sábado, 12 de dezembro de 2009

Poesia, dinheirama e truculência

Poesia, dinheirama e truculência


Luiz de Aquino


Enfim, o fim do campeonato brasileiro, o mais indeciso de todos os tempos, imagino eu. Até o último minuto de cada jogo, à exceção de Goiás x Vitória que cumpriam tabela, ficou aquela expectativa de mudanças radicais, coisa provável a cada novo gol. Mas, para alegria da maior torcida do mundo, deu Flamengo. E a vida se refez em rubronegro. Em Curitiba, a pancadaria programada pela torcida “inferno verde” aconteceu. E os bandidos quebraram tudo, desafiaram e atacaram a polícia (o contingente era muito pequeno para a horda desenfreada).

Em Brasília, o panetone do Arruda faz o maior sucesso! Com fidelidade à denominação de seu partido, democraticamente a turma do governador viabilizou o tráfico de cédulas de real, em imensa quantidade. Tinha dinheiro em cuecas, paletós, calças, meias e, dizem, até mesmo em carteiras de bolso, dessas que o pacato cidadão comum usa para abrigar suas parcas notas para o consumo indispensável.

Em Goiânia, os muros do Goiás Esporte Clube ostentam poemas de poetas locais. Fiquei feliz com o pedido de Leda Selma, poeta e cronista de elevada qualidade e assessora da diretoria do “Verdão”: Quero um poema seu para o nosso muro”. E, como eu, vários poetas encaminharam seus versos: Maria Helena Chein, Edival Lourenço etc, e tal.

Mas o dinheiroduto do Arruda, no Distrito Federal, enervou os estudantes e alguns sindicalistas. E estes foram às ruas, ocuparam a assembléia distrital, foram retirados de lá por decisão judicial mas, com muita saudade dos tempos em que podiam tudo, alguns coronéis mobilizaram a turba fardada, quero dizer, a tropa, e reinstituiu a repressão com coices, porradas, tiros e espancamento em público. Quer dizer, a PM de Brasília não é covarde, não se oculta nos porões para torturar, mas o faz a céu aberto.

Aqui em Goiânia, um médico muito moço, acometido de algum grave incômodo (passageiro, disseram alguns) partiu com quatro patas contra minha mulher, que pedia socorro no posto de enfermagem ao lado do apartamento onde a mãe dela estava internada. O moço parecia militante da torcida organizada do Coritiba. E a gente para e pensa... Se cursou medicina, deve ser de “boa” família; o tempo de escolaridade devia ter lhe amaciado os pelos; médicos têm formação sólida e bem calculada... Então, uma médica da mesma equipe (o logotipo no jaleco é o mesmo), educadíssima, supre a carência dos familiares quanto a atendimento e informações esclarecedoras. E responde-me sobre o colega: “Não é do feitio dele”... E alguém mais diz que o moço “deve estar com algum problema”. Tudo bem: os familiares de Dona Haydée, também.

Volto às notícias e aos medos. E, feito aquela atriz que temia pela economia brasileira há oito anos, estou com medo. Sim, eu mesmo, Luiz de Aquino Alves Neto tenho medo. Não pela economia, que o Brasil vai tão bem que ainda existem esses fatídicos mensalões. Receio, sim, pelo retorno do arbítrio de coronéis policiais saudosistas. E pensar que o governador Arruda, mesmo apanhado com a boca na botija, ainda tem o poder de mandar a PM truculenta contra o povo!...

Bem, eu não invadi a Câmara Legislativa do DF, mas faço também o meu protesto: mais poesia nos muros! Mais taças de campeões em todas as modalidades! Mais médicos bem-formados e educados! Menos ladrões! Menos falcatruas! Nada de soldados e cavalos contra os que exigem honestidade!



Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. Escreve aos domingos neste espaço. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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