quinta-feira, 30 de julho de 2009

Há Gosto II



Já há neblina em torno da lua, bem queria sair alguns dias, passear ao sol, ficar à toa na rua e esquecer de noites tão frias .Resguardo-me em raiz, preparando as flores do porvir, mas treme em branco a folha sem versos, enquanto as mãos ocupam-se do chá.A previsão é de mais chuvas meus amigos e, eu não tenho mais um cão a esperar-me com a alegria que faz esquecer que agosto é chegado.


Foi no dia quatro, de um agosto que, sem gosto, meu pai se foi, deixando vazia minha boca de palavras e a chapa do fogão...Eram bons tempos aqueles de inverno, retornávamos da viagem de férias e ele reunia amigos na cozinha de fora onde havia o fogão rústico à lenha , para vinho, estórias, risadas e cozido de peixes. Enfiava-me entre eles, como mais uma mascote , fazia de tudo para penetrar as reuniões, xeretar as conversas instigantes que versavam sobre os mais diversos assuntos.


Tudo era quente e incrivelmente vivo naquela casa, quando era ainda criança; No jardim enorme, os bancos ao sol, as frutíferas, o telhado pelo qual adorava transitar... Havia também um gato vagabundo de pelo listrado, ou era uma gata? Como o cão pareceu e foi ficando ganhando nossa admiração.


Vai chover e, não quero molhar os pés nas poças de ausências, desejo um amanhã com o sorriso dos tempos de sopa de peixe e pão quentes e, se possível, um livro de estória para colorir e acordar as sementes do amanhã.
virgíia fulber , Terapeuta em ofício e além mar Poetinha -

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Regina Viana

Regina Viana, a Deus...


Luiz de Aquino



Naquele tempo de eu-menino, uma pessoa já era quase velha na casa dos trinta anos. Talvez tenha vindo de Balzac a primeira defesa da mulher madura, por exemplo. Nos meus quarenta e sete anos, Bernardo Elis chamou-me de jovem e, ato contínuo, questionou-me se eu era ainda um jovem. Foi a primeira vez que me dei conta de que o envelhecimento estava adiado.

Manhã de quinta-feira, 23 de julho, Sandra me telefona e, entre soluços, tenta contar que Regina se foi. Sim, esclareceu ela, Regina Viana. Entendi que a amiga chegou ao ápice da dor, justo ela que vencera tantos outros momentos. Nenhum novo fato se deu para precipitar o desfecho, apenas o somatório das angústias superara o nível de tolerância.

Conheci-a durante a campanha política de 1982. Era a primeira campanha com sabor (ou consciência) de liberdade desde aquele fatídico primeiro de abril de 1964. Não nos bastava derrotar o regime do arbítrio, mas demonstrar a intensidade da insatisfação popular, e isso se deu. Deu-se também aqui em Goiás.

Desde então, firmou-se entre nós uma bela amizade. E amizade nunca vem só, por isso tornamo-nos um grupo amplo e feliz, com os percalços naturais nas relações entre as pessoas. E Regina era um pólo, ou o centro da circunferência.

Algumas vezes, descobríamos amigos comuns, como Cláudio André, o poeta pintor. Em Pirenópolis, que Regina e a mana Stela escolheram, achamos mais pontos de ligação de nossos passados em comum. Stela radicou-se lá, Regina também construiu sua casa... Por tempos, editou o jornal O Pireneus, onde publiquei boa parte das minhas crônicas (por estes dias, cuido de selecionar textos sobre Pirenópolis, com vistas a um novo livro). Foi também em O Pireneus que Lucas, meu filho, ao lado de sua amiga Clara Luna (ele, então, ainda infante, e ela no começo da adolescência) exercitaram-se como jornalistas mirins, entrevistando José Mendonça Teles.

Pedro


Lucas, aos seis anos, encontrou em Pedro, então com doze, o primeiro “amigo grande”. Pedro, filho de Regina, mudou-se para o plano superior aos quinze anos. Desde então, a mãe se vestiu da tristeza da ausência, traje de alma de que mãe alguma se desfaz. As dores de mãe foram mais fortes que o advento do avonato: uma semana antes nasceu Lavínia, filha de Carol. As fotos estão no Orkut, em sua página que se mantém aberta e ativa, como Regina Viana. Ou seja, nem mesmo essa passagem precocemente forçada a afasta de nós.

Regina, Lavínia e Carol


Regina, você não esperou... Festejou a chegada de Lavínia, sim, fez belas fotos (copiei aquela das quatro gerações, entre outras) e partiu. Nem me permitiu levar o Gabriel para conhecer a futura namorada. Também não gostei da última visita, essa que lhe fiz naquele final de tarde, na capelinha onde você parecia dormir em paz (finalmente em paz), enquanto a dor se expandia em nós.

E você, recém chegada à casa dos cinquent’anos, tão jovem...

Enfim, Regina, ficamos todos com caras de patetas inúteis. Em mim ficaram muitas perguntas, muitas intenções de conversas inacabáveis, aquelas que desenvolvíamos em torno de bons goles de cerveja e boa verve. Espere por nós, então. Pouco a pouco, vamos nos reunindo outra vez, do lado daí.




Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

SÍNDROME DE DOWN



Fiquei sabendo que a filha da Sandra deu à luz a Clara. Amanhã vou correr ao hospital pra levar fraldas e mais fraldas.
Sandra é uma amiga, daquelas que a gente pode chorar no ombro, que tá pronta pra uma cervejinha ou um café na esquina. Que vai em todos os eventos e até no Rio de Janeiro, quando fomos comemorar o aniversário da minha comunidade, lá estava ela, de mala e cuia com a gente. É uma das pessoas mais bonitas que conheço, trabalha pra caramba, cuida de uma mãe de mais de 80 anos, está sempre às voltas com os filhos (duas moças e um rapaz), sem deixar de atendê-los em nada, e está sempre sorridente, se não tem nada a dizer, a gente tem certeza de que ela está junto, pro que der e vier.

Pois Sandra agora é Vovó, assim com "V" maiúsculo, porque tenho certeza, de que vai criar essa menina com todo o amor e generosidade que ela tem dentro de si: a menina tem síndrome de Down. Ah, um detalhe, a filha de Sandra é mãe solteira. (fiz uma crônica em sua homenagem, aproveitando a deixa do dia da Mulher, no meu site Mulheres fortes, pobres mulheres - http://www.soninhaporto.com/).

E assim é a vida, a Naná, sua filha, loira, linda, 20 anos, numa família de bom poder aquisitivo, no entanto, por caminhos tortos está trazendo Clara, que vai transformar a vida, por ser especial e por colocar à prova os corações e mentes de todos os evolvidos.

Tenho certeza de que Deus, ao seu jeito de fazer as coisas, abençoou as duas, que tenham força e coragem para seguir em frente e que em todos os momentos reaprendam a viver e encontrem a felicidade.

É um tema que instiga, e procuro informações a respeito da síndrome e da gravidez na adolescência.

Questões econômicas, carência afetiva e a falta de um projeto de vida são os fatores que levam à gravidez precoce.

Comprovam as estatísticas brasileiras que 65% das adolescentes grávidas estão entre os que detém uma renda de até um salário mínimo. Junto com a desinformação e uma educação precária, mocinhas descambam para a sexualidade precoce, sem conhecer direito o próprio corpo. Carência afetiva e falta de um projeto de vida, muito normal em adolescentes, que associadas aos outros dois fatores, só podem levar a este estado degradante dessa camada da população.
Naná está nas estatísticas, mas tem uma família que lhe dá apoio, com melhores condições financeiras e seu projeto de vida, agora é outro: Ser feliz e cuidar de uma pessoa especial. Mas ela não está sozinha, sua família e principalmente Sandra está com ela.

