sábado, 29 de agosto de 2009

fluências...



Ontem falei com uma amigo de várias décadas que vive do outro lado do mar. Os afetos povoaram meus sonhos e acordei impregnada de imagens e, do rumor das ondas do mar e dos tempos em que traçamos rumos tão distintos e, ao mesmo tempo iguais. A intensidade das palavras multiplicaram belezas, subtrairam cansaços, somaram afetos e foram divididos recortes de vida; a cumplicidade tem resistido ao tempo e às distâncias . Nossas conversas sempre foram marcadas por disfluências, pausas suficientes para inspirar e expirar significados ...

Não sei por quantos anos ainda iremos comemorar nossos aniversários através das ondas, pois que das incertezas estamos marcados. Não sei também se algum dia, lado a lado celebraremos e, se estaremos novamente vestidos com sonhos de proporções e transparências similares.


Embora em vias paralelas andamos, foram os momentos de confluências que contaram e ainda contam.


Creio, não ser possível esculpir em pedra , dada a quantidade de expressões que nos escaparam e os afetos que continham, mas arrisco dizer que nas areias intemporais algo foi inscrito e, este algo que nos escapa flui através da voz do vento.

(confluência - mobilidade de fluxos que convergem, direções que se juntam, encontro entre dois caminhos, ruas ou avenidas, dois rios que passam a correr em um leito comum... )
Ilustração - R. Magritte

Divino espetáculo


Por que será que precisamos de tantos significados, explicações, rótulos, conclusões e detalhamentos? Qual a grande necessidade de estarmos sempre nos explicando, batizando todas as coisas, concluindo se é assim ou assado. Criando atalhos e justificativas, buscando lógica e razão, queremos segurar o mundo através de nossas cabeças, acumulando informações e conceitos. Entender, em certo sentido, é também fragmentar, dividir, analisar. Em nossa ansiedade por entendimento acabamos por reduzir a vida às dimensões já conhecidas, para em seguida cairmos no tédio e no desinteresse. Quando crianças, o mundo é sempre mágico e somos a pura expressividade. À medida que amadurecemos e aprendemos que a vida é assunto muito sério, esquecemos de brincar, de sentir e de apenas emocionarmos.
Tudo isso me ocorre a propósito de certa viagem de férias que fiz a um lugar paradisíaco chamado Dunas de Itaunas. Um pequeno vilarejo que fica ao norte do Espírito Santo e que nos anos 50, devido ao lençol arenoso soprado pelos ventos nordeste, foi totalmente soterrado. A vila, como que brotando das cinzas, renasceu nos anos 70 ao lado do rio Itaunas e do outro lado, próximo ao mar de um azul profundo, edificaram maravilhosas dunas de até 30 m de altura de areia finíssima e dourada onde o sol celebra sua existência espalhando seus lindos raios.
Do alto das dunas é possível ver a praia de um lado e o rio de outro e o lugar atrai turistas de todos os cantos do mundo que, ao chegarem em Itaúnas, ficam fascinados pela manifestação do sol na hora do crepúsculo. Por alguns minutos o céu é banhado de luz multicolorida e alí, por sobre as dunas, ficamos com a alma embriagada, encobertos e encantados por um imenso arco-íris. A vila refletindo as cores do céu dá a impressão do paraíso.
Foi durante esse divino espetáculo, raro momento em que me permito ir além dos limites do conhecido em busca dos mistérios do Sagrado, acreditando que nada existe que não tenha forma antes inventada pela natureza, que escuto, por acaso, a expressão de um pequeno coadjuvante da mãe-natureza. Uma criança de mãos dadas com sua mãe que, naquele instante, tornou-se símbolo do reencontro com a minha própria emoção:
- Que beleza, mamãe! Quem pintou?

Maria Lucia de Almeida

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Palestras e polícias


Luiz de Aquino


A noite fechava seu ciclo, dando espaço à luz que, na roça, dizem ser “a barra do dia”. Deixei o Lucas no colégio e tomei o rumo leste pela Avenida Anhanguera. Cheguei à Escola Municipal Alice Coutinho, na Vila Morais, tinha de falar sobre a escrita, a poesia, o jeitão dengoso da prosa em crônica. Dou bom-dia à professora Mara Rúbia, tão-logo a vejo à porta, e quero saber quem foi Alice Coutinho. Uma educadora, conta-me a educadora. Fico feliz: gosto de ver escolas que têm nomes de professores e afins.

Recordo que, no município do Rio de Janeiro, é de lei: escolas recebem nomes de educadores. Com esse argumento, o prefeito César Maia vetou o nome do palhaço Carequinha. E já ouvi de ene professores a mesma pergunta que me incomoda: se ele não foi educador, quem o será?

