sábado, 12 de setembro de 2009

SÁBADO, SETEMBRO 12, 2009



Giulio Cysneiros, Antônio Olinto e eu, inaugurando o Espaço José J. Veiga na Biblioteca Central do SESC, em Goiânia, dia 5 de setembro de 2007.



Almas materiais

Luiz de Aquino

Beth Almeida, entre mim e Antônio Olinto (*)


A vida era ainda, para mim, algo de muito novo e a descobrir a cada instante. Ou melhor, não era a vida, mas eu próprio a novidade. A vida, propriamente, estava aí, tal como está ainda, desde quando Deus fez a Terra com planícies, montanhas, rios, mares e praias e planaltos e geleiras etc. E sobre ou sob, dentro e fora, colocou as cores das plantas e o ânimo dos animais.

Pois bem: nunca me esqueço que a vida começava todos os dias, e começava cedo. O sol era a mesma bola de fogo centímetros acima da linha do horizonte, e o horizonte de Caldas Novas era verde de matas, e as manhãs eram frias e sonoras de pássaros e poucas vozes de gente. As pessoas eram todas nossas conhecidas.

Era essa a infância de mim. E já naquela época eu sabia que algumas pessoas, algumas famílias, algumas casas tinham sua alma repetida. Não a alma individual, mas alguém que dava equilíbrio à alma imaterial de cada um. Ou à sua família, ao seu lar, a sua casa física (também). Essa “alma”, visível e palpável, era alguém sem a qual a pessoa em questão, ou a família que a rodeava, ou a casa que ganhava calor e harmonia não existiriam. Ou não existiriam como a entendemos.

Numa família, que me era próxima, a alma era Maria, uma empregada de décadas. Maria dedicou cerca de cinquenta anos de sua vida a equilibrar a família que lhe dava salário. Mas não era apenas salário: era o lar, o sustento, o social... O equilíbrio, enfim. Aquilo era, e eu menino já o sentia, a troca perfeita. O mesmo se dava na humilde casa do meu bisavô, o mais bonito dentre todos os velhos da minha terrinha natal. Para ele, o fiel de balança era Sebastiana.

Na tevê, já se veiculou matéria jornalística mostrando pessoas que são “almas” de personalidades políticas, esportivas ou artísticas. Dão-lhes nomes outros, como assistente, secretário (a), governanta e outros mais. Sinal dos tempos, que gosta de criar novos nomes para funções antigas. Para mim, são almas materiais.

Pouco tempo após a morte de José J. Veiga, conheci, em pessoa, o escritor Antônio Olinto, que personaliza, para mim, a figura do acadêmico completo. Imortal da Academia Brasileira de Letras, ele reúne em si funções várias, todas ligadas ao mesmo ofício de cultor das letras. Jornalista, critico literário, professor, poeta, ficcionista e diplomata (neste item, o adido cultural perfeito). E quando o conheci, ainda vivia ao seu lado a também escritora e pesquisadora incansável Zora Seljan, que hoje o acompanha do outro plano de vida.


Antonio Olinto, Célia Siqueira Arantes e Beth Almeida

Imaginei ser Zora a alma andante de Antônio Olinto. Não era. Esta era, para o casal Zora e Antônio, ninguém menos que a pessoa que os acompanhava em todos os passos: Elizabeth Almeida.

Nestes quase dez anos, estive muitas vezes com Antônio Olinto. Visitei-o várias vezes, no Edifício Itaoca, em Copacabana. Ele veio a Goiânia algumas vezes, a última delas a meu convite, para inaugurar o Espaço José J. Veiga na Biblioteca Central do SESC. Estando aqui, sempre foi palestrante na Academia Goiana de Letras ou no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Estar com ele é aprender sempre, e muito. E bem!

Antônio Olinto vive, no momento, época de restabelecimento da saúde, abalada com o peso de um pouco mais de noventa anos de intensa vida intelectual. Jamais o vi sem Beth Almeida ao lado. Tenho certeza, pelo que vi sempre, e pelo que ouvi dele mesmo, que o autor de A Casa da Água não vive sem seu anjo de guarda (e vida). Afinal, são quase trinta anos de zelo ininterrupto.

Um beijo, Beth Almeida! Sou seu fã, tanto quanto o sou do nosso grande amigo e ídolo comum.




Luiz de Aquino (http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com) é jornalsita e escritor, membro efetivo da Academia Goiana de Letras, e escreve aos domingos neste espaço.

Antônio Olinto autografa para Célia Siqueira Arantes (Goiânia, 05/07/09).


(*) Antônio Olinto faleceu no sábado, 12 de setembro, horas depois de esta crônica ser escrita.

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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