Quanto à Síndrome de Down, houve nas últimas décadas uma mudança na maneira de ver e compreender as deficiências, a mídia abriu a caixinha preta, com reportagens, debates, participação em programas de TV e campanhas publicitárias. O preconceito ainda existe, histórias de discriminação também, mas com certeza quem tem um ser assim tão frágil e especial para cuidar, só pode ser um escolhido de Deus.E maiores informações, agora só numa próxima crônica.
Sandra conte comigo!



Crônica de Soninha Porto

Administradora da Poemas à Flor da Pele no Brasil
Divulgadora do Proyecto Cultural Sur Brasil - núcleo Porto Alegre

sábado, 25 de julho de 2009

Frase de camiseta





Luiz de Aquino



Com esse título, o poeta Marcelo Ferrari cumprimentou-me na manhã. Marcelo é presença diária entre meus e-mails, em mensagens curtas e densas, com a profundidade que o bom poeta sabe medir.

Pois bem! Desta vez, ele resume tudo dessa forma:


“Eu não tinha este rosto de hoje, / assim calmo, assim triste, assim magro, / nem estes olhos tão vazios, / nem o lábio amargo / Eu não dei por esta mudança, / tão simples, tão certa, tão fácil: / — Em que espelho ficou perdida a minha face?” Quando leio estes versos da Cecília, vejo alguém derramar em poesia a dor de se ver envelhecendo. E foi num espelho que vi o rosto de Cecília pela primeira vez. Os olhos vazios estavam estampados numa camiseta, ao lado de muitas outras, numa vitrine. Despencando sobre o ombro da sofredora, feito mão amiga, estava a camiseta de Caetano, que dizia: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Comprei e vesti. Desde então fiz da frase um lema. Leme. Uso a camiseta toda vez que estou com pena de mim mesmo. Vesti-la é como pelar a dor. Faz lembrar que é minha delícia. Que só eu tenho o privilégio de vesti-la”.


O parágrafo acima, todo ele, é a mensagem de Marcelo Ferrari.

Lembrei-me: lá pelos idos de 1968, uns raros estudantes brasileiros, retornados de intercâmbio cultural, usavam camisetas com as letras UCLA, de Universidade da Califórnia. Torcíamos narizes: eram alienados, baba-ovos dos imperialistas do Norte, os que bancavam as ditaduras militares da América Latina. Nossas camisetas ostentavam frases em português do Brasil. Mas volto ao texto de Ferrari e recordo o que li, ouvi, aprendi e curti. Noel Rosa escreveu “Pra que mentir?” em 1937 (o ano de sua morte), em parceria com Vadico.


Pra que mentir se tu ainda não tens
/ Esse dom de saber iludir?
/ Pra quê?! / Pra que mentir
 / Se não há necessidade de me trair? / 
Pra que mentir, se tu ainda não tens
 / A malícia de toda mulher?
 / Pra que mentir 
se eu sei que gostas de outro 
/ Que te diz que não te quer? / 
Pra que mentir
 / Tanto assim 
/ Se tu sabes que eu já sei / 
Que tu não gostas de mim?!
 / Se tu sabes que eu te quero / 
Apesar de ser traído
 / Pelo teu ódio sincero / 
Ou por teu amor fingido?!”.

Em 1982, Caetano respondeu-lhe com “Dom de Iludir”:


Não me venha falar
/ Na malícia de toda mulher / Cada um sabe a dor
/ E a delícia
/ De ser o que é... 

/ Não me olhe
/ Como se a polícia
/ Andasse atrás de mim 
/ Cale a boca
/ E não cale na boca
/Notícia ruim... 

/ Você sabe explicar 
/ Você sabe
/ Entender tudo bem /
Você está 
/ Você é 
/ Você faz / 
Você quer /
Você tem... 

/ Você diz a verdade
/A verdade é o seu dom
/ De iludir 
/ Como pode querer
/ Que a mulher
/ Vá viver sem mentir”.


Em suma: temos à nossa disposição centenas de milhares de belos versos para enfeitar camisetas, mas o que se vê nas lojas são expressões na língua dos imperialistas. Se eu fosse usar alguma camiseta com inscrição no idioma deles, a frase só poderia ser uma, trazida dos meus verdes anos: “Yankees, go home”.



Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras e escreve aos domingos neste espaço.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

PRAZER


Aprendemos a melhor olhar no fundo da alma o que arde, quando abraçamos as oníricas mensagens sem medo de refazemos a viagem.

O que deseja o verbo que penetra o não tempo nos dizer?Disse Camus que quem viveu um só dia poderia passar o resto de sua vida em uma prisão...

Um bem querer e, o que não foi dito ou prometido, sobre o amor eterno, borda o avesso e costura começos. Jamais saberemos do que não foi. Se uma carícia verdadeira aconteceu, ela continua a crescer dentro da gente , não como uma doença , mas como o lenitivo à falta das flores de maio ...
Caricias sinceras, desprovidas de temor, regeneram o passeio que vai da fonte ao mar. Restauram o pulsar do peito que produz o bater das asas e, levam-nos a ver-viver a beleza visível e adivinhar a que se oculta.Teu gosto por mim me faz mel. Despertou-me do silêncio com liberdade e com este desejo e liberdade que me ofereço às manhãs.

Já faz algum tempo que me tornei cálice a ser preenchido e bebido, aos prazeres possíveis deitar ouvidos e, com a música me livrar de mim mesma.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Voos de Borboleta



"Voos de Borboleta"* é o meu novo livro com uma coletânea de 178 haicais em sua maioria em português, mas com alguns em alemão, esperanto e italiano. Revisado por Hugo Pontes, prefaciado por Leila Míccolis e com comentários de Antônio Mariano, Edith Janete Schaefer, Hugo Pontes, e Pedro Lyra.


"ENCONTROS COM A NATUREZA
por Edith Janete Schaefer Psicóloga, Ensaísta e Mestranda em Educação

Corremos muito. O mundo sofre com a efemeridade. Textos longos podem cansar, é preciso concisão! Os haicais surgem como possíveis linhas de fuga nessa corrida, são encontros com a natureza. Parar brevemente, ler, ser pungido em um encanto muito maior do que a brevidade do haicai. Haicais podem tocar. São certeiros por vezes. Os haicais de Chris, lembram um sopro de alma (psique) , que sai do corpo morto em forma de borboleta (psique), como um sinal de vida, fluidez e amor. Ora, o que seria da alma sem o amor? O que seria o mundo sem a polinização das borboletas? Chris poliniza, faz brotar, diversifica o ambiente em que vivemos. Seus haicais tem cheiro, cores e movimento. “Não há borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses” (Rubem Alves)"


Uma pequena biografia:

Christina Magalhães Herrmann nasceu no Rio de Janeiro. Estudou literatura na Universidade Federal do Rio de Janeiro; música e piano no Conservatório Brasileiro de Música (CBM). Desde muito jovem começou a escrever poemas e compor músicas.
Vivendo com sua família na Alemanha, desde 1996, trabalha como Web Designer e tradutora do Inglês e Alemão para o Português.
Seu espírito criativo, combinado à paixão pela Literatura Japonesa e Arte Digital, vem contribuindo para uma nova geração de haicais teuto-brasileiros.
Participou de diversas publicações de poesia impressas e digitais no Brasil, Espanha e Estados Unidos.
Idealizou e lançou em parceria com o Congresso Brasileiro de Poesia, em 2006 e 2007, cinco antologias de poesia, incluindo uma somente com haicais de poetas de suas comunidades virtuais.
Tem uma coluna quinzenal – a Orkultural – no conceituado portal cultural Blocos Online.
Em novembro de 2007 foi nomeada consulesa do movimento Poetas del Mundo em Dusseldorf, Alemanha, por indicação da poeta Delasnieve Daspet, embaixadora universal da paz para o Brasil.

