terça-feira, 30 de junho de 2009

Adeus, Amigo!

Taleb viaja, o Gordo acena...


Luiz de Aquino


Acabara de chegar a São Paulo, era noite fria, inverno, 1998. Daqui, de Goiânia, informei a Lúcia, amiga goianiense vivendo na Paulicéia, do horário e do hotel em que ficaria. Mal depositara a mala na mesinha, o telefone. Era ela. Contou-me do dia, triste e tenso, denso, o dia aquele, o mesmo dia em que assinara, ante o juiz, a separação (o marido apaixonara-se por uma menina de vinte e um anos, metada da idade dele).

Desliguei o telefone, colhi na mala a roupa para após o banho. Antes que abrisse o chuveiro, novamente o telefone. Uma voz forte, de homem, e brava, xingava-me de filhodaputa e acusava-me de “dar em cima” da mulher do dono da voz. Ex-dono, entendi eu, mas por experiência própria tentava entender as razões do homem brabo ao telefone. “Eu sei onde você está, seu corno, e vou aí te pegar”, dizia o tal, transferindo para mim a condição que, naquele momento, ele tinha de si. Eu discutia, um tanto vacilante, sabia que não diria nada para acalmar o cara nem o convenceria de nada. Pensava apenas em sair daquele hotel, já olhava em torno, sabia de outros bem próximos...

“Vou aí te pegar”, repetia a voz decidida. Resolvi ficar brabo também, tinha de ganhar tempo. Mas o valentão na outra ponta da linha resolveu concluir, e arrematou assim: “É o Jorge Taleb”. Só tive uma reação – chamá-lo de filhodaputa, no mesmo tom em que ouvi dele -. E caímos na risada. Eu não imaginava que o “turco” também conhecia a Lúcia.

Como se vê, éramos, os dois, confidentes da moça. Ela voltou a morar em Goiânia, mas poucos meses após tomou um chá de sumiço, e parece que foi definitivo. De todo esse entrevero, ficou para mim (e para o Jorge também) a alegria de uma brincadeira bem bolada. Desde aquele inverno de onze anos atrás, todas as vezes em que nos víamos a história vinha à tona e cometíamos novas risadas.

Na segunda-feira, anteontem, começo da tarde, ligou-me o Nilson Gomes. Deu-me conta da morte do Taleb, o velho amigo dos tempos de Don Quixote, “a esquina mais famosa de Goiânia”, no dizer do Luiz Augusto Pampinha. E foi o Pampinha o primeiro dos amigos, dos colegas jornalistas da velha-guarda goianiense, o primeiro que vi na Igreja de São Nicolau. Amigos muitos, colegas e políticos, e parentes. E ainda os indefectíveis “patrícios”, a fina-flor da sociedade árabe, segmento importante na formação social de Goiânia. Taleb despedia-se, silenciosamente, dos velhos camaradas, os que lhe causaram risos ou lhe foram fontes e parceiros nos comentários prévios de notícias e de temas de crônicas e artigos (feito eu, muitas vezes).

Não esperei o fim da missa. Demorei-me no adro da Igreja, despedindo-me de amigos (e saudando alguns que ainda chegavam). Senti que o nosso meio, este dos acima dos cinquent’anos, vai se empobrecendo no volume de nomes e corpos. Lá dentro, e antes da missa, olhei derradeiramente para o velho amigo, companheiro de mesa e de letras. Lembrei o Gordo da Praça (que tive o prazer de conhecer há poucos meses) e não o vi. Mas ao sair, dei-me com ele. Perguntei “e agora?”, ele apenas respondeu confirmando que saía das páginas do jornal.

Penso que não. O Gordo da Praça existe (Mary Anne não sabia, pensava ser apenas uma figura da imaginação de Taleb) e não precisa se ausentar, como homenagem ao amigo que fez dele uma lenda. Taleb, o autor de textos bons e belas análises, vai nos cobrar a presença do Gordo em alguns textos futuros.

A gente cuida, sim, meu Jorge, amigo velho! Hoje mesmo, vou brindar com café, numa prosa curta com o Gordo. Vai com Deus, Taleb!



Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

Diga-me, Paulo Ciranda!

O novo cineclipe “DIGA-ME”, do projeto Cinema Possível, foi gravado com imagens do Rio de Janeiro, a partir do poema escrito a 4 mãos pelo Ícaro e a Borboleta ( Byafra e Chris Herrmann ), com música e interpretação de Paulo Ciranda. Dirigido por Jiddu Saldanha - Junho de 2009.




Um pouco de Paulo Ciranda

Cantor, compositor e violonista, nasceu a 3 de novembro de 1956, em São Fidélis - RJ.

Estudou flauta transversa e teoria musical com Hector Costita – SP, 1977.

Ciranda é o cantor e compositor que faz escala nos ‘‘festivais de música popular’’ pelo interior do Brasil, com participações no programa ¨Som Brasil¨(TV Globo), Feira de Cultura (TV Cultura SP), trabalho de pesquisa musical para a minissérie ¨Zumbi dos Palmares¨(TVE-Rede Brasil). Tem gravações em parceria com Dalto, Byafra, Amelinha, Marcos Sabino, Artur Maia e Nilo Pinta. Seu primeiro disco “Terra à Vista” foi lançado em 92 pela Niterói Discos, onde se encontra a canção “Água Ardente”, sucesso na voz de Byafra em trilha de novela Global. Em 98, lançou o CD independente “Mata Atlântica”, onde se encontra a faixa “Brisa de Itaipú”, executada pelo Discovery Channel. Em 2001 lançou o CD “Bicho Grilo” com Marcos Sabino e Forró Bem-te-vi, onde se destaca o Xote “Forró em Lumiar”. Em 2005 lançou o CD ‘‘Amore, Amour, Love, Amor“, pelo seu próprio selo “Prema”, seguindo na temática da ecologia e dos valores humanos, com músicos do primeiro time, tais como: Arthur Maia, Nilo Pinta, Paulão Menezes, entre outros. Apresenta-se com o grupo de violão e voz, cantando suas composições e dando sua interpretação pessoal a canções de: Zeca Baleiro, Geraldo Azevedo, Cássia Eller, Adriana Calcanhoto, Zé Ramalho, Gilberto Gil, e outros mais. Em 2006 e 2007 lançou os CDs ‘‘Tudo de Bom‘‘ e ‘‘Forrozando‘‘.

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segunda-feira, 29 de junho de 2009

O MITO DO FOGO NA FALA POÉTICA DE ANTÔNIO LÁZARO DE ALMEIDA PRADO

Desde os primórdios da humanidade, o homem cria seu mundo ficcional, elegendo símbolos para melhor compreensão da existência humana. E o poeta, por vezes, utiliza-se desta simbologia a fim de alcançar maior expressividade na sua fala.

A iconografia do fogo é um tema recorrente na literatura e na fala poética de Antônio Lázaro de Almeida Prado. Percebe-se em sua fala um espaço textual múltiplo, ou seja, em vários textos (linguístico, mítico, sociológico, histórico etc.) que se deixam ler no enunciado poético.

Revela-se na obra pradiana a influência de outros grandes poetas: Petrarca, Leopardi, Carducci, etc. Esse é um tipo de poesia em que a experiência sentimental é passada por constante e intensa reflexão filosófica, associada a uma criativa transcrição literária num itinerário do destino humano, da experiência amorosa e do mundo espiritual. A evocação da natureza, nos poemas de angústia amorosa ou existencial, é estratégia poética geradora de atmosfera rústica propícia à solitária meditação de cunho filosófico e à produção artística.


“Nascemos motivados pelo ímã,

Pelo impulso, que tanto mais exalta

Quanto mais exalta

Quanto mais se mantém fiel à terra...”


A “safra de sonhos” do poeta se apresenta:


“Embora infante boca do futuro

já posso pronunciar meu Evangelho:

SOMENTE O AMOR INFLAMARÁ O PLANETA!”


“Seja o tom do meu Dó o infra-vermelho”


“Eis que o novo e o emergente não suportam

o ritmo fanhoso do ser-lesma”.


Cantigas, acalantos,sonatas, canção: o poeta-menestrel, Assim, diz o fogo:


Num oceano de luz de brilho ardente

Envolto em turbilhão meu corpo em brasas.