Falei de versos e músicas, de crônicas e causos. Ouvi alunos a declamar versos e gostei mais de vê-los produzindo paródias e respostas a poemas meus. Claro, sou vaidoso, sim! Fiquei todo, todo ao ver dois painéis – um com poemas de autores goianos (eu no meio) e outro só com minhas crônicas e fotos minhas. Quem não gosta de ser acarinhado, hem? Saí feliz da Escola, afagado pela boa recepção, tanto de mestres quanto de alunos, e cumprimento todos eles abraçando Kamila Marquez, Rodrigo e Elinny.

No mesmo dia, viajei a Pirenópolis. O presidente da Câmara Municipal, Eli de Sá, convidou-me para falar aos vereadores. E sempre há muito o que falar quando a motivação é estudantes e poesia; ou Pirenópolis. Pirenópolis é poesia sempre. E música. E tela e tinta. Pirenópolis é vida!

Vivi um dia feliz. Muito feliz!

São assim os dias, sempre. Os meus dias. Escrever, fazer contas várias, incomodar-me no trânsito, sofrer com os noticiários prenhes de notícias ruins. Os dias são, para todos nós, sequências de pequeninos fatos de vários matizes. Triste é viver uma situação vexatória, algo que nos dá a sensação de violados. Ai, a gente reage... Contei, na crônica de quarta-feira última, de quando minha amiga contestou um policial que punha o carro sobre a calçada, obrigando pedestres e transitar na pista asfáltica. “Polícia pode”, disse o soldado, e ela retrucou: “Pode nada”. Esse feito foi da professora e advogada Sonia Marise Teixeira, e não de Maria do Rosário Paranhos. Esta viveu um outro momento, mas com um suposto policial à paisana que, de longe, mostrou uma carteira dizendo “Sou policial, está vendo?”. Rosário é, tal como Sônia, professora e advogada (elas não aceitam desaforos), e o desafiou: “Traga aqui essa carteira e verá o que faço com ela”. O homem não se aproximou, devia ser mesmo um impostor. Mas exerceu a truculência típica dos mal-educados (há mal-educados em todas as profissões, a gente sabe).

Na quinta-feira passada, 27 de agosto, meio-dia e meia, mais ou menos, uma gangue de jovens em motos causou um início de pânico à saída do Colégio SESC Cidadania, no Jardim América (a cerca de três quadras de uma delegacia da Polícia Civil). Alguém detonou uma bomba (caseira?), o bando ameaçava atropelar crianças e adolescentes, capacetes foram arremessados. Vários pais acionaram o telefone 190, mas a PM demorou a chegar. Não sei a razão da demora, mas os minutos de espera foram angustiantes.

Uma pena que a PM nunca responda ao que a imprensa conta. Ela pode?




Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, e escreve aos domingos neste espaço.





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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

CONVERGÊNCIAS - A Poesia Visual de Tchello d´Barros no Rio de Janeiro

A partir de 3 de Setembro de 2009


“Convergências” – A Poesia Visual de Tchello d’Barros

O espaço de exposições do Largo das Letras, Rio de Janeiro – RJ, apresenta a exposição Convergências, composta de poemas visuais do catarinense/alagoano Tchello d’Barros. A mostra apresenta também o álbum fotográfico Palavraria Pública, um exercício de street photography, onde o autor fotografa – no Brasil e em diversos países - recortes de frases em placas, out-doors, fachadas de lojas, etc, resultando num diálogo inusitado com as obras de Poesia Visual. Para a poeta Andrea Lúcia, curadora da exposição, “esta é uma boa oportunidade para o público carioca e fluminense conferir como os trabalhos de diferentes fases desse poeta visual se relacionam com sua produção contemporânea”, pois a mostra traz para o Rio de Janeiro algumas criações recentes e mesmo alguns trabalhos inéditos do autor. Embora Tchello d’Barros tenha também publicado até o momento cinco livros de poemas ‘convencionais’, começou mesmo foi com poemas visuais lá pelos idos de 1993, em Blumenau – SC, e segue numa produção lenta mas constante, numa média de meia dúzia anualmente. Desde 2004 está radicado em Maceió – AL, e por conta das oficinas literárias que ministra sobre o tema, reuniu alguns trabalhos de séries mais representativas e estreou a mostra em 2006, no NAC – Núcleo de Arte Contemporânea, em João Pessoa – PB. Na seqüência, em 2007, foi exibida no Misa – Museu da Imagem e do Som de Alagoas, em Maceió – AL. Em 2008 foi apresentada no CEN - Congresso Internacional de Literatura Lusófona, em Blumenau – SC. Após essa passagem pelo Rio, a mostra segue a itinerância para outras capitais brasileiras.

Para a abertura da exposição em Santa Tereza , haverá também um sarau de poesia, coordenado pelo poeta Luiz Fernando Prôa, que realiza na cidade diversas ações literárias, além de editar o site Alma de Poeta, onde Tchello desenvolve algumas curadorias. No sarau, além da apresentação dos Poemínimos – micro-poemas Verbi-voco-visuais de Tchello d’Barros – diversos poetas estarão presentes para recitar seus próprios poemas. Na sequência, apresentação musical (guitarra, violão e piano) com Aloysio Neves trazendo arranjos de Toninho Horta, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, A. Neves, Joe Pass, Villa-Lobos e Tom Jobim, entre outros.