Uma canção Belkiss

Uma canção Belkiss


Luiz de Aquino


Três jovens jornalistas, recém saídas das salas de aula e cheias de imaginação, criatividade e vontade de render. Três mulheres decididas, dispostas a viver e deixar marcas – assim são Dalcione Gomes, Fernanda Ramos e Paula Sampaio. No decorrer de 2008, elegeram o tema de seu trabalho de conclusão de curso, o famoso TCC que fecha a grade curricular da formação acadêmica, ou seja, o projeto que se tem como o décimo quarto verso do soneto... Seu título: “Eu Kiss para sempre uma canção”.

Fernanda, Dalcione e Paula


Foi Dalcione quem me provocou. Contou que a musicista, pesquisadora, professora, escritora e multiacadêmica Belkiss Spenziere Carneiro de Mendonça seria o tema de sua monografia. Empolguei-me! Há décadas confessei, de público, o meu amor por Belkiss, e tratei logo de publicar em vários textos essa confissão. A cada nova notícia que eu punha no jornal, meu telefone tocava e, do outro lado, a voz jovial e firme da mais importante mulher goiana em todos os tempos me repreendia docemente:

- Seu exagerado... Muito obrigada, eu não mereço.

Não? Quem merece, então? Belkiss é um símbolo quase perfeito, exemplo de mulher a ser seguido por todas, principalmente as que ainda pensam que feminismo é queimar sutiã. Para ela, a ocupação do espaço e a assunção aos direitos implicava tão-somente o aprendizado, a criatividade e o trabalho, no que sempre foi ímpar, quase única.

É sabido que a avaliação de um TCC não se dá apenas na apreciação dos textos, na forma impressa adequada às normas da ABNT, às exigências de professores. A escolha do tema e a ótica com que se conduz a pesquisa, a linguagem (criativa às vezes, às vezes inovadora), a seleção de fontes de pesquisa e informação, de entrevistados, a edição de texto e imagens, tudo isso é o conjunto de critérios escolhido pelos autores, de modo a contemplar algo de novo ante os olhos dos mestres que, por sua vez, orientam e cobram para, ao final, consagrar a vitória dos novos profissionais.

Foi assim, imagino eu, que Dal, Paulinha e Fernanda atuaram. E listaram-me entre os entrevistados, com base em crônicas por mim publicadas sobre a Diva da música e das artes em nossa terra, aquela que transpôs fronteiras desde a verde adolescência, com realce justo durante seus estudos no Conservatório Nacional de Música, no Rio de Janeiro.

Nas três jornalistas egressas da Faculdade Araguaia, achei mais um detalhe que merece ser citado: o cuidado em retribuir gentilmente, com gestos de fina educação, aos que contribuíram com sua missão. Dalcione e Paula vieram à minha casa entregar-me cópia do DVD, tal como o conceberam para mostrar à banca de professores que lhes deram o grau acadêmico. O gesto é nobre, diferente do costumeiro entre estudantes de má índole (desses que, se os conhecemos estudantes, tememos quando os vimos profissionais). Essas moças têm educação formal e social, sem perder a jovialidade. São profissionais que, certamente, sempre terão boa recomendação, mas independem de terceiros porque talento e dedicação lhes dão a base justa.

Confetes? Flores? Jogo, sim. Elas merecem. Lamento que um trabalho como esse acabe condenado às gavetas e estantes, numa época desta sociedade em que só escândalos, violência e falta e caráter ocupam a mídia. Se formarmos 20% de jornalistas com a visão dessas jovens, certamente os jornais, tevês e rádios terão outras faces e o nosso tempo será ocupado com coisas de valor maior do que os trambiques de congressistas, executivos, maus empresários etc.

Já contei aqui de leitores que tentam me censurar por censurar autores de tramoias contra o erário e o povo pagador de impostos. Há também os que não gostam quando cito maus profissionais, pessoas que se empenham em ludibriar a clientela. Continuarei fazendo tudo isso, mas reservo-me para a água-benta também. Hoje, esparjo-a nesse trio de novas colegas no ofício da notícia, pois que elas sabem fazê-lo com arte e dignidade.

Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Adeus a Capitu

Adeus a Capitu

Ela me olha do Infinito junto com os queridos que de lá nos espreitam. Olhos de cão azul, como os de Garcia Marques...um cão com plumas ou sem plumas como João Cabral escreveu...um cão andaluz como o de Buñuel..não, olhos de dama, como aquelas que já não existem, pois as mulheres atuais não têm olhos, apenas peitos, bundas, mas ela não é uma mulher, é um cão. Quando a buscamos, debaixo de uma bruta chuva, ela destacou-se da ninhada que se encolhia debaixo do banco do jardim, numa caixinha de papel, por seu olhar de piedade. Eram quatro, e um garoto que, como nós, se comovera com seus ganidos, levou um. Fiquei com três, mas perdi um deles logo na primeira noite. Ficaram dois: Camões e Capitu.

Capitu era elegante, esguia, pelo característico da ascendência waimaraner que logo revelou, suas patas, cruzadas numa posição de eterno retrato para pintores habilidosos, eram finas e compridas. Mas seus olhos eram profundos. Olhos de analista. Sentia que ela me devassava, quando a olhava pela janela, penetrando nos meus olhos e avançando perigosamente até as regiões que eu sempre cuidadosamente protegera dos que me conheciam. O irmão era vulgar, saíra à ascendência cabocla, brincalhão, irreverente. Ela, uma lady. Acredito que, no mundo dos cães, fosse talhada a rainha e ali, naquele jardim, num dia de tempestade, uma fada malvada a houvesse atirado para que viesse ajudar-me a descobrir os mistérios da vida pelo olhar dos animais. O clichê diz que o cão é o maior amigo do homem. Amigo tem uma raiz linguística fascinante que identifica a palavra com o amor, outra palavra interessante, que tem uma parte de delícia, prazer e malícia e outra de dor. Um parente disse, incautamente, que “cachorro também é gente”. Acho que não soube formular exatamente o seu conceito: cachorro não é gente, tem as prerrogativas de gente porque se coloca ao nosso lado, mas tem algo mais, que só se revela quando olhamos para ele e enxergamos a busca de nós mesmos. Seus olhos, nesse momento revelam-nos o que somos: queridos ou abominados. Cachorro é espelho. Nele podemos ver-nos com a nudez da verdade, se é que ela existe. O que via, nos olhos de Capitu, era comoção, era resignação de quem busca e sabe que nunca vai encontrar porque o mistério é o limite que nos foi imposto. Ontem tive que dizer adeus a Capitu. Ela se foi. E eu não me encontro em Camões e acho que nunca mais terei para onde olhar e ver-me tão bem refletida como em suas pupilas tão lindas de cor tão indefinível, tão indefinível como é o mistério da vida e da morte.

