quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Espírito que “incita” senadores


Espírito que “incita” senadores


Luiz de Aquino



O Senado é um paraíso! A frase é tão corriqueira, entre políticos e jornalistas da área, quando uma locução de cumprimento. Afinal, são oito anos de mandato com direito a uma equipe de apoio de fazer inveja a qualquer artista em evidência no “xoubiz”. Se alguém duvidava, as denúncias contra José Sarney, imperador do Maranhão, Amapá e Alhures, com trono em Brasília, dão-nos conhecimentos além do que era apenas sonhado.

O bate-boca de segunda-feira, 3 de agosto, começado por Renan Calheiros, o garanhão das Alagoas, envolveu também Fernando I, o Collor, igualmente das Alagoas. Pedro Simon, que a opinião pública nacional tem na conta de uma das duas (no máximo) reservas morais do PMDB naquela Casa, sugeria a renúncia de José Sarney e Collor não gostou de ouvir o gaúcho referir-se ao caráter suspeito (?) de Renan. O ex-presidente, pioneiro mundial em impeachment, revestiu-se da velha petulância e protegeu Renan, que o abandonou na véspera da votação que tirou o “caçador de marajás” dos palácios da Presidência.

Ah, que bobagem! A nação viu, na tevê, toda aquela baixaria. Gostei particularmente de dois momentos: primeiro, da indiferença solene e superior de Simon diante da bravata de Collor ao ameaçar contar à nação fatos que comprometeriam a biografia de Pedro, o gaúcho ético. “Pois diga, senador”, solicitou Simon. A fanfarronada de Fernando I não atingiu a majestade do velho peemedebista. E o segundo momento foi o apoio de Cristóvão Buarque ao colega gaúcho. Buarque, sim, definiu o que se pretende do Senado brasileiro.

A propósito: esse PMDB de Sarney, Renan e da maioria atual não tem muito a ver com o MDB de Ulisses Guimarães, Mário Covas, Teotônio Vilela e outros nomes respeitáveis (em Goiás, o referencial era Íris Rezende Machado, Luiz Soyer, João Natal e outros de saudosa memória). Diria mesmo que nada tem a ver. O PMDB atual, nesse empenho em preservar o “coronel” maranhense que se elege no Amapá, está mais para a Aliança Renovadora Nacional (a famigerada Arena), o partido do “sim, senhor” que era presidido justamente por ele, o atual presidente do Senado.

Senado, Senado! A palavra sugere respeito. Afinal, deveria ser constituído pelos senis, os mais velhos. Daí o limite mínimo de 35 anos... Ora, ora! Se eles próprios cuidaram de empurrar para o futuro o piso de idade para a aposentadoria, porque não esticaram a idade mínima para cinquenta anos, hem? Estranho... Mas é bom lembrar que até mesmo o Senado Romano, já naqueles tempos que se tornaram história e enredo de centenas de filmes, tempos que geraram não apenas fatos, mas também monumentos da arquitetura da época, aquele Senado também tinha suas marcas de escândalos.

Foi na escadaria do Senado que Brutus matou Júlio César. E um dos mais lembrados dentre os senadores romanos jamais opinou sobre qualquer coisa discutida naquela Câmara, nem apresentou projeto algum. Refiro-me, ao senador Incitatus. E para os de memória curta (sem problemas... A gente não se recorda mesmo de cinco nomes dentre os últimos ex-senadores do nosso Estado), transcrevo aqui o que colei da Wikipédia, vejam:

“Incitatus era o nome do cavalopreferido do Imperador Romano Calígula. De acordo com o escritor Suetónio na sua biografia de Calígula, Incitatus tinha cerca de dezoito criados pessoais, era enfeitado com um colar de pedras preciosas e dormia no meio de mantas de cor púrpura (a cor púrpura era destinada somente aos trajes imperiais, ou seja, era um monopólio real). Foi-lhe também dedicada uma estátua em tamanho real de mármore com um pedestal em marfim. Conta a história que Calígula incluiu o nome de Inictatus no rol dos senadores e ponderou a hipótese de fazer delecônsul”.

Ao ouvir Collor vociferando contra Pedro Simon, imaginei cá comigo... Acho que o senador alagoano prefere ignorar Teotônio Vilela como exemplo e reportar-se a Incitatus.



Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


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