Programa

Abertura às 19:00hs

- Exposição de Poesia Visual - Tchello d’Barros

- Exposição do álbum Palavraria Pública - Tchello d’Barros

- Sarau Alma de Poeta - coordenação de Luiz Fernando Prôa

- Apresentação Musical (guitarra, violão e piano) - Aloysio Neves

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SERVIÇO

Abertura: quinta-feira 03 set 2009 - das 19 às 24h

Local: Livraria Largo das Letras - Tel. (21) 2221-8992

Rua Almirante Alexandrino, 501 Largo do Guimarães

Bairro Santa Tereza - Rio de Janeiro - RJ

Entrada franca

Visitação: 04 set à 04 out 2009 - Terça à Domingo - das 14 às 24h

Curadoria: poeta Andrea Lúcia - agatha_triste@hotmail.com

Mais informações: Tchello d’Barros - tchello@tchello.art.br

Agradecimentos:

Anna Mallet – Largo das Letras

Luiz Fernando Prôa – Alma de Poeta

Paulo Rafael – Pizzas Artesanais

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Informações Complementares:

Como chegar:

De carro: Pode subir pelas ruas Cândido Mendes, na Glória, Monte Alegre, no Bairro de Fátima, Joaquim Murtinho, na Rua do Riachuelo, é só seguir os trilhos do bonde.

De ônibus: Há duas linhas, 206 e 214, o ponto final fica na Av. Nilo Peçanha, ao lado do Buraco do Lume, antes de subir o morro tem parada na rua Gomes Freire, Lapa, em frente ao Supermercado Rede Economia e Banco Itaú.

De Bonde: Há horários de meia em meia hora, o último partindo ás 20:30h, é só se dirigir a estação ao lado do prédio da Petrobrás, na av. Chile, Centro.

Gastrô: no local pode-se tb degustar as Pizzas Artesanais de Santa Tereza, acompanhadas por um bom vinho, uma cerveja bem gelada, limonada suíça, doces e a cachacinha Caraíba, da cidade de Paraopeba, M. G, guardada em barril de jequitibá. Tudo ao ritmo e a velocidade tranquila do bairro de Santa Tereza.

Feriado: O espaço estará aberto também na segunda-feira do feriado de 07 de setembro.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

UM CONCURSO


(imagem google)

O concurso é desafio sobre a capacidade de pensar e de se fazer entendido por outros.

Soninha Porto

Participar de concursos é isso. Esta crônica coloquei num concurso da Comunidade Poemas à Flor da Pele e foi selecionado em 2º lugar. Este resultado é significativo, já que fui quase entendida, ou o que falei serviu pra alguma coisa. Pelo menos pro resultado do concurso. Lendo-a novamente, lógico que já alterei alguma coisa, mas no seu bojo continua a falar do encontro do meu íntimo comigo mesma. Redundância? Pode ser, mas quem escreve sabe do que falo, momento em que prestamos mais a atenção em nós mesmos. E fui em frente. Então, com vocês:

O POETA E O POEMA

O poema nasce do confinamento do poeta em si mesmo. Pois é, lendo Vinícius de Moraes e a sua prosa "Transfiguração pela poesia", esta frase brotou do fundo de mim. Maravilhosa essa força das palavras! Que provoca até fazer seus efeitos. A poesia só existe quando toca o outro, pensei. E pensando nisso, Vinícius renasceu ali, no exato momento em que me prendeu a seus pensamentos. Logo me arremeteu ao concurso de Machado de Assis, fiquei até em dúvida, de como o tema poderia se encaixar nas idéias Machadianas, ele que penetrou como ninguém nos meandros da alma humana.

Tentei me ocupar com outras coisas, fui até a cozinha, tomei um café, fumei um cigarro, mas em vão, conclui que o pensamento tinha me aprisionado, por mais que eu tentasse escapar, nada mais teria sentido, até que eu, confinada em mim, escrevesse sobre o poeta e o poema em sua nascente, sobre as idéias e imagens que chegavam pulverizadas...
Tentei me enxergar ao escrever e percebi a essência do pensamento do poeta, o que ele quer dizer, e é engraçado me observar, a entrega a um completo delírio, sem descanso, até que o ponto final chegue.
O meu lado poeta fala alto, imagens minhas e dos que padecem, ou aquelas doces e ternas, que escorrem dos vãos da minha alma cheias de fantasmas ou inspirações.Tenho a impressão de que os vultos se aproximam, sem nexos a procura da forma, e pouco a pouco vou construindo ou desconstruindo. Creio que Vinícius me fez desconstruir, a partir de seu pensamento busco o que me inspira e tento desfazer o quebra-cabeças, a língua ferina da dor, ou a que adula o viver.

