sábado, 29 de agosto de 2009

Divino espetáculo


Por que será que precisamos de tantos significados, explicações, rótulos, conclusões e detalhamentos? Qual a grande necessidade de estarmos sempre nos explicando, batizando todas as coisas, concluindo se é assim ou assado. Criando atalhos e justificativas, buscando lógica e razão, queremos segurar o mundo através de nossas cabeças, acumulando informações e conceitos. Entender, em certo sentido, é também fragmentar, dividir, analisar. Em nossa ansiedade por entendimento acabamos por reduzir a vida às dimensões já conhecidas, para em seguida cairmos no tédio e no desinteresse. Quando crianças, o mundo é sempre mágico e somos a pura expressividade. À medida que amadurecemos e aprendemos que a vida é assunto muito sério, esquecemos de brincar, de sentir e de apenas emocionarmos.
Tudo isso me ocorre a propósito de certa viagem de férias que fiz a um lugar paradisíaco chamado Dunas de Itaunas. Um pequeno vilarejo que fica ao norte do Espírito Santo e que nos anos 50, devido ao lençol arenoso soprado pelos ventos nordeste, foi totalmente soterrado. A vila, como que brotando das cinzas, renasceu nos anos 70 ao lado do rio Itaunas e do outro lado, próximo ao mar de um azul profundo, edificaram maravilhosas dunas de até 30 m de altura de areia finíssima e dourada onde o sol celebra sua existência espalhando seus lindos raios.
Do alto das dunas é possível ver a praia de um lado e o rio de outro e o lugar atrai turistas de todos os cantos do mundo que, ao chegarem em Itaúnas, ficam fascinados pela manifestação do sol na hora do crepúsculo. Por alguns minutos o céu é banhado de luz multicolorida e alí, por sobre as dunas, ficamos com a alma embriagada, encobertos e encantados por um imenso arco-íris. A vila refletindo as cores do céu dá a impressão do paraíso.
Foi durante esse divino espetáculo, raro momento em que me permito ir além dos limites do conhecido em busca dos mistérios do Sagrado, acreditando que nada existe que não tenha forma antes inventada pela natureza, que escuto, por acaso, a expressão de um pequeno coadjuvante da mãe-natureza. Uma criança de mãos dadas com sua mãe que, naquele instante, tornou-se símbolo do reencontro com a minha própria emoção:
- Que beleza, mamãe! Quem pintou?

Maria Lucia de Almeida

7 comentários:

  1. o encantamento , o espanto leva-nos a uscar o entendimento, linda crônica querida Maria Lucia , abraços afetuosos

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  2. Maria Lucia de Almeida29 de agosto de 2009 13:56

    Obrigada, querida Virginia! Fico muito feliz que você tenha gostado.
    grande e afetuoso abraço.

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  3. não poderia deixar de comentar, um texto tão bem exposto e pertinente ao ser humano...
    porque explicar tantas coisas que necessitam apenas serem sentidas?? Maravilhoso texto! Parabens.
    abçs

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  4. Obrigada, Márcia!
    Sua linda sensibilidade tem sido generosa para com o meu coração.
    Muitos beijos!

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  5. Maria Lucia! Seu texto é leve, limpo, crescente. Lindo, amiga! Grata. Beijos

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  6. Obrigada, minha querida mestra!
    Lú, você é um encanto.
    Beijo!

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  7. Que passeio encantador nos oferece com
    tua crônica Maria Lucia!
    Que beleza de momento!As imagens brincam
    em nossa inspiração
    Grata e Parabéns!
    beijos com carinho da Li Andorinha

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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