quarta-feira, 26 de agosto de 2009

UM CONCURSO


(imagem google)

O concurso é desafio sobre a capacidade de pensar e de se fazer entendido por outros.

Soninha Porto

Participar de concursos é isso. Esta crônica coloquei num concurso da Comunidade Poemas à Flor da Pele e foi selecionado em 2º lugar. Este resultado é significativo, já que fui quase entendida, ou o que falei serviu pra alguma coisa. Pelo menos pro resultado do concurso. Lendo-a novamente, lógico que já alterei alguma coisa, mas no seu bojo continua a falar do encontro do meu íntimo comigo mesma. Redundância? Pode ser, mas quem escreve sabe do que falo, momento em que prestamos mais a atenção em nós mesmos. E fui em frente. Então, com vocês:

O POETA E O POEMA

O poema nasce do confinamento do poeta em si mesmo. Pois é, lendo Vinícius de Moraes e a sua prosa "Transfiguração pela poesia", esta frase brotou do fundo de mim. Maravilhosa essa força das palavras! Que provoca até fazer seus efeitos. A poesia só existe quando toca o outro, pensei. E pensando nisso, Vinícius renasceu ali, no exato momento em que me prendeu a seus pensamentos. Logo me arremeteu ao concurso de Machado de Assis, fiquei até em dúvida, de como o tema poderia se encaixar nas idéias Machadianas, ele que penetrou como ninguém nos meandros da alma humana.

Tentei me ocupar com outras coisas, fui até a cozinha, tomei um café, fumei um cigarro, mas em vão, conclui que o pensamento tinha me aprisionado, por mais que eu tentasse escapar, nada mais teria sentido, até que eu, confinada em mim, escrevesse sobre o poeta e o poema em sua nascente, sobre as idéias e imagens que chegavam pulverizadas...
Tentei me enxergar ao escrever e percebi a essência do pensamento do poeta, o que ele quer dizer, e é engraçado me observar, a entrega a um completo delírio, sem descanso, até que o ponto final chegue.
O meu lado poeta fala alto, imagens minhas e dos que padecem, ou aquelas doces e ternas, que escorrem dos vãos da minha alma cheias de fantasmas ou inspirações.Tenho a impressão de que os vultos se aproximam, sem nexos a procura da forma, e pouco a pouco vou construindo ou desconstruindo. Creio que Vinícius me fez desconstruir, a partir de seu pensamento busco o que me inspira e tento desfazer o quebra-cabeças, a língua ferina da dor, ou a que adula o viver.

Na tela, pinceladas de arco-íris e de sombras que persistem duras e frias. O poema parece planar e eu também, derramo sentimentos que pulsam, vivos de crueza, de cheiros, da sensibilidade que insiste em falar de amor. Porquê de amor? Se a vontade é de rasgar-se até a exaustão.
Mas o amor persiste, ele faz cair os véus do tédio, acalora o corpo e traz cor. Desse delírio de afeto ilusório transformo manhãs e as noites passam a ter luas, onde ilumino-as com versos.
Mas o lamento remexe, machuca, é um andar nas sombras à procura de luz.
Sensações poderosas, que a minha mente insana provoca, ao fazer culto ao amor, ao corpo e a alma, ou às perdas, que só eu sei, das tantas e tantas tristezas nas sinistras noites de solidão.

E de tanto pensar e criar, o desfecho de uma noite em mim é a embriaguez em versos do poeta pra fugir da indiferença que o cerca, ou para reter a beleza do que sente, onde junta tudo e joga nas palavras o manto das desventuras, ou encantos oriundos de seus sonhos. É uma viagem ao fundo, é a transcendência do ser, a sensação do prazer infinito, quando ele chega quase a lamber os versos e cospe a poesia. Quer atingir indiferentes, ou em chamas, os cheios de esperança e confiança na largueza da vida, o que seu transe proclama, ainda que viva em si um vazio.

Que significados terão estes pensamentos pra alguém? Este confinamento vai ajudar a renascer quem chora e sofre? Vai dizer algo a quem ama e canta?

Com essas idéias todas bailando em mim, olho pra noite, o céu tá escuro, lá fora está frio, tento me aquecer e enrolada numa manta, ainda me faço perguntas e depois de cansar de tanto olhar o lado de fora, volto-me pra dentro de novo, as palavras me chegam meio sem sentidos, fogem, relutam, até que num repente de inspiração o poema se entrega, pronto, inteiro, sem contestação. Satisfeita com o resultado dou pequenos retoques. É preciso rever, irá viajar pelo mundo à procura do outro, aquele que em sintonia com minhas idéias, retenham-nas em um novo confinamento. Pode ser que não provoque nada em alguns, mas esta liberdade é a que quero, a beleza do vôo livre do poema, em rumo incerto, ou a crítica certa.
Ao chegar, como chegou a prosa do genial Vinícius, completa-se o ciclo vital do poeta, do contrário a poesia nasceu morta.


4 comentários:

  1. Mas que texto lindo e perninente! Como uma boa carioca e amante da poesia, sou completamente apaixonada por Vinicius! E aí está meus dois pontos fracos que me levaram admirar seu texto.rss
    Mas independente de qualquer coisa, muito bem escrito e de claro entendimento para quem entende a alma do poeta!
    bju linda

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  2. Obrigada carioca, que divino nosso Vinícius né? Inspirou-me mesmo! Valeu por você ter lido, a crônica fez sua parte,. UM abraço e pra vc e todos os cariocas que amo!

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  3. Soninha querida que espetáculo de sentimentos, tuas palavras estão cravadas neste peito, parabéns a premiação foi merecida,
    abraços

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  4. Obrigada Virgínia, acho meio grande, mas enfim, teve seu momento de glória, e o mais legal que serviu pra passear pela alma.
    Beijus amiga.

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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