Na tela, pinceladas de arco-íris e de sombras que persistem duras e frias. O poema parece planar e eu também, derramo sentimentos que pulsam, vivos de crueza, de cheiros, da sensibilidade que insiste em falar de amor. Porquê de amor? Se a vontade é de rasgar-se até a exaustão.
Mas o amor persiste, ele faz cair os véus do tédio, acalora o corpo e traz cor. Desse delírio de afeto ilusório transformo manhãs e as noites passam a ter luas, onde ilumino-as com versos.
Mas o lamento remexe, machuca, é um andar nas sombras à procura de luz.
Sensações poderosas, que a minha mente insana provoca, ao fazer culto ao amor, ao corpo e a alma, ou às perdas, que só eu sei, das tantas e tantas tristezas nas sinistras noites de solidão.

E de tanto pensar e criar, o desfecho de uma noite em mim é a embriaguez em versos do poeta pra fugir da indiferença que o cerca, ou para reter a beleza do que sente, onde junta tudo e joga nas palavras o manto das desventuras, ou encantos oriundos de seus sonhos. É uma viagem ao fundo, é a transcendência do ser, a sensação do prazer infinito, quando ele chega quase a lamber os versos e cospe a poesia. Quer atingir indiferentes, ou em chamas, os cheios de esperança e confiança na largueza da vida, o que seu transe proclama, ainda que viva em si um vazio.

Que significados terão estes pensamentos pra alguém? Este confinamento vai ajudar a renascer quem chora e sofre? Vai dizer algo a quem ama e canta?

Com essas idéias todas bailando em mim, olho pra noite, o céu tá escuro, lá fora está frio, tento me aquecer e enrolada numa manta, ainda me faço perguntas e depois de cansar de tanto olhar o lado de fora, volto-me pra dentro de novo, as palavras me chegam meio sem sentidos, fogem, relutam, até que num repente de inspiração o poema se entrega, pronto, inteiro, sem contestação. Satisfeita com o resultado dou pequenos retoques. É preciso rever, irá viajar pelo mundo à procura do outro, aquele que em sintonia com minhas idéias, retenham-nas em um novo confinamento. Pode ser que não provoque nada em alguns, mas esta liberdade é a que quero, a beleza do vôo livre do poema, em rumo incerto, ou a crítica certa.
Ao chegar, como chegou a prosa do genial Vinícius, completa-se o ciclo vital do poeta, do contrário a poesia nasceu morta.


terça-feira, 25 de agosto de 2009

Trânsito, educação e politicagem

Trânsito, educação e politicagem


Luiz de Aquino


Desde a tenra mocidade, descobri que a diferença entre adultos e crianças está mesmo é no preço dos brinquedos. Ou seja, os brinquedos tornam-se mais caros à medida que a gente cresce – ou envelhece, para ser mais preciso – e não nisso aí que dizem ser “maturidade”. Maturidade está na pele, que perde o brilho e se enruga, bem como nos cabelos, que perdem a melanina. Não há tempo a perder com argumentos: olhe aí à sua volta, veja os brinquedos dos filhos, sobrinhos e netos, compare os preços com os brinquedos dos adolescentes, depois com os dos adultos... Viu? Conferiu? Descobriu? Tudo bem, pois!

Existem brinquedos que parecem baratos, mas resultam em coisas caras. Futebol, por exemplo, pede apenas uma bola, não é mesmo? Não, não... Quanto custa o terreno de cem metros de cada lado para se fazer nele um campo de futebol? E a terraplenagem? E o gramado? As travas... Ah, se é gramado e bem medido, logo haverá quem exija alambrados, arquibancadas e vestiário, mais os sanitários etc.

Para a quase totalidade dos mortais, um brinquedo caro, também, é o carrinho. Não falo dos carrinhos de fricção com que os petizes (icha! Essa palavra eu busquei longe, no tempo) se divertem, mas dos fuscas e celtas e corsas, que logo nos sugerem pálios e gols e meganes. Brinquedos não exigem de nós apenas seu custo de aquisição: há a manutenção e os cursos acessórios.

E aí, já que falei em carrinhos, vem o trânsito. Com o trânsito, a educação (ou a falta dela): motoqueiros que costuram entre carros e xingam os choferes (mais uma das antigas), pedestres que gesticulam para condutores... Há poucas horas, parei ao ver, diante de um colégio, o aluno de seus dez ou onze anos que já descia da calçada, ignorando o carro. Buzinei discretamente e fiz-lhe um sinal, sugerindo atenção. O guri respondeu, com a educação que lhes dão os pais: “Tô vendo, idiota!”. Tem nada não... Apenas cinquenta anos entre nós dois. Ah, cinquenta anos e, com certeza, um par de pais imbecis.

