sábado, 5 de dezembro de 2009

Parque Carmo Bernardes


Parque Carmo Bernardes


Luiz de Aquino


Maestro Joaquim Jaime, regente da Orquestra Sinfônica de
Goiânia, na inauguração do Parque
.


Estive duas vezes, nos dias 27 e 29 de novembro, no Parque Carmo Bernardes, obra municipal que valoriza substancialmente o Parque Ateneu. Em ambas, fui acolhido com a gentileza do presidente da Agência Municipal do Meio Ambiente, Clarismino Júnior. A imprensa, alvo daquele primeiro encontro, a dois dias da inauguração oficial, noticiou com fartura os dados, imagino que só faltou o número de árvores existentes (as de replantio, certamente foram notícia).

Não me cabe fazer ressoar a estatística. Prefiro a análise emocional do cidadão anônimo e a emoção do poeta. Imaginem: privei da amizade de Carmo Bernardes, fiz dele meu exemplo a seguir, dei ouvidos a sugestões suas e candidatei-me duas vezes a uma vaga na Academia Goiana de Letras: na primeira, disse-me ele, iria lá votar em mim, mesmo doente, caso seu voto me fosse indispensável.

Vislumbrei que Isócrates de Oliveira me derrotaria e não insisti com meu ídolo. À vaga seguinte, não concorri; preferi ver Eurico Barbosa ascender à imortalidade e obtive dele apoio para a próxima ocasião, e essa veio-me de modo triste: faleceu Carmo Bernardes. E fui eleito para a Cadeira 10.

Em meus arquivos, encontro dezenas de textos em que cito o velho mestre. São passagens em matérias jornalísticas, crônicas e outros relatos. Resumo recordando que, quando lecionava no Colégio Estadual Dom Abel, entre 1968 e 1970, fui professor de três de suas cinco filhas. Isso nos aproximou e concedeu-me a liberdade de, declarando-me seu leitor, comentar os artigos, contos e crônicas de sua lavra publicadas no semanário “Cinco de Março”.

Eu e Clarismino, presidente da AMMA.


No dia do meu aniversário, este ano, enviei a Clarismino Júnior o texto que me foi pedido para ser inserido na lápide sob o busto do escriba patureba (sim: Carmo nasceu em Patos de Minas, mas veio para Goiás antes dos cinco anos de idade e tornou-se um dos nossos mais legítimos regionalistas). Costumava dizer-me ele que não era bom ficcionista, nem sentia falta do esforço da imaginação, pois a vida vista e vivida eram munição bastante para muitas vidas, se lhe fossem permitidas, de farta produção literária. E foi ele, certamente, dos mais ricos detentores de palavras e falas dos nossos camponeses.

Parênteses: explico aos mais moços a palavra “camponês”: é o mesmo que sertanejo, caipira ou roceiro. A expressão era relativamente comum no nordeste, mas no período democrático entre 1945 e 1964, surgiram por lá as tais “Ligas Camponesas”, um dos alvos dos golpistas da “revolução”, carimbadas pelos caçadores de bruxas como comunistas. Por ter sido proibida ao longo de vinte e tantos anos, a palavra caiu em desuso, apesar de sua bonita sonoridade.

Se Deus me der vida, escreverei ainda muito mais sobre Carmo Bernardes, além das minhas crônicas, meu discurso de posse na AGL e as matérias de jornais em que enfoquei o grande goiano nascido em Minas (aliás, são muitos e muitos milhares os grandes goianos nascidos em Minas... Minha mãe inseriu-se aí). Prefiro, agora, repetir o que escrevi para o busto de matuto letrado:

“Carmo Bernardes, intelectual profundo.

Carmo refutava o academicismo que “não mergulha”, aquele que “só faz análises de superfície”. É ele o escritor de todas as águas – as límpidas e as turvas, as profundas e as do espelho de céu e nuvens, as plácidas e as de cachoeira. Perfeccionista na linguística e na gramática, aplicava com maestria as regras do bem-escrever ao linguajar simples e vasto das gentes e lides do campo. Enfim, um homem denso e simples, rico e despojado.

Luiz de Aquino Alves Neto

(Sucessor de Carmo Bernardes na Cadeira 10 da Academia Goiana de Letras)”.

A população do Parque Ateneu e adjacências está feliz. E de parabéns. O mérito, porém, é das equipes do prefeito Iris, especialmente a do ambientalista Clarismino.

O busto de Carmo, a placa e eu, envaidecido pela

oportunidade de homenagear meu amigo e antecessor.



Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, e escreve aos domingos neste espaço. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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