Elenir Burrone

domingo, 19 de julho de 2009

Da crítica ao elogio

Nuvens carregadas, vento frio, sinal de muita chuva...
Pela janela do meu quarto observo o quão cinza é a cor da tarde de domingo.
Numa tarde assim o espírito torna-se receptivo a tudo e, um pouco mais, aos tristes sentimentos de mágoa.
Por que será que há sempre alguém magoando alguém? Por que se tornou tão fácil apontar defeitos, discriminar afetos, criar ressentimentos?
Nunca tantas pessoas têm evitado a ansiedade e a angustia, inerentes ao autoconhecimento, preferindo mudar as regras do jogo. Ao invés do elogio que humaniza e dá sentido à vida, preferem a crítica ou, ainda pior, o deboche.
Para que serve a crítica? Basicamente, para que não se corra o risco de sentir-se de forma diferente. Tão somente espelho a refletir, pois a vaidade, a arrogância e a soberba nascem precisamente da falta de amor por si mesmo e esconde uma ferida narcísica de impotência e humilhação. Exaltar o mortal veneno e dizer que busca a verdade jamais será solução de sobrevivência. Entretanto, seguir o caminho inverso ao da crítica é uma maneira de fortificar a solidariedade, incentivando o melhor que existe em cada ser humano. Dar um elogio é uma forma de afago e carinho, tem como objetivo sentirmos queridos e amados, e não implica em dívida nem tão pouco em crédito. Ir da crítica ao elogio é ousar a possibilidade do amor. Em realidade, necessitamos de humildade para adquirirmos o verdadeiro orgulho de sermos quem somos. Fazer brotar a centelha divina que dá ânimo para seguir adiante, enfrentar as durezas da vida e, quem sabe, até arriscar um simples bater de asa no céu, uma cantiga de ave, um atrevimento de vôo...
De súbito, a chuva cai forte acordando-me do devaneio, do balançar entre a inquietação e a paz que só existe nos corações sensíveis. Da lembrança surgem as brigas do tempo de criança quando uma dizia a outra: ‘o que vem de baixo não me atinge’ e em seguida: ‘ah, então senta em cima de um formigueiro’. Duas frases ingênuas, mas que têm um certo um fundamento. Já pensando em fugir de alguns ‘formigueiros’, busco pelo poder miraculoso de transformação do elogio nas palavras adequadas que os mestres sussurram aos meus ouvidos. A eles credito os meus acertos. E de volta à tarde de vento e chuva, busco pelo aconchego, na certeza de que em breve, quando menos esperar, um novo raio de sol vai despontar.

Maria Lucia de Almeida

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Caminhando no jardim na viração do dia

Jardim deriva do persa antigo pairidaeza, de paraíso. Jardim é uma tentativa de resgatar o paraíso perdido. Quem não quer a oportunidade de criar ou recriar seu jardim? Quem nunca experimentou o medo de jamais ter o seu paraíso? Aproveito o passeio pelo jardim na companhia do Jardineiro. Meus passos no jardim são cuidadosos, meus olhares aguçados, meus ouvidos atentos à Sua voz . Ele me diz que para criar um jardim há que se levar em conta seu uso, o terreno disponível, a estética desejada, as estações do ano e o clima. Conhecer as plantas, os processos de semeadura. Além disso, realizar diferentes trabalhos de cuidado e proteção das plantas que compõem a área ajardinada.
Preparar o solo, arejar a terra, enriquecer com adubos e fertilizantes para então iniciar o plantio. Depois regadura, poda, tratamento... Perguntei sobre as escolhas certas já que esses plantios jardinísticos são extremamente diversificados e desempenham numerosas funções na estrutura do jardim. Ele disse que um jardim é construído após um projeto. Na História humana muitos povos projetaram seus jardins. Pensei sobre o meu jardim. Ele adiantou a fala. Há plantas como as folhagens que emprestam ao jardim toda a motivação decorrente do seu colorido, da sua textura ou da sua faculdade de emanar perfumes. Outras, como os arbustos servem para formar limitações especiais. Lembrei-me de uma obra de Van Gogh rosas dentro de um pote verde, rosas com pétalas entumescidas de todas as cores, desabrochando em labirintos lapidadas pelo pincel. Meu olhar, bem desamarrado sobre o jardim quis os mistérios da semente. O Jardineiro sorriu pedindo calma. E me contou que há sementes que se acham sem proteção pois o fruto dessas plantas é constituído de carpelos que não se fecham, outras ficam protegidas no interior do fruto, formado de carpelos que se fecham. Disse que há semente fértil, outras estéreis. E que para haver germinação são indispensáveis certas condições, umas próprias da semente e outras do ambiente. Faz parte das condições próprias da semente a integridade (possuir os órgãos essenciais); a vitalidade (estar viva e respirando); e maturidade (ter o embrião completamente desenvolvido e com reservas nutritivas acumuladas). E faz parte das condições próprias do ambiente a composição química apropriada do solo; umidade adequada; arejamento; luminosidade e temperaturas adequadas. Fiquei interessada no assunto. Ele me disse que há semente dormente, aquela que embora viável, não germina mesmo em condições favoráveis do ambiente. A causa pode ser física ou fisiológica. A dormência física pode ser provocada pelos envoltórios duros e impenetráveis à água e, em algumas plantas, até ao oxigênio.
Muitas sementes só conseguem germinar depois de demorada ação de microrganismo do solo e de outros agentes do ambiente que enfraquecem suficientemente seus envoltórios, a fim de permitir a entrada de água.
Como há semelhanças entre nós e as sementes! Que envoltórios duros estão nos impedindo? Na viração do dia, o Jardineiro convida-nos à reflexão, à experimentação de um viver pleno. Viver= ter vida, estar com vida, existir. Também significa: Perpetuar, gozar a vida sabendo aproveitá-la, habitar/residir/morar, sustento/alimentação, dedicação, conviver, forma de existir.É possível ao homem preservar sua centralidade e sair de sua própria centralidade para participar com os outros seres.
Ser e não-ser, é a decisão tomada a cada instante. Estas questões levam ao tratamento de quatro temas básicos da vida humana, que podemos denominar pressupostos básicos da existência. A saber: a morte, a liberdade, o isolamento existencial e a carência de sentido da vida. Os alicerces da existência às vezes estão cercados por duros envoltórios.

(Fragmento do meu livro Sobre Tempos e Jardins)

Luciana Pessanha Pires

memórias

(para virgínia e lu)



no vão da janela, o céu espia, distraída, a vida, lá dentro, desafia seu fio, vazia, vazia: um chinelo sem pé, um casaco sem braços, um copo pela metade, de chá, café, sabe-se lá...,livros meditabundos na estante, uma estátua nua, que se esconde, na sombra do abajur, do olhar cúpido do visitante indesejado, no ar, um gosto de solidão

só o olho do velho, desperto, habita a sala, vagueia, encontra os olhos curiosos do céu, pisca, arrisca-se, arremessa-se: azul com azul, mar, imensidão..., a lembrança do velho voa, salta da rocha escarpada, mergulha nas águas escuras, sente o frio de uma realidade antiga e traz, lá do fundo, um grito de espanto, um riso cristalino, mãos de ânsia estendida, boca macia que esmaga


o sol arde, é verão, e o universo solitário do avô enche-se de calor que o céu e a lembrança despertaram-lhe no coração

quinta-feira, 16 de julho de 2009

viajantes, entre a filosofia, ciencia e poesias ...

Em direção aos astros seguimos na busca de conhecimento, salvação e de nós mesmos.