Viaturas da PM continuam obstruindo as calçadas estreitas de qualquer bairro. “Policia pode”, respondeu, tão mal-educado quanto o aluno que citei, um soldado à minha amiga Rosário, advogada. E ela: “Pode nada!”. Sim, a PM infringe o Código de Trânsito Brasileiro ao não usar, sistematicamente, o cinto de segurança e ao estacionar, a bel-prazer, nas calçadas, estejam a viatura e seus ocupantes a serviço ou não.

As pessoas, especialmente os que já sentem ter cumprido mais de setenta por cento de seu tempo ou missão nesta vida, sentem-se frustradas. E aí, o noticiário fica quase todo ocupado com a ex-secretária da Receita Federal dizendo que sim e a ministra da Casa Civil jurando que não. A opinião pública entende que a ex-secretária inspira mais confiança que a ministra, que pretende vir a presidir o País e a Nação.

Quero não, siô. Prefiro a Marina Silva. A ministra candidata, alinho-a com o menino mal-criado que atravessa a rua desafiando os carros, o policial que acha que a PM “pode” infringir a Lei, bem como o “gênio” que bolou isso de pôr viaturas onde, diz o Código, é espaço reservado a pedestres.

Ah, a todos esses quero juntar também os que estacionam em lugar reservado para portadores de deficiência física e idosos. São tão “confiáveis” quanto a ministra que quer suceder o presidente Lula.



Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, 23 de agosto de 2009

O ANIMADO CAMINHO DO MEIO

Para encarnar Sidharta Gautama no filme O Pequeno Buda, o ator Keanu Reeves encarou uma dieta rigorosa, comendo apenas laranjas e perdendo muitos quilos em poucos dias. Quem sabe Keanu se tenha inspirado em seu personagem, o Bodhisatva (o que chegará a ser Buda), que ficou imóvel sob uma figueira, na posição das pernas cruzadas e costas retas, a posição do lótus, até atingir a iluminação. Humano esforço de Keanu, humano empenho de Sidharta, importa menos o que fizeram e mais que tenham feito. Importa terem desejado, a despeito de ser o budismo a doutrina do não querer. E, no entanto... Haveria um querer mais intenso do que esse, de tornar-se Buda?
A possibilidade de realizar através do esforço é um dos nossos melhores dons. Nossa pulsão de vida se abebera dessa fonte. Graças à capacidade de buscar, exercitamos a superação e a superação nos impulsiona a crescer. Para chegar a qualquer lugar, é preciso alma, ânimo. Lutar pelas nossas vontades e ter vontade de lutar. Alimentar nossa íntima humanidade com cada grande e pequeno sucesso. E não perder energia carpindo fracassos.
Também não dá para ficar sangrando energia na busca do impossível. O rei sumério Gilgamesh, depois de mil sacrifícios pela flor da eterna juventude, a viu arrebatada de suas mãos e engolida por uma serpente. As cobras aprenderam a trocar de pele e renovar-se e ele aprendeu a inutilidade de se lutar por aquilo que não se pode ter.
Mas, como distinguir o possível do impossível? Não há exatidão; seja porque quando queremos muito uma coisa, nossa emoção costuma nos convencer de que essa coisa é possível; seja porque o possível e o impossível costumam mesmo emaranhar-se. Penso no budismo de novo. Uma de suas principais palavras é soltar-se. Experimentemos o sabor dessa palavra. Reinventemos os nossos quereres, eles podem ser flexíveis, realizar-se de mil modos. Não precisamos ser rígidos. Façamos... Mas com prazer.
“Para cada coisa há um momento debaixo do sol”. Há tempo para tudo, inclusive para deixar-se. Ficar quieto, fruir a correnteza. Uma vez um amigo me falou da lição da onda, talvez tirada de uma parábola oriental. Se a gente vai contra a onda, ela vem contra nós com a mesma força. Com a nossa força. No ocidente, sentenciou Isaac Newton: “a toda ação corresponde uma reação de mesma intensidade e sentido oposto”. Vale para corpo, mente e espírito: é bom estarmos atentos para não voltarmos nosso esforço contra nós mesmos.
O esforço revela a necessidade do descanso e o descanso revela a importância do esforço. O ócio (para os antigos romanos era “tempo vago”, “retiro”, “repouso”) nos ensina a perseverar (Sêneca). E toda coisa sobre a terra existe pelo seu contrário: a luz pela escuridão, a eternidade pelo instante, a ação pela contemplação, a fala pelo silêncio, o sim pelo não. Por isso as contradições (Deus as abençoe) nos fazem ser gente. Diante delas, podemos sim, vez ou outra, cruzar os braços, se assim nos convier. Ou, como Sidharta, cruzar as pernas, soltar os braços. Fechar os olhos. Ficar na posição do lótus, a dos estados alternativos de pensamento e intuição. Pela fusão dos contrários, não pela sua separação, descortinar-se-á, quem sabe, o caminho do meio, a harmonia da temperança.