Meu voo é expectativa de alvorada,

Meu canto, o amanhã, que eu já soletro.”


Dizer o fogo. Esta marca contida na poesia pradiana mostra como o poeta reforça a idéia de que é preciso devolver ao homem o fogo da paixão, o amor à vida, apesar das dificuldades. Ele faz uso de antíteses, parecendo confrontar a dor de existir à necessidade de sobreviver às intempéries e demonstrando estar consciente da sua hominidade. Nessa poesia metafísica, a angústia do poeta não é maior que sua fé na vida. O poeta faz uso de epifanias, revelações instantâneas de uma unidade superior entre contrários, de paradoxos neo-barrocos para traduzir seus sentimentos.


“Meu voo audaz de pássaro sem asas

É seta que fustiga o alvo em chamas...”


É constante o movimento até a luz/sol e o retorno aos homens e à sua impactante humanidade. Este movimento cíclico denota busca de transcendência, desejo de imprimir à vida significado.


“Meu fogo forja, lento, os diamantes,

Requeimando, furioso, toda a escória.”


“Esse inquietante rastro incandescente

De onde vem? Para onde vai? E como

Viver com ele em ritmo tão vivo

Que a luz e o som são junto dele tardos?!!


Diz-nos que a vida é um átimo

Que a nossa pequenez supõe enorme?

Ou segreda que o instante se dilata

Nas asas desse Pássaro de Fogo?”


O tempo, Pássaro de fogo, incita o poeta ao Carpe Diem, ao aproveitamento da vida. Já que esta, como afirmou S. Paulo ao escrever aos de Corinto: tempus breve est!, ou seja, “ quão breve é a nossa passagem pela terra!”.


“Ah! Esse momento fugazmente belo

vale e compensa o passo paquidérmico

De nosso andar tão trôpego e impedido,

Quando os distantes da inocência lúdica.”


"Toca a trombeta, quer o crepitar da vida.

Para si e para todos."


“Que eu dance ao forte som incandescente

Da espiralada chama saltitante

E suplante a exaustão do fogo fátuo.”


Não morras atrelado a essa tão frágil

capenga exalação de fogo tardo,

nem sejas mariposa ensandecida

Brilhando consumida em luz que é finda.”


O termo chama assume simbologias distintas na obra, como no verso:


“Em Chamas me despeço destas Chamas...”


O poeta/sacerdote também aparece como soldado armado de lança, de prontidão à procura da laje em que se acende o fogo. Numa obra onde percebemos os signos /água e fogo como propiciatório da purificação. Poema propondo libertação. Num ciclo vital o poema emerge do meio da sarça ardente. E o poeta, tal qual Moisés no monte Horebe, vê o Divino em uma chama de fogo. O poema é a sarça que não se consome. É esperança e fé.


“Eis o meu corpo:-

Centelha...

Eis o meu sopro:-

Fagulha...

Este meu verbo:-

Bebei-o

...

E ide em paz

Para exercer

o amor...”


É surpreendente a densidade da literatura pradiana: erudita e singela, mística e sensual, poemas de amor, celebração de amigos, diálogo com poetas do passado e do presente, com a Literatura universal e brasileira, parece que intui soluções para este momento histórico que vivemos. Esta é uma poética que propõe falar sobre a energia da criação, da vida e da transformação.

É uma poesia que "queima" de amor, paixão, e que nos impulsiona a ter fé na vida. É a poesia de um homem de 84 anos, de uma formação clássica, mas ao mesmo tempo é uma poesia contemporânea. É a poesia de um poeta que embora extremamente culto, e que faz interlocução com Antonio Machado, Murilo Mendes, Antonio Candido, Pe. Antonio Vieira, Goethe, Wolfgang Amadeus Mozart, Dante Alighiere, Franz Schubert, e também com canções populares.

A poesia de Prado nos impulsiona sempre para a esperança, e para a alegria, ainda que inventada. É uma poesia cheia de ritmo (Sinfonias possíveis), feita por um poeta-compositor, que tem ouvido para música:


        “Trago dentro de mim harmonizados

        Muitos sons e canções, que não componho,

        Tão vibrantes, coesos, concertados

        Que enformam a textura de meu sonho.”


        O estudo da obra pradiana cria e desenvolve instâncias de reflexão e construção do conhecimento acerca das grandes questões contemporâneas que estão enraizadas na literatura e na filosofia.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BOECHAT, W. Mitos Arquétipos do Homem contemporâneo. Petrópolis: Vozes, 1995.

BORDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

DURAND, G. As estruturas antropológicas do imaginário. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

PRADO, A. L. de A. Ciclo das Chamas e outros poemas; prefácio Antônio Candido. - Cotia, SP: Ateliê Editorial: São Paulo: Oficina do Livro, 2005.

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Sarau inaugural com o tema "O Sonho do Poeta", com Alex Dias, Fernanda Almeida Prado, Gabriel Almeida Prado, Irineu de Palmira e Miriam Samorano. Homenagem ao poeta Antônio Lázaro de Almeida Prado.


14° Festival Internazionale della Poesia 2008 16 giugno 2008 Palazzo Ducale - Genova (Italia) con il poeta Antonio Lazaro de Almeida Prado e l'attrice Patrizia Ercole



domingo, 28 de junho de 2009

Avós: somos semeadores

“Estes são homens de misericórdia; seus gestos de bondade não serão esquecidos. Eles permanecem com seus descendentes; seus próprios netos são sua melhor herança.”
(Ecl. 44, 10-11)
Julho é realmente um mês especial, nele se comemora o dia dos avós. Uma das boas coisas da vida é ver os filhos de nossos filhos intermediando a nossa vida. Filhos são presentes, as dádivas mais preciosas que Deus nos deu, mas netos são os tesouros que encontramos, as pedras preciosas que precisam ser lapidadas. Quem transporta o tesouro são os pais, o papel dos avós é apenas o de lustrar, o de fazer brilhar aos nossos olhos e os nossos olhos, pois netos renovam a vida, dão sangue novo, fazem surgir uma energia que se faz escondida.
O texto da epígrafe vem abrir nossos olhos para refletirmos sobre o papel dos avós. Mostra que a melhor herança que se deve deixar é o exemplo de amor, dedicação, caráter, bondade, honestidade, justiça, para que sejamos espelhos para nossos descendentes.
Sempre ouvi dizer:
– Neto é melhor que filho!
Penso que seja meia verdade. Filho é muito especial! Neto é alguém tão importante quanto os filhos. Só que visto de um ângulo diferente. Quando temos os filhos, nos preocupamos com a educação, saúde, formação. Por isso, nos esmeramos no trabalho, na conquista de bens espirituais e materiais para mantê-los, para dar-lhes segurança no futuro, sobretudo o alicerce da educação. Já com os netos é diferente, é só curtir. A responsabilidade primeira é dos pais. Então, nos dispomos apenas a ajudar. Daquilo que ouvimos dizer ratificamos:
– Neto é bom demais!
Apesar de nossa responsabilidade ser um pouco menor, a semeadura é bem maior. Já passamos por outras experiências. Tivemos uma vida de trabalho, de lutas, de conquistas. Agora é amar, amar, amar... e nada mais.
O amor faz amadurecer, o amor transforma, o amor é o caminho seguro. Se não colocarmos um jeito especial para lidarmos com as pedrinhas preciosas, ter paciência na lapidação, elas podem se quebrar, ou pedacinhos podem se perder. De pedras raras não se perde nada. Não se pode perder absolutamente nada. Portanto, é preciso ser ourives, lapidadores e ainda semeadores. Conheço uma bela história que é metáfora de tudo isso:
“Todos os dias um trabalhador saía da fábrica e pegava o ônibus para voltar à casa que ficava a 50 km. Ao seu lado, sentava-se uma senhora que abria a bolsa, tirava um pacotinho e passava a viagem inteira jogando algo para fora. A cena se repetia todos os dias. O homem, curioso, perguntou o que ela jogava pela janela:
– Sementes, respondeu.
– Sementes de quê?
– De flores. É que olho para fora e vejo a estrada tão triste e vazia... Gostaria de vê-la toda florida!
– Mas a senhora não acha que caem no asfalto, os carros passam por cima, os passarinhos comem... A senhora acredita que elas vão germinar na beira da estrada?
– Acho, meu filho. Mesmo que muitas morram ou se percam, algumas podem cair na terra e brotar.
– Mesmo assim, demoram para crescer, precisam de água...
– Ah, eu faço a minha parte. Há dias de chuva! E se alguém jogar as sementes as flores nascerão.
E continuou o seu trabalho. O homem desceu logo adiante e foi pensando que ela já estava muito senil.
Algum tempo depois, no ônibus, o homem, ao olhar para fora, percebeu flores na beira da estrada. Muitas flores, a paisagem colorida, perfumada e linda!
Lembrou-se da velhinha. Procurou-a em vão. Perguntou, então, sobre ela, ao cobrador que conhecia todos os usuários do percurso.
– A velhinha das sementes? Pois é... morreu há quase um mês.
O homem voltou-se para seu lugar e continuou olhando a paisagem: ‘quem diria, as flores brotaram mesmo. ’ – pensou. ‘Mas que adiantou o trabalho dela? Morreu sem ver esta beleza toda.’
Nesse instante, ouviu risos de uma garotinha sentada à sua frente apontando pela janela e dizendo:
– Olha que lindo! Quantas flores! Como se chamam aquelas flores?
Então entendeu o que aquela senhora havia feito. “Mesmo não estando ali para ver, fez a sua parte, deixou a sua marca, a beleza para a contemplação e a felicidade de outros.”
Nós, avós, temos um papel semelhante a da velhinha: fazer a semeadura. Espalhar no meio do caminho, o sorriso, o carinho, a paciência, a fé, o amor a Deus, a brincadeira, o olhar de confiança, o ideal de esperança. Jogar a semente esperando que germine no tempo certo. O que importa se não vermos nossos netos crescerem, ficarem adultos? O importante é servir de modelo para que, com ou sem a nossa presença, possam seguir confiantes, seguros, serem felizes e realizados. Desta vida só levamos o que plantamos. E um dia, certamente, acontecerá a colheita.
E a história continua:
“No dia seguinte, o homem entrou no ônibus sentou-se, tirou do bolso um pacotinho de sementes e começou a jogar pela janela.”
Bela lição! Assim, nós avós devemos ser: semeadores. Amanhã nossos netos seguirão nossas pegadas.
“Se semeamos boas sementes, os frutos igualmente serão bons.”
Marina Caraline

