terça-feira, 13 de outubro de 2009

Livros dos outros


 


Luiz de Aquino





Meus amigos, ando de boca torta de tanto falar em livro. Sim, em livro, e não em livros. Ando falando muito no meu mais novo, de crônicas ao redor e no meio de Pirenópolis, minha amada Meia-Ponte (juro que preferiria chamá-la sempre assim, ao modo antigo). Mas resolvi, hoje, engavetar meu umbigo e olhar em torno e para o alto. E é olhando para o alto que me coloco, sempre, no meu lugar: mais embaixo. Ou no “baixo clero”, como me defini, há alguns anos, com relação aos notáveis da Academia Goiana de Letras.

“Baixo clero” é como a imprensa, e os próprios, referem-se aos deputados de menor destaque no Congresso Nacional. Parece-me que o termo não se aplica a senadores, talvez por serem em muito menor número. Na AGL, com apenas quarenta membros, não seria o caso, mormente por se entender que, ao chegar ao sodalício (palavra de pouco uso nas ruas e na mídia, mas muito comum entre academias de letras), o escriba já tem, ao menos em seu meio de ofício, alguma notoriedade por conta de seus méritos literários.

Na prática sabemos que a retórica não equivale ao que o público e a crítica conceituam. E aí há um caso raríssimo de coincidência, críticos e populacho se entendendo. Há poucos anos, o público leitor brasileiro estranhou a eleição de um escritor que, no discreto rigor do consumidor de letras, não reúne qualidades. Antes, esse mesmo público rejeitara a eleição de um empresário jornalista, de um cirurgião famoso e, antes ainda, de alguns políticos de altíssimo coturno (literalmente, para um deles), desde a década de 1930. Mas, fazer o quê? Academias são clubes fechados, com pouquíssimos eleitores. Estes é que escolhem quem quer para chamar de “pares”. Raramente são ímpares...


Láureas à parte, tenho aqui, nas mãos e ante os olhos, alguns livros deliciosamente belos. Não me refiro ao esmero editorial, que acho muito importante também, mas ao sabor, ou seja, ao conteúdo de seus textos. Sim: conteúdo de textos. Porque um livro contém textos, mas textos podem ou não conter qualidade. Estes os têm, sim. Refiro-me a “Minha Perna e Maria”, de Ivair Lima, misto de psicólogo e repórter, meu amigo dileto. Não digo que ele é bom por ser meu amigo, mas podem apostar que por ser bom é que ele é meu amigo. Gosto, sim, de pessoas com qualidades. Qualidades artísticas, mas principalmente qualidades morais (e não me refiro a duvidosas qualidades morais, como as de falsos religiosos; refiro-me a um cidadão de bem e a um escritor primoroso na condução dos fatos imaginários, na construção de personagens marcantes e na feitura de versos contagiantes).


Tenho também estes do arquiteto, professor etc. e tal Elder Rocha Lima: “Apologia das mãos” explora um tema por demais tratado em teatro, poesia, conto, romance e manuais de medicina, mas o poeta do imagético arquitetônico brinda-nos até mesmo com a bênção: “A imposição de mãos é um gesto que praticamos sobre outra pessoa para aliviá-la de algum sofrimento físico...”, e se essa abordagem incomoda a alguns fundamentalistas do cristianismo, pois o autor registra que o ato tem origem na Índia e no Tibete, ele destaca a Bíblia Sagrada, com registros dos evangelistas sobre o modo de Cristo abençoar. Outro livro dele na minha cabeceira é “Utopia - o discurso e a prática”. E, por último, o que mais me chama a atenção para a leitura imediata: “Guia Afetivo da Cidade de Goiás”. Este, além do conteúdo de texto em que o título, por si, recomenda a obra, há ilustrações de bico-de-pena pelo autor, talentoso e competente artista plástico. Uma obra de referência, sem dúvida, e um livro que enriquece qualquer estante e consciência.


Por fim, o “Fuso de prata”, de Alcione Guimarães. É um livro indispensável para os amantes do conto. Do bom conto, aliás. Há contistas de todos os matizes neste país continental. Em cada Estado, os escritores constituem-se num pequeno universo que traduz a alma telúrica, o ambiente social, o “habitat” dos nativos cuja cultura se mescla de boa comida, figurino adequado e letras e artes possíveis. Alcione destaca-se, nas últimas décadas, como das mais expressivas e talentosas artistas dos pincéis e cores. Há poucos anos, surpreendeu-nos com “Zuarte”, um livro de poemas que me convenceu de que um artista tem, sim, duas linguagens (ou mais!). Os poemas e os trabalhos de pintura, no mesmo número, significavam a expressão da autora em duas linguagens. Todos aprendemos muito com ela, naquele livro. E “Fuso de Prata”... Bem, é um belo livro, eivado de passagens poéticas, como nessa pequenina definição do encontro inevitável e forte: “Seus olhos e os meus... nossos olhos... falam. Perdidos em uma lembrança imperceptível como se se conhecessem e se esperassem há longos anos”.


Diante desses livros, lendo-os, parando para deliciar-me de cada frase, fica em mim a eterna pergunta: porque os leitores de Goiás, quando perguntados sobre o que estão lendo, respondem sempre com obras traduzidas e, lá de vez em quando, produzidas nas regiões nacionais de maior expressão econômica?

Os goianos precisam ler mais goianos. E deixar de lado a vergonha besta de admitir que é possível gostar do que fazemos.







Luiz de Aquino é escritor e jornalista (poetaluizdeaquino@gmail.com), membro da Academia Goiana de Letras.





Um comentário:

  1. Deliciosos comentários nos levam aos desejo de conhecer os livros! Repito sua pergunta e certa forma:por que não lermos o que é local? Não é banal!rsrs Parabéns!

    ResponderExcluir

"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
...
Grata pela visita! Você é convidado a interagir.
Abraço!

Para correio: discutindo_literatura@yahoo.com.br