Carmem Vasconcelos

(Contribuição enviada por email)

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O poder do silêncio

Camilo Mota*

A cada dia sinto que a melhor atitude é jamais falar sobre aquilo que desconheço. Como emitir uma opinião se não domino o assunto ou se não tenho informação suficiente para fazer algum juízo de valor? Parece óbvio, mas ao meu redor as coisas não são bem assim. Encontro gente tão “bem informada” que me assusto diante da minha ignorância de homem silencioso. Fico quieto no meu canto prestando atenção.


Aqui neste pedaço de chão beirando o Atlântico, há pessoas que passam a vida inventando histórias para romper seus silêncios. Acho que o mundo está perdendo sua capacidade de contemplação e precisa de muito barulho para se sentir confortável. Daí, também, a necessidade de inventar histórias ou de chegar em casa e ligar a televisão ou rádio ao invés de simplesmente sentar e sentir o corpo repousando no sofá. E quem ainda se detém a ouvir a água da torneira enchendo a mão de umidade cristalina pronta para amar a nossa face tão suada num fim de tarde de verão?


Soube há dias do desaparecimento de uma criança. Cartazes se espalham pela cidade, pela internet, por todo canto. Há uma rede de solidariedade para tentar encontrar a pequena Pâmela. Triste sina. Mundo cruel esse. No entanto, em apenas algumas poucas horas, ouvi histórias diversas, com versões as mais dramáticas sobre o encontro do corpo da menina. Estuprada, violentada, descrições com requintes de uma boa história de terror policial. E as pessoas falavam com uma convicção que parecia verdade! E ela, no entanto, ainda não voltou para casa. Histórias vão sendo inventadas para alimentar não sei que sentimento sádico. Hoje, de Pâmela, há apenas a saudade dos pais e a esperança de reencontrá-la.


Essa onda de fantasias parece que faz parte da cultura de nossa terra. Foi assim que meses atrás falou-se muito sobre a existência de um suposto estuprador rondando alguns bairros da cidade. Também suposições são feitas sobre os mandos e desmandos de um certo deputado. Em recente depoimento na Câmara Municipal, ele mesmo fez troça com o tema. Afinal, tudo de ruim que acontece na cidade tem o dedo do deputado, dizem os fantasistas de plantão. E de mentira em mentira, Pinóquio parece ser bem mais real entre nós do que apenas uma história de moral infantil. O pior é que as pessoas acreditam. Será mesmo que uma mentira bem contada vale mais do que mil verdades?


Cada vez mais amo o silêncio. Não apenas o silêncio físico, a ausência de ruído, mas, principalmente, o vazio da mente que se abre para contemplar a si mesma e ao mundo sem julgamentos, sem expectativas, sem mágoas, sem fantasias. Um amigo me convidou para, numa reunião familiar, dizer um poema, de improviso. “A poesia nasce do silêncio”, eu disse – e a voz foi seguindo os espaços vazios entre um acorde, um sorriso, um olhar atento. Eu não precisava inventar ou falar do que não sei. Era só deixar que a palavra fosse a guia do sentimento que me parecia mais puro. Minha convicção maior é esta: o mundo é feito de silêncios, de espaços em branco, daquilo que sentimos e chamamos de luz. O que é a luz senão o silêncio brilhando sobre e dentro de nós?


*Camilo Mota é poeta, editor do Jornal Poiésis, membro da Academia Brasileira de Poesia, reside em Saquarema-RJ.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Singelo passeio


No caminho da vila a pequena casa abriu-se como flor, dela vertia o aroma de geléia fresca, e o rumor de crianças ao redor da mesa na tarde de quinta feira. Legumes e flores ladeavam a entrada desconsertando os sentidos. Charmosas borboletas davam ao pequeno jardim o movimento encantador. Na simplicidade, ainda desertas de folhas algumas trepadeiras exibiam alguma cor anunciando o final do rigoroso inverno.
Da estrada o olhar não se continha e deflorava a privacidade da doçura ímpar.
Alguns brinquedos dormiam esquecidos, entre os cascalhos, guardando um certo pudor,como o que habita o rosto do poeta ao ver-se diante da amada com seu poema no bolso, sem a coragem de faze-lo presente em todo ser ardor.

Um pouco anestesiada pelo espanto pensou ; hoje duvido um pouco das letras que não criam asas e não se dão a colorir jardins, não bordam almofadas, não enchem lares com aromas e esplendor .

Espectador de moradas de Bougainvilles na alameda, como o rapaz que contempla o por de sol e acredita que os sonhos são fibras dos olhos que se alongam e criam vida, a moça sorri e volta para casa contando estrelas e sementes de amor que encontrou.

Imagem créditos sharon maia wilson

Esta cidade, rodeada de montanha...