(Contribuição enviada por email.)

Quando a dor chega

Regina Codeço


Os últimos dias têm sido de muita tensão. Minha cachorrinha de dezesseis anos adoeceu pra valer. Ao chegar em casa, feliz e relaxada de uma viagem, ela não veio me receber como é de praxe. Desconfiada penso que algo sério está pra ser revelado, e como os pensamentos não são bons agito-me, apressadamente começo a procurá-la. Onde andará a Tuquinha? É de se admirar como num segundo eu posso pensar em tanto disparate? Lá vou eu pro seu cantinho, e vejo que não está; embaixo da cama - lugar que gosta de se esconder do que não quer fazer ou em qualquer outro espaço pequeno onde ela porventura coubesse, já que é uma cadela de raça pinche bem miudinha. Qual nada! Ela sumiu. Retorno pelos mesmos lugares já passados, prováveis esconderijos de minha Tuquinha, totalmente desgovernada, gritando seu nome aos berros, mas qual nada!

Chega aos meus ouvidos um ronco mais pra gemido. Estou escutando ou imaginando ouvir já que não é nada preciso? Não, realmente sei que escutei, mas de onde vem o ruído e como saber se o qualifico como a voz da minha pequenina. Outra vez o som estranho e meio sumido que agora sei que vem lá do quintal. Sim, lá estava ela no meio dos arbustos, debaixo do pé de jaca que prepotentemente enfeita os fundos da casa. Tuquinha pedia socorro à moda dos cachorros, extravasando seu gemido educado embaixo de uma chuva fina e fria. Ao trazê-la ao meu colo, abraçada no meu peito percebo que seus olhinhos esbugalhados, estão mais ainda proeminentes e uma terrível verdade me estremece. Ela estava ficando cega. E agora? Foi por isso que não achara o caminho de volta? Por que não conseguira subir as escadas, trapézio acrobático de sua existência pueril? Ou era eu que como ela não entendia, não queria saber? E atormentada pela verdade ameaçadora, finjo não entender, não querer pensar, saber...

Após o banho, percebi que estava faminta e enquanto a via comer fiquei sabendo que de manhã ela estava em casa. Olhei seus espertos olhinhos pretos, meio apagados, meio sem vida. Aí viajei no tempo, retornei há alguns anos atrás. Eram férias escolares, tempo de passear. Como deixar aquela pequerrucha longe de mim e das crianças? Quando os filhos são pequenos não querem ficar separados da gente. Assim sendo é mais afável sair com toda família junta inclusive os animais de estimação. Ou se sai com todos ou então se perde várias oportunidades.

Certa ocasião, nas férias de inverno fomos para um hotel. Como entrar com ela numa bolsa de viagem? Lembro-me que morri de medo de que latisse. Até que pra entrar deu tudo certo. Mas de nada adiantou o subterfúgio. Num dia inesperadamente ela latiu, alto e forte. Alguém ouviu e você já imaginou o final da história?... Pagamos uma multa e fomos embora. Tuquinha foi nossa companheira de viagens. Já subiu serra, tomou banho de praia, já participou de pescarias, já passeou de barca, já foi ao circo, touradas, participou inteligentemente de ensaios de cantatas, até seu retrato foi parar na casa de parentes lá do outro lado do mundo para ser conhecida e contar suas proezas. Já brigou latindo mais que podia pra cavalos, pra gente que se aproximava de mim, pra folia de reis e carnavalesca quando de férias visitávamos alguma estação balneária. Mas o que ela tinha mais medo mesmo era do boi pintadinho que quando disparava pra nossa direção, ela que latia corajosamente, corria assustada pro meu lado pedindo colo. O que será que passa na fantasia de uma cachorrinha tão pequenina, perguntava-me, perguntava-me? Bem eu não sei, mas afinal, atrevo-me a pensar que para um medo tão grande, a alegoria de um boi que renascia só podia ser um monstro pré-histórico, um ET., sei lá... Mas o fato era que seu coraçãozinho batia tão forte que ao abraçá-la eu lhe dizia: Ô Quinha, é nada não! ...

Tuquinha sempre me esperou sentadinha na entrada do portão. Era ela a primeira que me alegrava com seus abanos de rabo cotó, suas piruetas rebolativas, seus grunhidos alegre e baixinhos que diziam que era bom voltar ao lar. Eu lia sua mensagem de afeto, do nosso antigo relacionamento de amizade. Apanhava-a no colo, fazia-lhe um cafuné em sua cabecinha lisa, com voz de quem fala com criança, dava-lhe meu amor, a minha festa também; e só isso era o bastante pra lhe fazer feliz.

Sempre soube que a morte chegaria para ela, afinal eram dezesseis anos, mas sofrimento não. Ao ouvir as palavras do veterinário que estava tudo perdido, que já tinha passado da margem de vida... que agora era sacrificá-la ou vê-la sofrer, não soube responder as suas duas opções graves e racionais, que me estrangulavam, me matavam devagarzinho.Embora eu não quisesse sofrer, optei pela lei divina. Quando enfim chegar a hora, o resto não vou escrever, você já deve ter entendido.

