domingo, 23 de agosto de 2009

O ANIMADO CAMINHO DO MEIO

Para encarnar Sidharta Gautama no filme O Pequeno Buda, o ator Keanu Reeves encarou uma dieta rigorosa, comendo apenas laranjas e perdendo muitos quilos em poucos dias. Quem sabe Keanu se tenha inspirado em seu personagem, o Bodhisatva (o que chegará a ser Buda), que ficou imóvel sob uma figueira, na posição das pernas cruzadas e costas retas, a posição do lótus, até atingir a iluminação. Humano esforço de Keanu, humano empenho de Sidharta, importa menos o que fizeram e mais que tenham feito. Importa terem desejado, a despeito de ser o budismo a doutrina do não querer. E, no entanto... Haveria um querer mais intenso do que esse, de tornar-se Buda?
A possibilidade de realizar através do esforço é um dos nossos melhores dons. Nossa pulsão de vida se abebera dessa fonte. Graças à capacidade de buscar, exercitamos a superação e a superação nos impulsiona a crescer. Para chegar a qualquer lugar, é preciso alma, ânimo. Lutar pelas nossas vontades e ter vontade de lutar. Alimentar nossa íntima humanidade com cada grande e pequeno sucesso. E não perder energia carpindo fracassos.
Também não dá para ficar sangrando energia na busca do impossível. O rei sumério Gilgamesh, depois de mil sacrifícios pela flor da eterna juventude, a viu arrebatada de suas mãos e engolida por uma serpente. As cobras aprenderam a trocar de pele e renovar-se e ele aprendeu a inutilidade de se lutar por aquilo que não se pode ter.
Mas, como distinguir o possível do impossível? Não há exatidão; seja porque quando queremos muito uma coisa, nossa emoção costuma nos convencer de que essa coisa é possível; seja porque o possível e o impossível costumam mesmo emaranhar-se. Penso no budismo de novo. Uma de suas principais palavras é soltar-se. Experimentemos o sabor dessa palavra. Reinventemos os nossos quereres, eles podem ser flexíveis, realizar-se de mil modos. Não precisamos ser rígidos. Façamos... Mas com prazer.
“Para cada coisa há um momento debaixo do sol”. Há tempo para tudo, inclusive para deixar-se. Ficar quieto, fruir a correnteza. Uma vez um amigo me falou da lição da onda, talvez tirada de uma parábola oriental. Se a gente vai contra a onda, ela vem contra nós com a mesma força. Com a nossa força. No ocidente, sentenciou Isaac Newton: “a toda ação corresponde uma reação de mesma intensidade e sentido oposto”. Vale para corpo, mente e espírito: é bom estarmos atentos para não voltarmos nosso esforço contra nós mesmos.
O esforço revela a necessidade do descanso e o descanso revela a importância do esforço. O ócio (para os antigos romanos era “tempo vago”, “retiro”, “repouso”) nos ensina a perseverar (Sêneca). E toda coisa sobre a terra existe pelo seu contrário: a luz pela escuridão, a eternidade pelo instante, a ação pela contemplação, a fala pelo silêncio, o sim pelo não. Por isso as contradições (Deus as abençoe) nos fazem ser gente. Diante delas, podemos sim, vez ou outra, cruzar os braços, se assim nos convier. Ou, como Sidharta, cruzar as pernas, soltar os braços. Fechar os olhos. Ficar na posição do lótus, a dos estados alternativos de pensamento e intuição. Pela fusão dos contrários, não pela sua separação, descortinar-se-á, quem sabe, o caminho do meio, a harmonia da temperança.

Carmem Vasconcelos

(Contribuição enviada por email)

4 comentários:

  1. Puxa! Puuuuuuxa! Desculpe, mas esse texto caiu como uma luva para minhas mazelas, rs.
    Parabens querida! E obrigada por proporcionar-me o deleite da reflexão.
    Abçs
    Marcia

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  2. Maria Lucia de Almeida24 de agosto de 2009 14:45

    Amei,Carmei! Parabéns, muito lindo!
    Abraços da
    Maria Lucia

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  3. Maria Lucia de Almeida24 de agosto de 2009 14:46

    Desculpe-me pelo erro de digitação.
    Amei, Carmem!

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  4. Carmem adoro este filme , muito obrigada por recordar-me , parabéns por tua excelente crônica,
    abraços

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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