Esta cidade, rodeada de montanha... (*)

Luiz de Aquino


  • Foi Isócrates de Oliveira quem cantou: “Minha cidade é rodeada de montanha / tem um rio que a banha / murmurando sem parar”. Eu, quando cantei, evoquei “manhãs alegres / sol dourado junto ao rio / e um desafio a que acompanham violões”.
  • Como não evocar manhãs de sol, tardes preguiçosas, noites alegres e madrugadas românticas nesta Meia-Ponte das minas de Nossa Senhora? A do Rosário, dos Brancos e dos Pretos. A dos Pretos ruiu sob os desgaste do tempo e a fraqueza das bolsas, minguadas de recursos naquele tempo dos anos de 1940, quando os bancos faliam ante a chamada moratória pecuária.
  • A dos Brancos, incendiada sob o signo de Virgem naquele fatídico 5 de setembro de 2002. E a lembrança de mim, embriagado na Festa do Divino, procissão com “banda de couro”. Inerte e bêbado, quase impedi o retorno da procissão, deixado na soleira da porta lateral, do lado da Rua Direita.
  • “Manhãs de festas / acordando Meia-Ponte / ao pé do monte seus antigos casarões”. Meu canto é de saudade; saudade de mim menino, ou de mim mais moço. O murmurante Rio das Almas... “Rio das Almas / vai levando as minhas mágoas / em meio às águas / a rolar, buscando norte”.
  • Foi na Ramalhuda, verão em 1952, que me afoguei pela primeira vez. Um homem gordo tirou-me do poço fundo e seu sorriso me deixou confiante. Afoguei-me muitas vezes mais, porém sem medo. Em quantos poços, quantos copos me afoguei?
  • Poção da ponte, de tanta memória! Música eterna das águas velozes... Meia-Lua, Pedreiras, Lajes... Tempo matado sem pressa em tardes e manhãs de férias. Vô Luiz, meu xará de Aquino Alves, maestro e seresteiro, não se banhava em casa – só nas águas do Rio das Almas.
  • Meia-Ponte Pirenópolis de serenatas e cerveja muita, cachaça e lua de prata. Meu primeiro porre... Acho que foi no Bar do China, irmão de Pérsio Forzani, no casarão que, caído, deu lugar à atual Casa de Justiça.
  • Antes dos porres, os amores são a mais doce lembrança. Amores furtivos às margens do rio, amores inebriantes atrás das igrejas, ao sopé dos montes, no pico do Frota entre as antenas de tevê (o som da cidade, a cidade lá longe, o ar fresco da noite e a poesia emergente).
  • Serenata de metais e cordas na noite serenada. Caju batizado na casa de Wilno. Alexandre, o maestro, era um menino que tocava na banda. Meu Vô Luiz tirava notas carinhosas de um trombone e eu volitava, rumo ao passado, para encontrar meu tio Ismael, o da clarinete, e Dito de Melani, o do pistom.
  • “Ai, que saudade / de acordar ao som do pinho / cá no meu ninho / e sentir a lua cheia / na serenata / que dá vida à noite calma / e leva a alma / à viola que ponteia”. Meu canto de versos ganhou roupa nova na canção de José Pinto Neto. Zé Pinto, o de Caldas Novas, meu parceiro musical, também se foi mais cedo. Foi encontrar os meia-pontenses idos antes, como meu Vô.
  • E Pirenópolis, a das verônicas do Divino, das congadas e dos doces cristalizados, a do licor de jabuticaba e vinho de caju, a Pirenópolis dos meus sonhos e minhas saudades, essa que não dorme... Essa, a cidade rodeada de montanha, encimada na paisagem pelas três colinas aniladas dos gigantes Pireneus, ah, essa!...
  • Minha, nossa, eterna cidade de Nossa Senhora do Rosário! Não há fogo nem enchente que te apague de nossas almas.

(*) Crônica publicada em março de 2003. Senti saudade dela e acho que muita gente não a leu...

As fotos da cidade são de Dalva José Pereira.

Luiz de Aquino é joranlista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


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terça-feira, 18 de agosto de 2009

PELA LINHA FÉRREA ABANDONADA...