(Colaboração enviada por email)

Das Naves ao Piar das Cotovias


*virgínia além mar

Pinceladas, matizes, argamassa do viver ; barro gesso papel marche...Esculpida em mármore uma alma de aço? Um terço dos véus, eu te conheço? Tu me esqueces? Já não sou quem era. Enganei-te ? Enganei-me? Inventei um personagem ? Sou artista meu amigo, ora alegre, ora triste, transvaloro-me, reinvento, ultra-passo fendas, muros, aço e braço. Ora eu, ora tu, ora nós, ora entre representações. Vejo como quero, tu me amas como podes. Virando do avesso, das matrizes resta, surfando entre as vagas os devaneios além mar ...E, lá nave vá entre as vãs filosofias e arroubos de verdades há margens e miragens.
No branco das nuvens esculpimos sonhos, na areia fina castelos de amores infinitos tragados pelo hálito do vento norte. Versos e uma prosa decolam feito alecrim entre foliões dispersos. Leste minhas cartas no começo das estações? Foram folhas de outono, orquídeas de primavera, lágrimas de inverno gélidas descongeladas ao verão intruso que, reviveu-nos em cada uma. De sorte que seguimos resguardados de parcela elementar. Em cada um, tantos rostos se impuseram, olhares não satisfizeram a lacuna que a lua deixou entre as frases. Do silêncio morno e inquieto ressurge um bilhete de passagem. Ao porto ou à tribo retornamos, buscando na história algo que alinhave estrofes e alinhe velas , uma força, fermento do seguir adiante ... Passando por Dali , Fellini os cristais em minhas veias cingem silencio e verbo. Entornado sacramento, entoam sereias odes aos mancebos . Ensurdecemos um pouco demais, ante aos gritos histéricos criamos aspas, como escamas antigas, a proteger –nos dos segredos que tanto queríamos preservar . Com a pele mais fina perdemos o tato e um sol já não nos basta queremos outros, todos astros a nos proteger. Com nosso alumínio e ferro forramos a atmosfera e blindamos a fera e também o pouco de sinceridade que no ar havia ... Se, estamos perdidos ninguém sabe, pois se acharmos a velha alegria de quando não sabíamos, talvez encontremos uma lágrima verdadeira e só ela o é ante ao belo, ao inocente e ao piar das cotovias ...
nota *
Cotovias no mito, folclore e literatura

sexta-feira, 26 de junho de 2009

A MULHER DAS GRANDES COISAS

Quando se recria a imagem do homem, por que repetir os erros de Deus?
Arundhati Roy

Arundhati Roy é uma mulher indiana de 39 anos e beleza mansa. Cabelos negros, longos, um olhar que se encomprida, sobrancelhas escuras, boca farta. Sorri como quem pastoreia almas... Leve. Sua imagem convida a ouvi-la, é daquelas pessoas que intuímos raras. A fala é pausada, e ela é rodeada pela própria suavidade, a suavidade do Ganges noturno. Mas é capaz de enfrentar represas. Represas mesmo. Militante de direitos do meio ambiente, Roy foi condenada em 2002 a uma pena simbólica de prisão (um dia) e uma multa de cerca de 41 dólares, por protestar contra a construção de uma enorme represa no vale de Narmanda, criticando a autorização concedida pelo Supremo Tribunal da Índia.
Arundhati Roy é escritora. Publicou o Romance “O Deus das Pequenas Coisas”, e trabalhou em cinema como designer de produção e roteirista. Hoje, diz não saber se voltará a escrever romances, porque se dedica em tempo integral à militância social. De há muito, a luta pelos direitos da mulher, pela paz, pelo meio ambiente e por outros direitos humanos tornou-se sua grande devoção. Roy esteve no Brasil em 2003 para o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Este ano, fez o discurso de abertura do mesmo Fórum, em Mumbai, Índia.
A Índia é um país cindido. Contraste é uma palavra cujo significado não enlaça as diferenças, as contradições, a diversificação. Dentro desse país extenso, há intensidades jazendo, há uma Índia soberana e uma Índia subjugada; uma Índia de quietude e uma Índia de fúria; uma Índia sagrada, uma Índia profana e outra sacrílega. A Índia que se enfeia, adornando-se com o trabalho escravo infantil, e outra, a Índia dos belos tapetes, tecidos com mãos indefesas das crianças; uma Índia dos horrores do genocídio e outra do Taj Mahal, para adoçar o espírito de satisfação. Há uma Índia de castas, que separa seres humanos tocáveis de intocáveis, e há uma Índia livre, a Índia de Arundhati Roy.
Enquanto no seu país, Roy foi condenada por defender direitos fundamentais do homem, em maio passado a França lhe entregou o prêmio da Academia Universal das Culturas, outorgado pelo governo francês a pessoas que, com sua obra, tenham contribuído para a luta contra a intolerância, o racismo, ou a discriminação das mulheres. É de se comemorar. Merecida resposta à Suprema Corte indiana, que a condenou pelo crime de desacato, porque “a liberdade da palavra está submetida a restrições razoáveis”
Mas quem escreveu “O Deus das Pequenas Coisas” não poderia fazer nenhuma restrição à liberdade das palavras. No romance, as palavras não se contentam em jazer, elas levantam-se de seus leitos de tinta, despem-se dos seus significados habituais para erguer um altar à liberdade. Liberdade de ir, vir, correr. Liberdade de contorcer-se. E de amar, de desobedecer a “leis que determinam quem deve ser amado, e como. E quanto”. “O Deus das Pequenas Coisas” é a história de três gerações de uma família de Kerala, de dois gêmeos que, no interior da Índia, aprendem o silêncio pendente “no ar como uma perda secreta”, as tradições, os preconceitos, a hipocrisia, a violência de seu país, “presos do lado de fora da própria história e incapazes de retornar sobre os próprios passos porque as pegadas tinham sido apagadas”. Dois gêmeos aprendendo dores. Mas é também a história de sua mãe, Ammu, mulher luminosa amando um homem luminoso. Um homem tocável, um corpo sentido na pele, corpo de sins, ainda que as leis impusessem nãos. Mas leis às vezes são coisas pequenas. “Só as pequenas coisas são ditas”. As grandes coisas ficam jazendo “para sempre do lado de dentro”.
Nem todas as grandes coisas jazem para sempre do lado de dentro. Em sua militância, Roy vive a escrever artigos cheios de coragem e vivacidade contra o desrespeito aos direitos humanos no mundo. Muitos deles traduzidos para o português e acessíveis pela internet. “O Deus das Pequenas Coisas” foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Arundhati Roy diz e faz grandes coisas. Uma mulher luminosa, uma pessoa pela qual vale a pena acreditar na humanidade.
Carmen Vasconcelos

(Contribuição enviada por email.)

A Arte de Airam Magalhães



Airam Magalhães é carioca, viúva de militar, mãe de seis filhos e artista plástica. Dedicou-se muito à pintura nos anos 80, bem como à organização e promoção de diversas exposições de artes e eventos culturais. Foi uma das Diretoras da ABD (Associação Brasileira de Desenho), onde recebeu uma Comenda por seus serviços prestados à Arte Brasileira.


Abaixo, um óleo sobre tela de 1986 de Airam, que ela me presenteou e exibo com orgulho no meu apartamento aqui na Alemanha.





Sítio da ABD (Associação Brasileira de Desenho) com a indicação da Comenda dedicada à Airam e a outros artistas pelos serviços prestados em prol da nossa cultura.



(Airam, de vestido azul, no centro da foto, quando recebeu a Comenda)


Após dedicar-se às artes alguns anos junto à ABD, Airam trabalhou também por conta própria, como promoter, até final dos anos 90/início de 2000 com uma equipe de colaboradores, onde o artista que não possuísse recursos (mas realmente posuísse talento) participava das exposições coletivas gratuitamente e obtinha o mesmo tratamento que os outros. Para Airam, o importante era que o artista não desistisse de seus ideais e tivesse a oportunidade de ter um começo digno. Muitos deles estouraram e há alguns que hoje vendem seus trabalhos em galerias no exterior. Airam nunca se importou em aparecer na mídia e nem fazia questão de divulgar sobre a Comenda que recebeu. Nem os vizinhos sabiam. Seu maior orgulho e realização era saber que os artistas estavam obtendo sucesso no caminho que escolheram. Mãe, eu também me orgulho muito de você. Parabéns, pela contribuição exemplar à Arte em nosso país.
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quinta-feira, 25 de junho de 2009