A Filosofia da Ciência quer compreender a diferença entre empirismo e racionalismo. Entender as perspectivas realista e anti-realista também perceber como a ciência compreende o conceito de verdade. A ciência está à serviço da solução dos problemas da humanidade, assim como demais áreas do conhecimento.
Édipo foi representado na arte da antiga Grécia com um grande chapéu de peregrino viajante, apoiando-se em um bastão por causa de sua dificuldade de andar e, simbolizava o filósofo na busca pela verdade. Diferenciava-se dos demais heróis gregos por sua racionalidade. Édipo dispensava crenças sobrenaturais e amuletos em sua jornada. Decifrou o enigma imposto pela esfinge golpeando o peito com seu punho, desta forma admitindo em si mesmo estar a resposta à questão.Aos olhos dos Poetas e de alguns cientistas, o satélite que no imaginário possui atributos femininos, continuou e continuará intocável, enigmático como a mulher proibida... ?A Apollo 11 teve seu lançamento as 09h32min da manhã do dia 16 de Julho de 1969. Pousou às 16h18 mim do dia 20 de Julho.Todo homem cientista ou não busca pela ordenação... Li certa vez Rubem Alves em sua obra Filosofia da Ciência - Introdução ao jogo e a suas regras "o homem foi capaz de manipular as estrelas, os planetas e os satélites"...Penso que raros entre nós serão privilegiados de viajar em ônibus espaciais e que ainda está longe o tempo em que poderemos habitar outros solos, e declarar como Armstrong- "O céu está cheio de estrelas. Parece uma noite na Terra”.Afinal, o que são quarenta anos diante ao tempo das estrelas? Que corpos e horizontes podemos almejar? Estamos buscando em peregrinações a verdade, solucionar os enigmas da criação do universo ou estamos a recriá-los através de várias perspectivas? A imaginação não pode ser refutada mesmo no campo das ciências. Lembremos que os erros científicos não são divulgados, o que reforça sua credibilidade e a mística em torno dos cientistas que os faz parecer superiores aos demais.
Creio necessário pousar um olhar crítico sobre a ciência e questioná-la sobre o quanto esta tem contribuindo para minimizar os sofrimento e as miséria da condição humana.Quais conquistas estará a gabar-se a humanidade em 2049 ? Como estará o transito terrestre ? Nossa fina camada de atmosfera quanto suporta de tráfego aéreo ?Sou leiga demais para ousar, sequer adentrar em assuntos desta natureza, então ingênua e poeticamente, saúdo àqueles que viram a linda terra no horizonte lunar e, por seus registros nos foi possível vê-la em sua radiante face azul. Surpreendentemente magnífica, enigmática e desejada ... Vistos à distância os corpos provocam nossa imaginação de forma espetacular! Viajantes estamos, o que me faz lembrar do Poema Zen “Um dia podemos descobrir que toda viagem é,de algum modo, uma peregrinação em busca de um lugar que é o coração do viajante.Seu destino é a sua realidade interior.Mas faz parte do ritual, busca de lugares distantes, onde seu coração sempre vai desejoso de um encontro que nem sempre acontece.”
imagem- terra vista no horizonte luar -


quarta-feira, 15 de julho de 2009

Falar do Beijo Sonhado




Falar do Beijo Sonhado

Luiz de Aquino

“Falava de sonhar com um beijo, / um beijo para se sonhar levitando / e saber-me num campo, / sobre o campo verde, / pairando sobre o verdor da relva e de árvores / onde me sentir protegido / porque ao natural saberei sempre amar mais, / amar demais / e demais me entorpecer dos teus lábios” / (...).

Era eu a poetizar um sonho, não me lembro se onírico ou da materialização de alguma Musa. Escrevia ao teclado, no exercício da mais nova ferramenta de escrita e comunicação que jamais sonhava estar sob meus dedos. Uma amiga, leitora especial, afeita a versos e sentimentos, interrompe-me ao perguntar o que fazia. Lacônico respondi “um poema”. Debalde, não obtive a licença para concluir o texto, mas um pedido: “Posso acompanhar? Passe-me cada verso... Ou cada estrofe”. Optei pelas estrofes.

“Um beijo para estrear-me aos teus olhos, / ao teu calor, / ébrio da tua pele / e sujeito a me queimar ante teu olhar. / Beijo de expectativa plena, / beijo de excitar sempre, /provocar o não-medo do cotidiano, das convenções. / Despertar a inconseqüência, / o non-sense, a coragem maior
de te absorver de todo, / te desejar para a eternidade do instante, / para a ternura do sempre.”

Iara retornava sem comentário crítico. Preferia duas ou uma palavra com interjeição. E assim, passei-lhe, uma a uma, e sem revisão, cada estrofe concluída.

“Pouco importa se estamos de peles nuas, / pouco importa se meus pés buscam os teus, / que beijarei como se lábios fossem. /... / Pouco importa se nossos sexos se atraem / e se buscam e se completam. / Pouco importa os orgasmos simultâneos, / os que em ti me antecedem.
Pouco importa / se o desejo satisfeito exige amanhãs. / Importa, sim, que te beijo de lábios, / te tenho em contato, / te sorvo em salivas e licores
os mais íntimos, agridoces e inesquecíveis. / (...) / Importa sim que te beijo. / Eros eu era, como quero ser. / E me és Afrodite. / Os veios / do amor assim liberto / alimentam desejos e anseios / para todos os dias advindos. // Importa, sim, que,
al primo incontro, / havemos de nos beijar”.

Esse poema publiquei-o no livro “Sarau”, em 2003. Aqui, substituí alguns trechos por reticências entre parênteses. O importante, hoje, não é o poema em si, mas o fato de construí-lo, ainda que interrompido por uma amiga muito querida que jamais conheci pessoalmente. Discorríamos sobre coisas de Goiás (ela era vila-boense, de família tradicional). As chances que nos demos para o encontro sempre fracassado ainda estão na minha memória, e a esperança me diz que a encontrarei, sim, do lado de lá, e sem dúvida declamaremos em dueto o poema que, ao dar por findo, foi selado com uma expressiva frase de duas palavras (dela): “É meu!”.

Concordei... Meus eram o sonho e o poema em letras, palavras e estrofes. Dela, o momento. E fundimos nossas posses, porque o sonho sugeriu o texto, o momento o possibilitou.

É nosso, sim, Iara! Sonhemos mais.

Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Deus está vivo

DEUS ESTÁ VIVO

“O mito é o nada que é tudo”
Fernando Pessoa

Quando Nietzsche afirmou que Deus estava morto, suscitando uma polêmica que se estende até hoje, homem brilhante que era, sabia que aquele que a humanidade mata diariamente, colocando-o a serviço de sua vaidade e de seus interesses, não era o mesmo que ele reconhecia ser o limite de sua genialidade.
Pediram-me que escrevesse sobre religião, e, desta vez, não recorrerei à origem etimológica da palavra, mas ao conceito pessoal que dela tenho: Deus é o homem. Deus está dentro do homem. Está entranhado no ser humano, faz parte dele e o sustenta vivo. Ele está na essência do homem a que os sábios (?) chamam alma.
O grande Fernando Pessoa, num verso de imensa felicidade, escreveu: “O mito é o nada que é tudo”. É exatamente isso Deus: é nada, porque é impossível de provar-se com fatos concretos a sua existência; é tudo, porque a própria realidade não existe sem seu dedo criador.
É difícil ou impossível ao homem viver sem religião, a menos que acredite que a religião seja apenas um conjunto de ritos amarrados a normas, punições, proibições, céu, inferno, adivinhações, superstições. A religião sustenta o homem, mantém sua direção, quando tudo parece perdido e ele perde sua razão de ser. Ela o faz perseverar na crença de que algo superior o faz vivo e dotado da capacidade de superar obstáculos e superar-se.
Ao longo da história, a religião foi usada pelos dominadores e, em cada momento, moldou-se o céu e o inferno à vontade deles.
Digam-me: que Pai exigiria dos seus filhos só sacrifício, sofrimento, resignação, miséria? Não conheço nenhum, por pior que seja. Que Pai, para manter o privilégio e o poder destruiria os filhos dos outros, as famílias, cidades inteiras? Que Pai ofereceria aos seus filhos um regime de terror e de medo?
Nenhum. O Deus que está vivo em nós, Ser Superior, quer a nossa felicidade, quer o nosso equilíbrio, deu-nos a natureza maravilhosa, deu-nos a vida, deu-nos a faculdade de sonhar. Só cometeu uma falha: fez-nos humanos, imperfeitos, ambiciosos, vaidosos, tolos. Que pena!...Mas, acho que não, até nisso Ele é sábio. Que graça teria a vida sem a imperfeição? Seríamos apenas deuses. Até nisso, Ele garantiu a sua supremacia.

