboração, meu amigo! Seus textos, sempre belos e criativos, enriquecem o blog. Abraço

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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