A VELHA CASA DA PRAIA

Regina Codeço


Quando meus filhos e sobrinhos se despedem de mim no portão de entrada de nossa casa da praia, simples e um pouco arcaica, sou tomada por uma forte sensação de prazer. Um arrepio me percorre e me faz bem quando ouço ao longe, como eco, a algazarra dos que caminham felizes para a festa na Praça. Ao fechar o velho portão, debruço-me ainda por um tempo nas envelhecidas tábuas, antigas testemunhas auriculares de tantos veraneios, de chegadas felizes, despedidas tristes, acontecimentos maravilhosos ou simplesmente degraus para descobertas surpreendentes.
Já vai alta a noite. O silêncio, esse meu velho e amado companheiro, abraça-me. Como eu o amo! Ele sempre traz para mim em papel de presente a riqueza da paz. Bate na porta da minha alma mansamente, eu o recebo em sua linguagem característica.
A quietude é grandiosa, e vou ficando debruçada na janela do meu coração por mais um tempo. Olho pro céu. Ele está tão lindo! A lua escancara seu sorriso largo e bonito. É noite de cheia, e a luz que dela flui faz clarear a noite aqui fora, me iluminando me acariciando.O coração também brilha. Eu, a lua e as estrelas em festa. Elas dançam o balé em cores reluzentes, piscando-piscando. Umas mais atiradas bordam o céu num caminho sem fim. Vovó dizia que quando se vê uma estrela cair, é pra se fazer um pedido bem depressa que ele acontece. Ah! santa inocência das avós, ah! que delícia as crendices infantis. Ah! Vovozinha!... Quem dera que fosse tão fácil ser feliz!...
Daquele jeito solitário como a noite, meus olhos se fixam nas casas e casas que se sobrepõem e definem a rua que tanto gosto de olhar. Os arbustos se arrastam e se espicham nessa senda comprida que leva ao mar. Meu olhar a acompanha até se perder da claridade que esvai, esvai; tanto mais se distancia a imagem da rua, tanto mais adormece meu belo pensamento. É silêncio total. Até o mar cochila e seu ronco se mistura na canção que me seduz. Estou só, totalmente sozinha, olhando preguiçosamente esta rua magra, de areia e de casas que se enfileiram e outra vez sinto a sensação de me encaixar na serenata da paz, onde não há solo, todos se completam em harmonia. À calma me rendo. Nada se mexe, até o vento, visita tão constante e querida neste local, foi dormir. Todos dormem. E fica a sensação de que me encaixo como peça relevante nessa harmonização - na linguagem de coisas fortes e puras, no meu diálogo com o silêncio.
Um pouco à frente, a casa mal-assombrada! Seu porte abandonado me inquiriu: há quanto tempo eu deixei de vê-la assim, com medo, naquele canto assustador? Também o tempo de coisas de criança já se foi. Eu lembro de mim, rodeada de primos, naquela cozinha grande, iluminada de lampião. Tempo de criança: sonhava demais e cria em todas as estórias que nos contavam. Lembro-me de que era a Fulgência, a tresloucada lá do fim do mundo, do cume da serra capixaba que, lá na cozinha, mexia no fogão de lenha - empoleirado de linguiças - o arroz doce que esperávamos ao som de estórias que nos assombravam tais quais as fagulhas que subiam vermelhas daqueles tições de fogo e pipocavam nos assustando. A primeira vez que entrei naquela casa esquisita, foi com olhos arregalados, coração na mão e pernas pra correr, mas não encontrei nada demais, a não ser um casarão abandonado pela dor. Também me disseram que os donos perderam seu filho único numa das viagens para lá e assim não mais voltaram àquelas bandas. Mas isso faz tanto tempo, que já perdi as contas.
E de conversa em conversas, resolvo entrar, fecho mais esta página de minha juventude. Até um outro dia, meu amigo silêncio, quando a ti revelarei outras páginas de minhas reminiscências.


(Contribuição enviada por email)

Hugo Pontes e a Poesia Visual

Chris Herrmann


Há muito que admirava a obra artística de Hugo Pontes, quando em 2006 tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente, no XIV Congresso Brasileiro de Poesia em Bento Gonçalves/RS e, assim, selar uma bela amizade. Meu livro de Haicais que está para ser lançado a qualquer momento, conta com a sua brilhante revisão e comentário. Aprendo sempre com este escritor de vanguarda, um dos precursores da Poesia Visual no Brasil, movimento que começou a despontar timidamente nos anos 70, ousando novos experimentos que não se estagnaram no Concretismo.


Hugo Pontes é natural de Três Corações-MG onde nasceu a 22 de julho de 1945. É formado em Letras/ Língua Portuguesa e Língua Francesa e Respectivas Literaturas. Tem especialização em Literatura Brasileira. É professor de Língua Portuguesa, aposentado pelo Estado de Minas Gerais;

Professor de Redação na Universidade de Alfenas, Campus de Poços de Caldas; Supervisor Pedagógico da Prefeitura Municipal de Poços de Caldas.

É jornalista e colabora escrevendo para diversos jornais de várias cidades de Minas Gerais. Em Poços de Caldas colabora com o Jornal da Cidade, Jornal da Mantiqueira e Jornal de Poços.


Com relação a suas atividades literárias e de pesquisa histórica apresenta em seu currículo uma extensa lista de atividades relacionadas com a poesia, o poema visual, o ensaio e a história. Tem 25 obras publicadas entre livros-solo e antologias. Sua obra de criação literária está voltada para o Poema Visual. Em 1997 publicou pela Editora Plurart’s "Defesa de Tese: Poemas sem Fronteiras; Em 2002 publicou Poemas Visuais e Poesias, pela editora Annablume e, em 2007, fez a reedição do mesmo livro.

Desde 1996 é um dos organizadores e curador da Mostra Internacional de Poemas Visuais de Bento Gonçalves-RS.


Os poemas Nós e Rendição estão entre as suas obras visuais mais conhecidas.






O videoclipe produzido por Jiddu Saldanha para homenagear o poema "Nós" inspirou um "Haigato" de Hugo Pontes e Chris Herrmann:


Nós dois e o gato.

De onde parte a ação?

Quem provoca quem?


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quarta-feira, 24 de junho de 2009

Entrando na Roda da Fogueira

21 junho-2007...O céu é tão lindo e a noite é tão boa, São João, São João acende a fogueira do meu coração...
Era uma noite de grandes esperanças, a fogueira ardia nos olhos sonhadores das meninas.. A linda festa Junina incluía; escrever bilhetes com nomes de pretendentes, dobrar e deixá-los descansar ao sereno... A preparação era singela e divertida; ornar cabelos com fitas, usar meias colorias, chapéu de palha, brilho nas faces, lábios rosados... A doce malícia unia corações enamoradas pela idéia do amor e das carícias ingênuas, regadas à milho assado na brasa, pipoca com melado, bandeirolas, fagueiras cantigas, tranças enfumaçadas, dedos encarvoados, mãos dadas... Meninos valentes atiçavam o fogo, bigodes forjados e paletós com retalhos coloridos os tornavam ainda mais atraentes. Uma Esperança sem receio emprestava graça aos giros das saias rodadas de chita. Confundindo- se entre as estrelas, grandes fagulhas vermelhas e os estalidos da lenha... Na alegre festa popular, crentes ou não, aos céus erguiam anseios, oriundos da paixão juvenil , alinhavados em cantorias secretas aos seres angelicais. Nem por ouro ou prata trocava-se o espetáculo; a magia da grande fogueira ! As Fogueiras eram utilizadas como meio de comunicação e, é um dos símbolos das festas Juninas. Representa o comunicado de Isabel do nascimento de seu filho João Batista à sua prima Maria( Virgem Maria) para que viesse auxiliá-la após o parto, como haviam combinado anteriormente . São João Batista o anunciador da vinda de Jesus, foi um homem simples de fé inabalável. A esperança é ainda uma característica das pessoas simples que cultivam alguns valores espirituais. As religiões tem prestado serviços na construção do imaginário popular e na formação da moralidade,mas também fonte de discórdias e ilusões, de sorte que a promessa de felicidade continua sendo colocado para além desta existência... A imanência e transcendência são complementares . Religiões e dogmas não deram conta da tarefa de um céu na terra , ou seja na pacificação dos instintos humanos...Também fomentaram guerras e ainda o fazem ,pela presença do autoritarismo implícito e a exigência do cumprimento de regras não pautadas no raciocínio. Foram perdendo espaço. O dogma exclui ! O esvaziamento das crenças não encontrou ainda substituto que venha a preencher lacunas. Para que as drogas e a guerra urbana não ganhem mais espaço é necessário mais investimento na educação e, que possam proliferar entre educadores, idealistas, poetas, cientistas e pensadores que combinem mente-ações em busca das mudanças necessárias. Estas inclem a escuta do imaginário, das diferenças para possíveis diálogos entre ciências e crenças populares e linguagens dos mitos. Como postulou Lacan o inconsciente é constituído de linguagem e, ela vive além e aquém das palavras ...

terça-feira, 23 de junho de 2009

Olhares espelhados e nossos estranhamentos na realidade opaca

“O eu se conhece, sem dúvida, como refletido por toda a realidade objetiva que constituiu ou para
a qual contribuiu; portanto, ele se reconhece a partir de uma realidade conceitual.”(LÉVINAS, 2005).