Elenir Burrone

Tempo de não desistir



O Éden, o jardim de Deus, lugar onde Deus “plantou” o homem, tem abundância, tem fontes. Fonte fala de águas que correm. Água: alimento, frescor, dinamismo, vibração, plenitude, purificação. A porta da fonte deve estar continuamente aberta em nosso alma. Nosso jardim particular, nosso jardim comum, necessita abarcar a dimensão da Fonte das Águas Vivas.
Que amor nos move em direção a nós mesmos, ao outro, a Deus? Perdoamos realmente? Desistimos facilmente da pessoas pelas suas falhas?
Há um registro que me chama atenção no livro Bíblico de Oséias, capítulo onze, versículo oito: “Como te deixaria, ó Efraim?” Essas palavras de amor são dirigidas em tempos de apostasia de Efraim. Deus atraía seu filho pelo perdão, pelo amor abundante, frutífero. Deus não desiste de nós. Mas nós desistimos de nós mesmos, desistimos de viver, desistimos das pessoas ao avistarmos suas falhas.
Um dia de grande importância para os judeus é o Yom Kippur, que é o dia do perdão. Somos seres relacionais, formamos alianças de afetividade, de intimidade, alimentamos expectativas várias. Essas relações nos trazem sorrisos, felicidades, como também sofrimentos emocionais, frustrações. Molduras quebradas, botões que não se rompem na profusão de pétalas sonhadas. Manhãs com cheiro de desilusão. A semente parecia boa, a terra parecia pronta. O sol, a água, tudo na dosagem pedida; todavia, a flor não veio, não veio o milagre esperado. Algo aconteceu fora do nosso controle. O outro é uma surpresa. A surpresa sou eu. Provocamos e/ou sofremos feridas.
Nosso jardim não é perfeito. Nossa humanidade é impactante. E mesmo desejosos por mudança, sofremos constrangimentos. Se buscamos a reconciliação, a generosidade, a tolerância, o perdão, nem sempre somos bem recebidos. Para cada estágio de restauração, por vezes virá um nível de ataque: escárnio, conspiração, ameaças, astúcias, acusações, intimidações, sutilezas...
Quantos erros cometidos! E quantas consequências! Este processo: erro, reconhecimento do erro, arrependimento, confissão, mudança, pode ser doloroso, mas tem algo de libertador que vale a pena experimentar. Assim como é necessário enxergar as razões do outro, analisar as circunstâncias que o envolveram, para liberar o perdão. Conhecer as fragilidades, abrir-se em pétalas de humildade, saber-se em processo, em fazer-se constante, em semeadura, oferecer redenção, possibilidade de cura, de reencontros, tudo isso, esse olhar de lucidez para si e para o outro, abre portas de cárceres, constrói pontes, chegadas, nascimentos.
Há que ser valente, hábil, cheio de fé para resistir, para não desistir, para lidar com imperfeições, as nossas, as dos outros. O dia que está por vir traz um novo desafio, um novo chamado, vale viver para gozá-lo.
(Fragmentos do meu livro Sobre Tempos e Jardins)
Luciana Pessanha Pires

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Parabéns Discutindo Literatura por seus Quatro anos

Com uma inquietude e senso investigatório notável encontrei Luciana. Sua inteligência e sensibilidade agregou em sua Comunidade no Orkut;Discutindo Literatura criada em julho de 2005, mentes de extraordinária competência. Encontrei neste espaço abertura às discussões e sobretudo à escuta indispensável ao diálogo, como disse Paulo Freire nem sempre o diálogo implica em perguntar e responder... A Discutindo Literatura é um acontecimento que promove encontros. Diante de alguns Entrevistados na Comunidade, enquanto em silêncio lemos ( ouvimos ) a dialógica está acontecendo. Além das Estrevistas excelentes, a dinâmica da Comunidade abre-se como um leque de criatividade, instigando os participantes a compartilhar suas produções literárias, estejam publicadas ou não, estimulando e desafiando a todos a levarem mais a sério seus sonhos e projetos.Como nestes dias a Discutindo Literatura completa, com sucesso seus quatro anos de existência, resistindo através do esforço incansável de sua criadora , que além das acima mencionadas qualidades, agrega em sua personalidade uma leveza e luminosidade cativante, não menor que sua simplicidade e vontade de fazer amigos , quero registrar meus sinceros parabéns.Tão válidas iniciativas são raras nestes tempos de visibilidade individual.Sou imensamente agradecida por encontrar-me entre os participantes da Comunidade, que também promove amizades pois nesta cultiva-se um pouco ainda, do desinteresse e real vontade de acrescentar conhecimentos e divulgar sem reservas a cultura e, no fazer de laços afetivos que transcendem a si mesma, numa constante tentativa de avanço à espaços não só gregários. Assim sinto-me à vontade para saudar Luciana e agradecer –lhe por tudo quanto nos enriquece, assim como aos participantes que com ela tornam possível o andamento deste projeto merecedor de respeitável reconhecimento .

Enxurrada

Tivesse coragem mudaria o rumo, seria a mulher virtuosa de Provérbios, cumpriria meus votos, não iria vistoriar a volta do pé de ninguém, nem iria rodar a baiana quando pisassem no meu calo, usaria mais eufemismos e a quem me pedisse a capa eu daria, mas eu não dou minha cara a tapa e sempre tenho algo a falar em qualquer reunião, é chato sempre ter algo a falar, mais chato ainda é nunca ter nada a ser dito.
Gosto de boas intenções, tenho tantas boas intenções, se fosse planta e vingasse daria um jardim imenso, infelizmente muitos planos se perdem, meu curso de fotografia sempre adiado, um rosário de decisões para viver amanhã, tempo perdido com inutilidades.
Pessoas fora do seu estado normal são divertidas, eu fico assim se me obrigam a engolir sapos, se convivo por muito tempo com gente cheia de pose, ou com gente com cara de enterro, pior ainda se for com gente paroleira que desaba-se em perguntas cretinas sobre o peso, a careca, o casamento que ainda não aconteceu, a gravidez um pouco demorada, o divórcio, a morte de algum familiar ou qualquer outra perguntinha cercada de veneno.
Incrível como pessoas podem se especializar em inconveniências, a lista seria numerosa, não vale a pena desfiá-la, melhor puxar outros fios, novelos cheios de cores, como minha paixão por cachoeiras, margaridas e lírios do campo, histórias lidas de trás para frente, poemas, tardes contemplativas em algum café, chá de capim limão, rede, boas risadas com os amigos, um fio de conversa que dura uma noite inteira e não se acaba, uma taça de vinho, um sarau, um recadinho na secretária eletrônica, alguns luxos em forma de abraços, massagens, toques nos cabelos, um aproveitamento verdadeiro dessa vida, que se traduz em confiança.
Se alguém confia em mim, pronto, sou um cão fiel. Falta de respeito eu não admito, chutar cachorro morto não faço, gosto de brigar com quem esteja em pé, mas tem quem bata e depois se agache, isso me dá uma raiva! Ainda bem que passa logo que não vou virar um saco de amargura, não eu que aprecio cores fortes, que dos embates da vida e da velhice não tenho medo, só quero mais que viver, quero existir, existir a contento.

