quarta-feira, 21 de outubro de 2009


Goiânia: argamassa, asfalto e livros



Luiz de Aquino






O poeta Guido Dutra, brasiliense de Anápolis, envia-me um apanhado de fotos da Normandia. Não são fotografias comuns, mas flagrantes colhidos nos dias que se seguiram à ocupação, aquele que passou à História como “O Dia D”. O capricho está nas tomadas atuais, focando os mesmos cenários, nos mesmos ângulos das imagens de maio de 1945.

Senti-me triste. É que, nestes 46 anos de presença em Goiânia, cidade que festeja 76 anos de sua Pedra Fundamental (e há 72 anos tornou-se a sede do governo estadual), vi muitos prédios demolidos sem qualquer respeito ao que, no nosso caso, formaria a História visual da cidade. Pedro Wilson, quando prefeito, reconstruiu os jardins da Avenida Goiás, devolvendo a Goiânia uma de suas mais belas imagens. Na década 1970, o coreto da Praça Cívica foi transformado num monstrengo inexplicável, mas o prefeito Rubens Guerra o restaurou, recobrando a forma original. Penal que os vândalos o depredam várias vezes ao ano, e a Prefeitura tenta preservá-lo.

A França buscou restaurar a Normandia, após a Guerra Mundial, respeitando os prédios bombardeados, devolvendo-lhes as condições de habitação e proporcionando, outra vez, um belo visual. Em Goi... Desculpem! No Brasil, essa vontade fica apenas nos corações dos poetas e arquitetos sensíveis, porque existem os que preferem demolir tudo para construir outra vez, modernizando para enriquecer-se. Dói-me ver que uma propriedade do Exército Brasileiro, a casa onde viveu o marechal Cândido Rondom, no Rio (Rua Mata Machado, em frente ao Maracanã) é, agora, um esqueleto totalmente abandonado, quando devia ser um patrimônio histórico.

Se a memória física (patrimonial) não é preservada, a gente briga e se esforça para manter a história das pessoas. Como me empenhei no sentido de fazer valer a memória do contista José J. Veiga, que, vivendo fora de Goiás desde os seus vinte anos, deixou clara a sua vontade de ser lembrado na própria terra. E coube ao SESC de Goiás acolher e preservar seu acervo, a meu pedido. Antes, porém, amigos da desgraça tentaram destruí-lo. Os livros, móveis e objetos, depositados num cômodo de confortável e significativa casa no centro de Goiânia, foram parar no porão, para serem destruídos pela umidade e as traças. O SESC restaurou tudo.

Livros, livros... Já tivemos valiosas livrarias na cidade.Na Rua 4, o Bazar Municipal, da família Scartezini; na Rua 8, a Figueiró, dos Figueiroa; na Rua 2, e depois na Rua 3, a Livraria Brasil Central, depois a Universitária, a Planalto... Mas o Bazar Oió foi, seguramente, o mais emblemático. Era a livraria de Francisca Hermano e Olavo Tormin.

Lá pelo final de 2007, recebi e-mail de uma jovem, Lúcia Tormin Mollo, de Brasília. Neta do casal Francisca e Olavo, a moça concluía Jornalismo e desenvolveu o seu trabalho de conclusão no resgate da história da livraria, a única no Brasil que a famigerada ditadura dos generais linha-dura fechou no Brasil. Lúcia veio a Goiânia várias vezes, visitou escritores e ex-funcionários, ouviu professores e inúmeros amigos de seus avós. O trabalho ficou muito bonito, estimulei-a a publicá-lo, e o livro já está em ponto de lançamento, editado pela competência de Iuri Godinho, da Contato Comunicação.

Enquanto espero o lançamento, sigo minha rotina de escriba e futriqueiro das coisas de letras. Publiquei mais um livro, trabalho na conclusão de outros dois e tenho mais dois em andamento, enquanto sonho mais e mais. E atendo a quem me procura: escolas, veículos de notícia, colegas escritores, professores, curiosos...

Na terça-feira, 20, deste outubro, ou seja, ontem, a TBC, ou, como prefiro dizer, a TV Brasil Central publicou entrevista minha à bonita e ágil Michelle, repórter competente. Falei de escritores e procedimentos literários de uma Goiânia antiga. Antiga? Coisas de sessenta ou cinquenta anos passados, apenas. Goiânia atravessará alguns séculos para ser chamada de antiga. Entrevistas são ocasiões em que o entrevistado fala muito e acaba dizendo pouco. Por exemplo: citei dezenas de grandes escribas desta cidade, mas a edição não tem como publicar tudo. E, fatalmente, posso ter esquecido alguns nomes importantes – tal como posso, nesta crônica, omitir livrarias de peso na vida da cidade –, mas penitencio-me sem culpa. Outros cobrirão minhas falhas.

Nestes dias de festa, a semana em que o 24 de outubro se insere, presto humilde e individual homenagem à cidade que invadi naquele agosto de 1963, com uniforme do Liceu. Beijo seu cenário e seu passado de valorosos construtores, sejam eles de casas e ruas, de educação e finanças.

Ou ainda de poesia, música, pincel e tinta.Livros!








Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com.

Um comentário:

  1. Maravilha o seu cantinho.
    Na intenção de divulgar o meu trabalho, cheguei até você.
    Gostei muito do seu espaço. Eu não estou podendo ler tudo de uma vez porque a tela do computador atrapalha um pouco a minha visão, mas certamente voltarei mais vezes. O meu oftamologista pediu que desse um tempo da telinha... e eu sou fraca ?
    O meu território já está demarcado.
    Convido a dar uma espiada em "FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER.." ( o seu cantinho de leitura), em:
    http://www.silnunesprof.blogspot.com
    Terei sempre uma história para contar.
    Saudações Florestais !

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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