Babel. Ninguém escapa da sensação gauche, um estar deslocado, perdido entre monólogos e alguns silêncios, intervalos e desencontros . Dada a habitualidade dos comportamentos, parece não estar entre as prioridades ouvir e compreender o outro. A caminhada apressada e mecânica nos conduz às conversas superficiais e repetitivas e testemunham nossa incomunicabilidade. Ver e não ver, dizer e não dizer. Entre avanços, recuos e torneamentos, nossos canais perceptivos falham, incapazes de conviver com o pluralizado.


A vida parece por princípio, cindida. Os que sabem e os que não sabem, os que podem e os que não podem, os que têm e os que não têm, o princípio da inalteridade reina mesmo nas pertenças grupais, o que acabou por naturalizar a açăo invisibilisadora .


Esses sujeitos do querer, do saber, ou do poder são bem delineados em Vidas Secas, pela enorme carga humana que a leitura traz:


“Evidentemente as criaturas que se juntavam ali não o viam, mas Fabiano sentia-se rodeado de inimigos, temia envolver-se em questões e acabar mal a noite.” (RAMOS, 1989, p.75). “Comparando-se aos tipos da cidade, Fabiano reconhecia-se inferior. Por isso desconfiava que os outros mangavam dele. Fazia-se carrancudo e evitava conversas. Só lhe falavam com o fim de tirar-lhe qualquer coisa” (RAMOS, 1989, p.76).

Identidades dissolvidas, substituidas pelo retrato estereotipado e classificado, presas no jogo de invisibilidade e visibilidade, privados das relações dialógicas.
A gama de especificidades das relações que estabelecemos com o outro aponta para a necessidade de redefinição das possibilidades de escuta, de contato e de interpretação. A identidade se constrói no espelho, no olhar do outro.Vencer barreiras invisíveis, e conquistar relações alteritárias é um desafio contante.

Restituir o olhar, o diálogo, a partilha, é um bom começo para o exercício da responsabilidade ética que se correlaciona com a experiência humana e a ressignificação do existir.

Referências:

LEVINAS, E. Entre nós: ensaios sobre a alteridade. Tradução de Pergentino Stefano Pivato. Petrópolis: Vozes, 2005.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 1989.

O que une tudo isto?


Voltei a estudar.
Ser poeta (ou poetisa como insistem os professores de português) não me dá o direito de achar que estou pronta. Não. Tenho um longo caminho a percorrer: a vida.

A cada dia novas técnicas vão surgindo e preciso ler, até mesmo aquelas que já existem e que não li, elas estão na memória dos livros, mas que são leituras obrigatórias para os poetas.
Sinto essa necessidade da leitura, e quero uma pausa no que tenho para fazer, uma trégua para poder descansar entre as páginas de um livro e aprender, sonhar, viver e perceber a mágica trajetória das palavras de todos os grandes escritores. E com elas fazer e descobrir a minha mágica.

Há algum tempo atrás fiz uma oficina de poesia com Cairo Trindade, pela internet e que foi muito legal, várias observações ficaram e remodelaram meus poemas, ele é um talento!
Recebi, também, várias dicas do amigo e não menos talentoso Luiz Fernando Prôa, que resultou em poemas que gosto e acho que os leitores também.
Mas a necessidade de saber mais ainda está aqui. Prossigo neste meu caminho poético, tão surpresa e tão sedenta de saber, e às vezes me revolto...
Será que tenho este direito de levar às pessoas, coisas ainda não prontas, só por ter brotado em mim essa vontade de escrever e de ser poeta? Mas vou devagar, bem devagar, quero saber mais.

À medida que o tempo passa, e me deparo com tantos poemas transitando na internet, quanto mais leio, menos me sinto poeta... Estou lapidando... alías, dessa ânsia nasceu "Lapidar - Poeta tem pedra bruta no peito"...e por aí.

Depois de ler uma miscelânea de Leminski, Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Cecília Meirelles, Augusto de Campos, Castro Alves, e até mesmo o meu guru Mário Quintana, sinto que estou à margem e que ainda não encontrei meu "kigô" - termo que refere-se àquele momento sublime em que criamos algo, assim, do nada...num estalo - (usado pela professora de haicais, Maria do Carmo, numa palestra sobre o assunto, em Vitória/ES, evento realizado pela Poemas à Flor da Pele).

Quero muito achar meu kigô.


Então cheia de dúvidas e já desacreditando em meus versos, resolvi voltar a estudar. Recebi um pequeno e-mail de Ricardo Silvestrin, poeta, músico, professor de literatura, aqui de Porto Alegre, no qual oferece uma oficina virtual de poesia e pensei:
- talvez, possa encontrar nela a chave para a porta que se abriu, há algum tempo, a minha frente: a Poesia.


E aceitei a oferta. Ontem, depois que li alguns poemas e fiz uma tarefa que o professor pediu, ele perguntou? " O que une tudo isso? Naquele contexto todo que me mostrou penso que posso responder.

Sim, como poeta posso falar do cotidiano da minha vidinha enfim, do amor que se foi, da solidão, do que sou, do homem idealizado, do tesão, da falta de, dos momentos maravilhosos, da saudade, da tristeza, da felicidade, do que penso e o que não penso, da fé e da falta de fé, da política, enfim qualquer assunto pode virar um poema.

Posso fazer uma letra torta ou desenhar as letras no papel e dizer que é poema visual, fazer muitas estrofes, ou mínimas, rimar, não rimar, ritmar ou não, contar uma vida ou só repetir um pensamento, fazer algumas observações, colocar sentimentos ou não, a forma independe, o conteúdo também, pode ser feito de qualquer maneira, o "xis" da questão é porquê? " O que une isso tudo"? Por que isso tudo é do mesmo gênero?
O que une tudo isso Professor é a arte da Poesia, numa linguagem verbal ou não verbal. com toques, ou recursos, que a diferenciem de uma frase qualquer.

Mas o que tem mais significado nisso tudo é o como falar, a forma que dou ao poema, não quero falar, sem nada dizer, quero encontrar o meu jeito, sem ser banal e superficial.Quero ter a rebeldia de um Leminski, a sagacidade de um Quintana, o lirismo de um Vinícius e a descrença de um Ferreira Gullar. Não quero ser mais uma poeta,ou poetisa, quero o meu espaço e que tenha utilidade para as pessoas.

Kigô onde está você?


