sábado, 17 de outubro de 2009

Canto de Véspera




Luiz de Aquino




Era o primeiro ano deste século. Cuidava eu dos afazeres, como um livro de contos, outro de poesia, um curso de especialização (nenhuma necessidade... No dizer da professora Maria do Rosário Cassimiro, passamos a vida tentando fazer um bom currículo e, quando o conseguimos, estamos aposentados; era o caso) e outras ocupações talvez desnecessárias.

Dênia Diniz de Freitas presenteou-me com alguns ótimos livros. Entre eles, “Oráculo de Maio”, de Adélia Prado, poetisa mui amada, alma das Alterosas e das boas letras. Livro belíssimo, como tudo de Adélia. Meu tempo de leitura foi de doce torpor: a alegria do aprendizado na poesia mágica de quem nasceu fada. Motivado, escrevi alguns poemas, pensei publicar um livro chamado “Canto de Véspera”, mas limitei-me àqueles poucos poemas que, enfeixados sob esse título, inseri no volume poético “Sarau”, que publiquei em 2003 para festejar o jubileu de prata da minha estréia em livros: “O Cerco”.

Já falei sobre o ofício de escriba de jornal. Escrevemos de véspera e, ao dizermos “hoje” referimo-nos, realmente, ao amanhã. Então, e quando é o caso da crônica, posso esclarecer que o hoje é verdadeiro, e não a data do jornal. Hoje, por exemplo, é 15 de outubro, Dia do Professor. O jornalista Luiz de Aquino, estimulado pelo poeta Luiz de Aquino, naquele 2001, tentou por mais de três meses, todos os dias, entrevistar a poetisa mineira que Carlos Drummond de Andrade mostrou ao mundo. Debalde: ela poetisa-musa não tinha tempo para os da província.

Este, porém, não é o móvel destas linhas. Conto de livros outra vez, porque são eles a minha principal cachaça. Livro é vício, e vício bom. O incômodo são os ácaros. Vivo cercado de livros. Uso-os todos os dias, ainda que não seja naquela cena de alguém a ler. Consulto-os sempre, para matar curiosidades ou subvencionar um texto, ou ainda para orientar-me. Não me bastasse a familiaridade com eles, há os que arranco de mim e espalho até onde os posso enviar. São dezesseis títulos de própria lavra, edições de terceiros e muitas antologias, em prosa e verso. Duas vezes por semana, escrevo crônicas e avolumam-se os originais em memória de computador e recortes de jornais. Aos poucos, transformo-as também em novos livros.

Acabo de festejar trinta e um anos como autor . Comemorei com mais um livro, no mesmo cenário que me acolheu em outubro de 1978: Pirenópolis. Mal o tive pronto, voltei às pesquisas, organizei um novo livro de poemas, a que me dedico estes dias. Aguardo a revisão de outra obra, com textos sobre a Língua. E já cuido de mais dois livros (crônicas outra vez). No plano dos planos, outros dois: um de cunho histórico, em linguajar jornalístico, e o outro, um documentário. Tudo bem, Luciene! Sou sonhador, sim, mas não sei parar. Se paro, durmo; ou fico triste.

Isto que lhes conto, meus leitores, repete os afazeres de 2001. É o meu “modus vivendi”. Certa vez, quis fazer doutorado, mas fui desmotivado por um professor-doutor que não poderia ser outra coisa senão (s)ociólogo. Sim, Rosário Paranhos: há sociólogos e (s)ociólogos, e o demônio que me atendeu na Universidade era desta categoria. Saí de lá aliviado: doutorado para quê? Não preciso mais de currículo, professora Cassimiro!

Mas continuo fazendo textos, em prosa e poemas, sempre cercado de livros vários, e variados. E justo neste hoje, Dia do Professor, no país que dá aos mestres piso salarial de um terço do que se paga ao soldado de polícia, trabalho sobre estes livros e faço pausa para esta crônica domingueira.

É o meu Canto de Véspera...










Eu, velho professor, entre professoras do Liceu.
Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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