(Luciana Pessanha Pires)

sábado, 11 de julho de 2009

Creme e morangos





Abro a porta às vozes das saudades e, com púrpura ternura deixo-me estar entre elas nestes dias invernais....
Quão serenas são as noites que à releitura solitária de mim mesma faço.
Com ar de graça passo os dedos sobre o cabelo, assoviando a sonata Ronda Alla Turca e agradeço ter sobrevivido, também às tempestades de verão.
Espírito resiste metamorfoseando-se entre mosaicos de sensações; Lembranças sonoras, povoam e recriam espaço – tempo e, nova a mente entrega-se às asas da imaginação.
E o creme com morangos ? A eles acrescento alguns suspiros reservados à ocasião. Afinal, à maturidade lambuza –se com poções de fantasia , doces efêmeras, airadas mas ,com tons de eterna jovialidade como os sons de Mozart, as pinturas de Magritte e a filosofia de Nietzsche...

Liberdade tem cheiro de Natureza!

Liberdade tem cheiro de Natureza!

Caminhando pelas ruas logo ao amanhecer e com os pássaros finalizando
meu despertar, medito sobre a calma beleza do dia. “O inverno tem seus
encantos!” O ar estava com cheiro de natureza, e uma neblina suave
acariciava meu rosto como se fosse um beijo de bom dia das nuvens...
Compensando o frio que fazia.

Não sei por que sempre que me sinto tão próxima da natureza, como
agora, pulsa em mim um forte desejo por liberdade sem restrições.
Ir sem ter que mostrar passaporte algum... Viajar em meus próprios
delírios... Voltar quando sentir vontade e não porque está na hora.
Fazer por amor e não por dever.

Observando as casas noto como estão parecidas com mini prisões. As
pessoas perderam a noção do que é segurança. Tornaram-se prisioneiras
de si mesmas.
Meus olhos não se acostumam com tantos muros altos. São muralhas da alma.
Que saudade enorme me deu das cercas de madeiras, que mais
enfeitavam do que delimitavam quintais despidos de cimento!

Busco livrar-me desse viveiro de verdades tortas e ter como exemplo
somente a Natureza. Para agir mais espontaneamente tal qual... O sol
fazendo arte com a sombra! O vento brincando com as flores no chão!
E a contagiante farra das águas escorregando em cachoeiras!
Agora eu mesma componho e canto (mesmo desafinando) minha canção.
Descalço a realidade... E danço...
Que maravilha sentir meus pés lambuzados de areia!

Eliana de Faro Valença – Li Andorinha

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Itaperuna

Ao cair da tarde a praça de Itaperuna enche-se de crianças, jovens, homens e mulheres, o movimento é intenso. Vale a pena olhar o céu, sentir os ares, ouvir o sino da igreja e ver os homens, anciãos dessa terra, passeando na praça. Eles são altivos, conservam as calças de tergal, o suéter, o relógio de bolso. Boinas ou chapéus de boiadeiro na cabeça. Têm um ar de sabedoria na fronte sugada pelo tempo. Têm um ar de graça e de virtude. Nossa praça é cenário para o despertar do amor de adolescentes; piruetas de crianças, caminhadas, conversas longas, discussões inflamadas sobre futebol. Ela abriga pássaros. Abriga homens. Nela convivem os tipos mais diversos. Alguns arriscam acenos, promessas de uma visita, flertes e sorrisos.
Foi em Itaperuna, solo brasileiro dos índios puris, do bandeirante José Lannes, terra com Câmara Republicana antes da Proclamação da República, onde escolhi nascer, nos idos de 1963, e crescer, cercada por pai, poeta e comerciante e mãe, professora, tios e avós apreciadores de valsa e de encontros familiares aos domingos. Nesse tempo precioso aprendíamos com vovô Martiniano cantigas populares, brincadeiras e apreciávamos sua alegria de viver, seus rodopios com as filhas ao som de Vicente Celestino na vitrola. Vovô: uma cigarra aspargindo entusiasmo, jogando purrinha, ouvindo ladainha, apeando teso do cavalo, distribuindo balas para as crianças, distribuindo guaraná Ita, docinho, docinho, antes do almoço.
Reminiscências de infância, quem não as têm? Itaperuna, minha pérola negra, meu caminho da pedra preta, tem me dado muitos amores, nessa terra fecunda, três flores brotaram: Sabrina, Gilmar e Gabriel, meus filhos. Essa terra bendita acolheu minha irmã Cristina. Minha história de vida está deitada nesse solo. Aqui estendi raízes, agigantei galhos, flores e frutos. Deitei no chão algumas lágrimas. É aqui, nesse torrão que eu me gasto e me deixo gastar, construindo sonhos, desbravando fronteiras.

(Luciana Pessanha Pires)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

PORQUE DELAS É O REINO DOS CÉUS


Carmen Vasconcelos

Há lugares no Brasil - país do futuro - onde a natureza faz mudar o rumo do espírito. São vivências indizíveis, impactos sensoriais além da beleza, esta sim, comunicável. Cantada e decantada. Às vezes, chegar a esses lugares, porém, é um ritual de passagem. Passagem por rodovias deploráveis.
O caos está fincado no chão. As estradas estouram com as chuvas e, mesmo as mais transitadas, têm extensos trechos deixados ao abandono. Pior acontece com as vias marginais, com as rodovias que se estendem ao interior do país. Você está indo e, súbito, a estrada começa a sumir. Vai sumindo, sumindo... E some mesmo. É uma angústia viajar por esses caminhos, só compensada pelo desejo de respirar uns tais destinos. Contudo, as curvas do chão ferido reservam outras angústias.
E elas surgem aos bandos na estrada acidentada. O asfalto carcomido quase impede os carros de prosseguir. Quase não há caminho para quem trafega por ali. Haverá caminho para as crianças que jogam areia dentro dos buracos da estrada, em troca de uma dádiva qualquer, jogada dos carros obrigados à marcha lenta?
Elas vêm portando suas pás foscas, nas mãos pequeninas foscas. Sua roupa infestada de poeira. Fosca. Seu rosto fosco. Sua vida fosca.
Governar é reparar estradas, agora que estão construídas, é urgente, preocupam-se os ocupantes dos carros. Alguém precisa avisar aos governos. É. Mas, os caminhos esburacados dessas crianças, haveremos de repará-los?
Chegam tão perto que, mesmo engatinhando, os carros estão a ponto de feri-las. Ali passam ônibus, caminhões, e há o risco maior com as motocicletas, mais afoitas, zunindo de arrojo, desenhando zigues-zagues entre os buracos. Piora quando voltam as chuvas, os carros patinam sem controle pelo atoleiro, como barcos à deriva num rio de lama.
Essas crianças, aluvião nas margens da estrada, já nasceram feridas pela falta. Tudo lhes é tão insuficiente, tão pouco desde sempre, que os riscos, expostos sem pudor, são a sua alma, o seu hábito, o seu agora. E para elas há somente agora. Não se pode pensar em depois quando tudo é tão premente. Não se pensa em escola, jardins, brinquedos, traquinagens. Nem no quanto há relatividade na palavra supérfluo. Nem no absoluto contido na palavra abandono. “Palavras, palavras, palavras”... Palavras são partículas. A vida é volátil, mas pesa muito. Um peso enorme no vazio: a vida, partículas pendendo, partículas chocando-se. Não, como pensar em literatura ou teorias quânticas, com o pêndulo da fome no vácuo da barriga?
São quilômetros e quilômetros de estradas, a cena a se repetir, como se um cruel diretor de cinema a ordenasse centenas de vezes. Não cobrirão os buracos das estradas suas parcas pás de areia. Ficarão descobertos, como descoberta ficará a vulnerabilidade dessas crianças. Tudo combinado, tudo no ritmo da conspiração cósmica: os carros passando, apesar das dificuldades. As crianças ficando, com seus buracos, sua esperança movediça, sua inocência enlameada. Fincando-se, como as feridas do chão. Atadas ao seu caminho sem rumo, emboscadas pelo seu agora, inundadas pela impossibilidade do futuro.
Assim como a experiência com a natureza é muito mais do que desfrutar do belo, governar também não é só reparar estradas, não é só tapar buracos no chão. Governar é curar as feridas dessas crianças e prevenir outras feridas. Alguém precisa dizer isso aos governantes e aos que se pretendem governantes, mas quem o dirá? Será que as urnas, com sua costumeira indolência, esses entes por tantas vezes tão automáticos e sem autonomia, ousarão dizê-lo?