Soninha Porto

domingo, 21 de junho de 2009

papo à toa

papo à toa
Ocorreu-me uma questão boba, mas bobagens é o que não falta, se ingrata ou não me pergunto e fixo na irreverência, hóspede não menos regular que minha estupidez...Colibris e outros pássaros festejam suas trocas de pena ? Nunca ouvi falar ou li sobre animais que tenham noção de que o tempo haja...Metáforas à parte a dança do acasalamento assisti em documentários mas a respeito da perda ou ganho de peso, altura, dentes, penas, filhos nada sei. Macacos nossos primos-irmãos são divertidíssimos mas terão eles alguma forma de celebração datada ? E as árvores reúnem-se para fazer festinha quando uma dentre elas produz primeiras flores?O bixo homem é tão interessante, com senso de humor festeja tudo, dia para isto e aquilo, marca o tempo e mesmo que dele deseje livrar-se . Inventou a máquina para não esquecer que é homem e que tem compromissos marcados e, até não esquecer de acordar e ir trabalhar. Ah! o ser humano tornou-se animal de promessa. Criar um animal que pode ‘fazer promessas’ - não é esta a tarefa paradoxal que a natureza se impôs, com relação ao homem? Nietzsche provocou ...Também o pai da psicanálise disse que melhores vivem os animais ditos não racionais pois esquecem...Memória curta , memória seletiva ...Sem culpa seguem vivendo , sem promessas e sem palavras dadas ...Inventamos até a guerra para celebramos seu final ! Coisa de doente, como disse o filósofo bigodudo; o homem é um animal doente !Que acontece,no desenvolvimento do indivíduo humano civilizado, para tornar inofensivo seu desejo de agressão? Pergunta do mestre Freud .Não lamento a condição em que estou apenas penso que poderíamos menos sofrer se hora e outra pudéssemos esquecer, sermos esquecidos e nem por este motivo julgados, rotulados por psicologismos e ismos que não cessamos de criar ... Se gosto de festas ? Mais ou menos , prefiro dar espaço à espontaniedade só para variar e fazer nada vez que outra, meu corpinho agradece quando me esqueço um pouco dele , da minha idade, do espelho e claro do relógio , eita máquininha cruel, quem o inventou deviria estar numa culpa inconsciente daquelas para aprontar uma dessas ...Bem ou mal termino como iniciei ; papo à toa mesmo , afinal para dar vazão , canalizar instintos e a agressão vale de tudo e quiçá mais arte e menos artefatos bélicos...

O mendigo mais faminto da rua mais miserável

Eu sempre quis um amor como aqueles de cinema. Desses que fazem o coração bater acelerado apenas por saber que alguém, longe ou perto, pensa em você tanto quanto você nele. Quer seu bem e quer passar a vida inteira ao seu lado. Mas a vida é estranha e real, e no fim das contas sobra pouco das cenas românticas e sublimes que a gente vê na tela. Eu pedi, muito e incessantemente, por um amor que me tirasse o chão e me levasse ao céu. Como o universo costuma ser bem generoso comigo, tenho percebido isso, eu recebi. Primeiro um, depois o outro. Num curto espaço de um ano e meio, experimentei as mais pesadas sensações que um frágil coração, que jamais tinha amado nessa intensidade, poderia suportar. Um coração que sempre quis dar e receber, mas não se preparou para este momento. E então, quando chegou a hora de ser feliz, o coração quis dar demais, além do que havia sido solicitado e acordado entre as partes. Deu tanto, mas tanto, e de uma forma tão intensa, que acabou seco e pequenino, retorcido pelas amarras de algo que nem ele mesmo sabe definir. O tempo passou, o danado estava quase recuperado e pronto, lá veio o amor dilacerá-lo mais uma vez. Veio com tudo: inteligência, ótimo papo, poesia, música, voz doce, um quê de classe e glamour de quem entende das coisas aliado ao jeito mais brejeiro e caipira do cerrado, um raio de sol nos cabelos e a intensidade que ele sempre desejou colocada à máxima potência. Casa, comida e roupa lavada, emprego, piscina, um amor desses de cinema, tudo isso e um pouco mais. Coração teve medo, não soube como agir diante de proposta tão tentadora. Ninguém acreditou quando o BEM recusou o DOM que lhe havia sido dado. Mas acontece que este coração precisa, antes de mais nada, se organizar. Preparar-se para receber o amor. Estar pronto para dar também. É o que ele mais quer. E saberá dizer sim quando chegar a hora.
Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável – já disse o sabido Caio Fernando. O meu não só sente fome, como arde e lembra todos os dias aquelas madrugadas onde não havia distância, nem problema, nem conta de telefone, nem medo. Eram apenas duas almas interligadas por um sentimento único e avassalador. Talvez alguns dos melhores momentos tenham sido passados assim, à distância. E apenas duas pessoas neste mundo sabem como eles foram especiais e intensamente vividos.
Hoje, “meu coração é um anjo de pedra com a asa quebrada”. Estamos aqui, à beira-mar, fazendo a reabilitação da asa e reunindo forças e energias para mais um ano. Nada se perdeu. Tudo que foi vivido representa o que sou hoje e me fez ainda mais forte. Mais feliz também, apesar do gosto amargo da impossibilidade. E, mesmo quando as pernas vão vacilantes e o fardo se torna pesado demais, ainda assim “encho-me dum leite de versos e, sem poder transbordar, encho-me mais e mais”. Por que só sei viver assim. Como quem desaba sobre o outro como uma chuva forte.

Este texto utilizou frases de Maiakovski, Olga Savary e Caio Fernando Abreu.

Camila Micheletti
(texto escrito em janeiro de 2009)

sábado, 20 de junho de 2009

Um dedo de prosa com Braga Mello

Braga Mello está no centro.




Braga nasceu na Inglaterra, mas é brasileiro (registrado no Consulado). Residiu em Itaperuna por muitos anos.
Em Itaperuna fundou Cooperativa, Sindicato e Jornal. Fulgura com um artigo no livro “A Terra da Promissão”, da lavra do Major Porphirio Henriques, com publicação no ano de 1956.
Participou da história do nosso Município e demonstrou interesse pelo progresso local. Escreveu crônicas sobre fatos importantes ocorridos aqui: a inauguração do Aeroporto, a reparação na concretagem da ponte de cimento, o Hospital Regional, o albergue noturno, etc.
Na Fortuna Crítica de Braga Mello constam crônicas, alegorias poéticas, análise crítica, contos e romances.
Sobre sua lírica, já disse Jary Henriques: “são escritos cintilantes, eruditos e emocionais que provam a acuidade de uma inteligência viva e cultivada em remígios para mais alta esfera.”.
Percebemos a autobiografia na lírica do poeta, reorganizando os espaços da infância dando a eles um caráter poético. Ao privilegiar a memória, o poeta fica à mercê das alegrias e das tristezas. O convívio com a morte surge no poema “Na morte de meu pai”.
A experiência estética de Braga Mello revela aspectos do sujeito no mundo através de uma abordagem em que o comentário, a análise e a interpretação brotam dos textos, como se conversasse consigo mesmo, num entressonho, dando vazão ao que leva na alma.
São vários os temas que provocaram o homem de Letras: o bate papo das ruas, as reivindicações do povo, o preço do pão, do café, do feijão e do arroz, um fio de prosa cercado por reflexões e fina ironia, como se vê na crônica “Feijão e Arroz”, escrita por ocasião da Campanha moralizadora de preços”, texto publicado no Jornal “O Imparcial”, nos idos de 1954*:
“Ou a situação melhora ou, muito breve, estaremos ingerindo pílulas vitamínicas, concentrado e precipitado de gramíneas e leguminosas, e usando da alta sujestão por meio de uma revista de arte culinária. Passem bem, até a próxima semana.
O Brasil deveria ser um país essencialmente agrícola, entretanto, nós nascemos para burguês. Comprar- pronto- eis o lema, este orgulho é que nos aniquila o progresso. O petróleo, o ouro, a borracha, tudo a nós pertence, porém, nada nos anima a um investimento, a uma campanha de soerguimento nacional a fim de, ajudados com o que nos dá a terra, erguermo-nos tal qual um gigante ao lado de outras potências.
Quem nasce para tostão, não chega a duzentos reis. Assim diziam os antigos. Podemos, no entanto, mudar apenas “reis” para a atual moeda, para adaptarmos aos nossos dias o saudoso pão de tostão que tinha mais ou menos o tamanho do hodierno pão de um cruzeiro.”
Ainda não temos um teatro em Itaperuna, Braga. E o Conservatório ainda passa por muitos problemas, mas continua abrilhantando a vida cultural da cidade.
Parabéns, Braga Mello! As palavras são seus anzóis, pequenos e imperceptíveis, vão fundo e chegam longe.! Um abraço poético da Academia Itaperunense de Letras.


Referências
* Textos de Braguinha publicados na década de 1950 nos Jornais Brasil Novo, A Voz do Povo, O Norte Fluminense, O Imparcial e O Itaperunense.


JORGE MÁRIO DE BRAGA MELLO é ESCRITOR, jornalista e membro Correspondente da ACIL -Academia Itaperunense de Letras.

Luciana Pessanha Pires

CEM ANOS APÓS MACHADO DE ASSIS

Quando morreu Machado de Assis ocupava o cargo de presidente da Academia Brasileira de Letras – 1908.
A data de seu nascimento, em 21 de junho de 1839. Seu pai o pintor José de Assis e, sua mãe, a lavadeira, portuguesa, da Ilha de São Miguel, Maria Leopoldina Machado. Seus avós ex-escravos, alforriados.
Acrescentem-se às dores da pobreza: órfão cedo, criado por outra lavadeira. Foi vendedor de doces no morro do Livramento, ali viveu sua infância já apresentando sintomas de epilepsia e gaguez que o acompanharam pela vida inteira, o que o fez um homem tímido e recatado.
De origem humilde, iniciou sua carreira trabalhando como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Oficial, cujo diretor era o romancista Manuel Antônio de Almeida. Em 1855. Aos quinze anos estreou na literatura, com a publicação do poema " Ela " na revista “Marmota Fluminense”. Continuou colaborando intensamente nos jornais, como cronista, contista, poeta e crítico literário, tornando-se respeitado como intelectual antes mesmo de se firmar como grande romancista.
Apesar de sua origem humilde e mestiça, surgiu como sol candente acima da mediocridade e da hipocrisia do fim do século XIX. Infiltrado na sociedade da época, ria dos homens que se julgavam superiores e que viviam envolvidos em mazelas sob a empáfia da Corte; e contra tal comportamento social, Machado de Assis trabalhou sem piedade, dentro da própria tragédia; e ao invés de chorar por sua irreversibilidade, achou melhor compreendê-la, assimilá-la e rir de tudo.
Em suas obras não há entretenimento, mas problematização. Apresenta fatos humanos, ou seja, preocupa-se em levantar indagações óbvias sobre a existência humana. Trabalhou a Ironia pontiaguda que fere fundo a essência da vida.
Preferiu dissecar, esquadrinhar, triturar, expor as chagas humanas. Mas também propicia ao leitor a oportunidade de melhorar e elevar a si – o ato de viver.
Machado é a tese e a antítese: escravizador e escravizado cuja síntese é o povo brasileiro, colocado em sua obra através do caráter de brasilidade de suas personagens numa inigualável expressão de amor à sua pátria.
Representa a fusão de preto e branco, de Brasil e Portugal e, além disso, é o borrão da escravização que corre em suas veias – o que faz saltar de seu coração de artista das letras o grito da convicção de o estigma da escravidão não é irreversível.
Ele venceu apesar de todos os obstáculos.
A ele o dom de gênio! Os títulos de: “Gênio da Literatura Brasileira”, “O Escritor da Escravização.”, “O Mestre dos Mestres da Literatura Brasileira Contemporânea.”.
Machado de Assis revelou-se um clássico através da disciplina de seu temperamento e de suas tradições — um autodidata, um dos maiores escritor brasileiro.
Numa sociedade mais egoísta e fechada que a do século XXI, ele era um mulato, pobre, gago, epiléptico. Um vivo exemplo de esperança para os lamentadores que rodam em volta de sua mediocridade enquanto na história se acumulam os registros da humanidade.
O mundo mudou, deixando para trás o homem da antiga corte, seus salões e os escravos da época de Machado de Assis. O progresso marca o advento de um novo tempo, mas nós – os humanos, continuamos entre o ser e o parecer – provisórios, numa forma de parecer dentro com nosso pouco desejo de servidão que nos fere, que nos aprisiona – somos cativos não do que somos, mas do que gostaríamos de ser. Negando ou escondendo a legitimidade humana.
Somos a ganância da civilização.
Machado mostra o avesso do homem, o que ele é com suas misérias e glórias, quebra as idéias definitivas da racionalidade e da irracionalidade. Não o faz no sentido de aniquilar o ser humano por suas fraquezas, ou humilhá-lo por sua hipocrisia, mas para exigir dele uma reação, a percepção de sua nudez, de sua real posição no mundo, de seu papel ativo na sociedade.

Natalia Dias Boechat- Professora- Membro da Academia Itaperunense de Letras.

(Colaboração enviada por email)

Dor & Alegria


Era noite de princípio de inverno que ainda não tinha chegado oficialmente pela folhinha, mas para nós, acostumados a um calor sempre intenso, o que sentíamos era frio, frio mesmo. As moradias já começavam a dormir mais cedo, cada vez mais. A rua agora deserta era um amontoado de casas fechadas, com medo daquele inverno de cara apressada que agredia. Eram 21h30min, eu caminhava com o coração ferido naquela rua de todo dia com clima europeu pensando... e pensando na vida. Como pôde a Nilcinéia, minha amiga do coração perder o seu nenê de cinco meses? Oh! dor traiçoeira que não avisa e não manda recado! Por que estranhamente espeta-me, tortura-me, deixando-me inerte aos algozes dos pensamentos negativos? Queria esquecer, precisava esquecer, não queria sofrer, mas a lembrança borbulhava no meu ser abobalhado ainda pela recente notícia recebida. Olhei para o céu escuro e sem lua e pedi a Deus Nosso Senhor que enxugasse as lágrimas que riscariam aquele rosto jovem, virgem no sofrimento e que desse força, muita força para aquela vida seguir em frente na caminhada sem volta. Estava abatida, jogada no canto do sofá. A TV falava e eu absorta, não ouvia, enredada pelo assustador acontecimento. Eram 30 dias de maio. Acabava de chegar da rotina de todo dia com o plano de ir ao aniversário de Cecília, minha amiga, grande amiga. E agora? Onde achar força para lutar contra o abatimento que me prostrava? Onde estava a coragem e determinação, virtudes que, até agora pouco, estavam comigo?...E lutando e lutando comigo mesma, resolvo num galope, levantar-me, e com passos determinados, sigo na rua deserta, alcanço o lar da aniversariante e os velhos e amados, os queridos amigos mais chegados que irmãos. Na sala aconchegante, passam os petiscos da “Master Cook Cecília”. Ouço os risos, as falas tão familiares, aquele som de família, de amigos, que esquentam meu coração congelado de dor. Um sentimento de criança me invade. Lembro-me do falecido vovô Bibi e dos seus casos tão pitorescos, os quais me faziam rir e rir sem parar. Era tão bom aquele tempo... a casa nos recepcionava com um ambiente calmo, alegre de muita luz. A paz e a felicidade estavam também presentes comemorando a miríades. Cecília chega. Como é querida minha amiga, uma mulher forte, executiva de Deus, heroína de várias batalhas espirituais! Sorrindo sempre, vai até à porta, e despede-se dos nossos amigos irmãos, que mais cedo do que é o costume, encaminham para suas casas, ela acena para os últimos que, em algazarra quase infantil, distanciam-se. Lá dentro, só uns poucos, e entre eles, eu, permaneciam na hospitalidade de Cecília que, como rainha da festa, contava suas estórias sempre sui generis, arregalando os olhos, mudando o tom da voz de acordo com os seus personagens hilários, tudo naquele jeito de fazer rir e rir, num tempero forte de brincadeira. Suavemente a alegria entra no meu coração, abrindo as janelas de minha alma, àquele lampejo de vida e sem perceber comecei a dar boas gargalhadas dos fatos reais de sua vida, do seu dia-a-dia cheio de dificuldades tremendas, mas que eram contadas com tanta pilhéria que pedi licença para rir das coisas que eram para chorar e temer. Foi aí que lembrei que estava me sentido tão bem, igual ao tempo em que o meu querido vovô, que já partiu para a glória, contava seus casos de português, seus patrícios, e lembrei: ele era também assim, igualzinho à Cecília Teodora, simples mais de um admirável bom humor.
__ Boa noite, Cecília! Já é tarde tenho que ir. Outro dia apareço. No caminho de volta penso: Foi uma noite memorável, apesar de começar com tanta tensão. Já em casa menos atormentada, pela tristeza da separação, vou dormir. Amanhã, acordar cedo, viajar para roça, ir ao enterro na Fazenda, porém chegarei mais forte, para ajudar os que estarão como estive hoje.
Regina Codeço
(Contribuição enviada por email)