(Contribuição enviada por email)

UM MÉDICO PERFEITO DA PALAVRA

A Academia Campista de Letras vem nos brindando com apresentações literárias diversificadas, organizadas por uma Comissão de Acadêmicos de elevada expressão cultural (composta por Antônio Nunes, Arlete Parrilha Sendra, Edinalda Maria de Almeida, Everardo Paiva de Andrade, Fernando da Silveira, Joel Ferreira Mello e Renato Marion Martins de Aquino).
Como parte das atividades concernentes às comemorações dos 70 anos da entidade [1939/2009], não poderia deixar de registrar na briosa Revista da ACL, a trajetória de vida do acadêmico Antonio Roberto Fernandes, que dentre tantos outros que já partiram, também brilhou com alta expressão cultural na doce e bela cidade campista a qual me acolheu como filho adotivo.
E, dotado deste espírito de sentimento, não poderia me calar às famílias literárias nacional e internacional diante do meu profundo sentimento com o passamento, dia 20 de novembro de 2008, do amigo, escritor, poeta, ator e compositor Antonio Roberto Fernandes, fidelense de nascimento e campista por adoção. A notícia de sua morte ecoou de forma expressiva no coração dos literatos, amigos e familiares. O prelúdio verdadeiro de sua perda inesquecível. Na medida em que as horas passavam, a nota foi se espalhando entre inconformismo, tristeza e lágrimas.
Na literatura, além dos predicados mencionados, foi um ser humano dotado de elevada grandeza de memorização e de uma inteligência emocionante, principalmente quando declamava de forma talentosa, melodiosa, o que ele tinha o dom de fazer.
Antonio Roberto Fernandes, além de seus magníficos trabalhos realizados, tinha muitos planos em favor do desenvolvimento da cultura, e eu, que quase sempre estava junto a ele, via nas suas palavras e semblante o quanto esses projetos eram importantes, sendo um dos principais a criação da Academia Mirim de Letras de Campos.
Tinha um carinho muito especial pela arte do teatro e pela música. Para quem desconhece, dedilhava suavemente as teclas do acordeon, executando canções de bom gosto.
O que mais dizer? Acredito que necessitaria de dias ou até mesmo de anos para expor o quanto o amigo, médico perfeito da palavra, foi e será para todo o sempre: um grande poeta, um precioso ser humano.
Ele criou um pomar e neste pomar plantou sementes férteis que sem dúvida, não medirão esforços para ver suas obras e desejos realizados.
Descanse em paz, meu amigo!

Agostinho Rodrigues
Escritor - Poeta

(Contribuição enviada por email)

Suavemente Suicida

Vive Le 14 Juillet !!!

O bar, esse ou qualquer um, é um estabelecimento para solitários. Piano que ninguém escuta, palavras que ninguém preta atenção. Um viveiro humano. Cinzeiros cromados, restos de comida e bebida, piolas novas e antigas e projetos de aventuras sentimentais com a duração de uma noite.

Há uma espécie de fatalidade no movimento das nucas marcando o ritmo da noite. Os homens lambem os dentes e as mulheres empinam os peitos. Circulam. Circulamos. O olhar do gueto escorre pelas minhas costas. Levanto-me. Ligeiramente incomodada. Nada tão suave, porém que não me faça desejar uma explosão nuclear em cima do local: suave é a extinção da espécie.

Acho que todo dinossauro sente esse inexplicável langor que nos pega pelo pé nos fins de noite ou nos domingos à tarde. Mais uma dose. Nela se dilui qualquer dúvida, qualquer culpa qualquer ansiedade.

Dois seguranças guardam a entrada. Saio para respirar. Um deles avaliou, com a precisão de uma casa de penhores, a grife das minhas roupas, minha maquilagem lançamento (“Sombras de Inverno”), meus dentes adequadamente polidos, o tamanho e design dos meus saltos alto... e me deixou vomitar em paz.

Lavei o ultraje na pia do toalete e treinei meu sorriso plastificado número dois. Esse sorriso desenvolto me cai bem. Estou fraca da última gripe, deve ter sido isso que acelerou a náusea. Normalmente ela só emplaca depois das duas da manhã, quando as caras em volta estão mais desesperadas.

O próximo passo é o monólogo

Nasci no inicio dos anos sessenta e sou mulher. Tenho quase cinqüenta anos a vida não pode acabar assim: pregando-me somente pequenas peças. Tem que acontecer, espero, ao menos uma catástrofe. Não fujo. Nem mesmo quando corro.

Minhas possibilidades de qualquer coisa realmente nova são muito limitadas. Às vezes acredito que não deve existir uma saída convenientemente digna.

A experiência do estudo e ensino da história me deu conhecimento da aplicação das penas para os que são agarrados por brilhar de mais ou de menos. E a dimensão do punhal de Brutus.

Música garçom, piano... Mudou pra violão

- Por que você diz que ela é uma desajustada?
- Se entope de calmantes e tem medo de acordar amarrada numa fogueira numa praça qualquer, em frente desse bar, na hora dos executivos

Os amigos fazem a história.

Às vezes meu quarto é branco como uma cela de manicômio. Às três horas da manha a vida pode ser bem pior do que ficar aqui escutando esse violão moderninho. Clássicos brasileiros. Daqueles com direito à batucada. A inteligência do bar se anima e bate com os talheres: um sarau...

Continuo a conversar com o vazio fumando o cigarro vagabundo que comprei no fiteiro da frente. Eles (os fiteiros e quiosques) explodem pela cidade, como bolhas de catapora. A classe média sobrevive.

Um ecologista sentou na mesa. Não autorizei. Falou da Amazônia, pulmão do mundo, tartarugas, preservação. Me deu fome. Pedi ao garçom sopa de tartaruga em extinção.Ele levantou irado, dizendo que eu ia acabar inutilmente terrorista, suavemente suicida.Mandei-o preservar os cheira- cola da esquina.Pura demagogia.Detesto os guardadores de carro, os cheira-cola que me arranham o carro e me roubam antenas que não servem para nada. Não dá para se fazer revolução com quem rouba antenas de automóvel. Levassem pelo menos o carro.

Durante os próximos dias vou reduzir minha fala ao mínimo. Vou deixar o telefone fora do gancho e afogar o celular. Só vou sair da toca para os bares. Eles ganham do lexotan habitual, próprio para deprimidos convictos.

Não adianta. Logo vai chegar alguém e ligar o som do carro em volume total. Brega is beaultiful. Nenhuma condição de ir lá reclamar. Em algumas civilizações, bom gosto vale bofetão ou estupro.

Amanha vou tomar umas três garrafas de champagne em jejum. É o dia da queda da bastilha. Vou comemorar meu herói Calabar. De noite , acabarei novamente voltando a esse bar infestado de intelectuais de classe média e falando pro garçom entediado: Vive Le 14 juillet....

Por Madalena Zaccara
Inverno-2009