Quem não gostaria de reter o tempo, de reter com toda vontade os instantes mais bonitos? Já pensou, ter uma máquina de ir e voltar à vontade, rodar a vida como uma máquina de cinema?! Não posso ver Cinema Paradiso, sem ser dominada pela emoção. Suas teias me transportam a uma menininha sentada na platéia sonhando com alegrias, festas, bailes, liberdade. Já sei, você também se encanta, se é amante da sétima arte. Não é só isso, o filme foi feito para os que amam a vida com suas possibilidades: o ir e o ficar, o recolher-se ou o atirar-se na longa corrida para o futuro, no que se deixa e no que se leva. Corrida faz pensar em viagens, em trens...
Eu viajo no pc, depois de receber um e-mail :Para quem gosta do Douro: Linha Pocinho-Barca d’Alva. Transporto-me a um Portugal tão querido. Imagens banhadas de sol mostram um caminho ferroviário, muitas vezes paralelo ao rio Douro. Quando era pequena, não podia entender por que casas velhas podem ter beleza, mas já as amava. Nas imagens do e-mail ,diversas estações se sucedem com sua resistência, ainda com suas memórias: Coa, Castelo Melhor (será que era?)uma lágrima, Alemandra, Barca d’Alva; cancelas, marcas de quilometragem com placas de ferro já carcomidas: 84,189,195, 197, todas fazem sombra ainda. Ainda há os dormentes, invadidos pelo mato com seu desejo de vida, postes de braços abertos, galhos secos de árvores caem e por lá ficam, até que a chuva e o sol os destrua finalmente; um túnel agora sem sentido aparece, às vezes há belas pontes sobre trechos do rio que passa indiferente ao homem e a seu tempo. Alguém deixou as marcas do seu momento em paredes escuras de uma casa destelhada:Em 13-11-84 às 14:35h... E o rio ri! Tudo passa... Lemos a placa: Atenção aos comboios: PARE –ESCUTE-OLHE . E isto, precisamos sempre fazer.
E o trem prossegue em nossa imaginação. Se o mato invade, os galhos caem, quem se importa?
Só não consigo deixar de ver, por trás dessas imagens, rostos felizes e esperançosos, banhados pelo sol português. Muitos suspiros ainda se ouvem, se você escutar bem, no meio dessas pedras da via férrea. Entrem nas casas abandonadas, lá ainda estarão pessoas de mala na mão, ou sentadas, sentindo o cheiro que vem no vento sobre o rio Douro. Minha tataravó, talvez recém- casada, pensa em ir ao Brasil, buscar um futuro melhor, e nem sonha que uma rapariga nela estará a pensar, diante da tela de um pc, e sofrerá pela via férrea abandonada.
Também há beleza no que foi.

sábado, 15 de agosto de 2009

A brisa, o frescor, a esperança

"Foi poeta - sonhou - e amou na vida."
(Álvares de Azevedo)

Apesar de curta, a vida deve ser repleta de sonhos e de sensibilidade para ganhar significado. Deve ter cantigas, risos, rumores, despertamentos. Também danças, fogueiras acesas, mesas postas, campo lavrado e casa limpa.
Cada dia deve cumprir as promessas da aurora. Há de ter algum caminho, como nos escreveu Mário de Andrade, para nos arrancar do peito as angústias e devolver a brisa, o frescor, a esperança.
Drummond, em seu poema O enterrado vivo, escreveu: "sempre dentro de mim meu inimigo". Em Confidência do itabirano também disse: "E o hábito de sofrer, que tanto me diverte é doce herança." Parece que nossos dramas são produzidos ou consentidos por nós mesmos.
Pôr o sonho no navio e deixá-lo naufragar, como pontuou Cecília Meireles, é entregar-se às contigências, fugir das responsabilidades, cruzar os braços, enevoar a visão.
Dante Milano em seu poema Sombra no ar, fala-nos a respeito da eterna procura humana. Visconde de Taunay vaticinou que "mil coisas imprevistas nos esperam nos muitos meandros da existência".
As nossas expectativas se avolumam. Reconhecemos a necessidade de sonhar e de mover o destino dos barcos e das velas. Que nosso mundo interior não se escureça, que o desânimo não se faça muralha ou fosso de víboras.
É preciso certas manobras para ganhar força e dar à vida sentido e gosto.

(Luciana Pessanha Pires)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Livre associação; das efemeridades



Perdoem-me amigos, estou de partida, despeço-me da ausência escondida, uma pérola perdeu a cor, outrora comovida. Das areias quentes tenho saudade e só por isto movo-me em sofreguidão.
Haverá de se fazer uma estrela antiga renascer, por mais que se sinta que ela ainda vibra e, com sua luz embutida constrói-se sonhos nas noites de rede e folclórica ilusão. Creio que não renascerá mesma chama. Estamos em despedidas, dói um pouco saber que o que fomos se foi para sempre e que as sementes das chamas dormitam em lama. Hoje mais que antes sabemos da impermanência e do quanto a paisagem se transforma e, nosso rosto pede o sorriso do encanto que se foi.
Morremos a cada página escrita, a cada olá já em despedida .
Perdoem meus amigos assim como chego já parto. Também vos perdôo por viverem a efêmera sua, também vida. Que o encanto que ficou no retrato seja resguardado da dor que houve e não pode ser aliviada. Que o esplendor reine sobre desassossegos e nos abra aos momentos que ainda virão galopando miragens. Anseio ainda , dizer-vos que tal qual membrana híbrida fortaleço-me em cada despedida e, assim espero que façam e ousem adentrar a monotonia com tamanha fibra, para que sobre nós alguma sentença seja proferida; houve perseverança, lutaram e deixaram-se transformar !
virgínia fulber- RS- Brasil é terapeuta e além mar Poeta del Mundo e membro da AVBL, coordena o Canal de Filosofia do Espaço Ecos Portal VMD- vicamf@yahoo.com.br

“Meu nome é Mulher” tem autora, sim!

Fátima Aparecida Santos de Sousa, policial militar e poetisa

“Meu nome é Mulher” tem autora, sim!


Luiz de Aquino


O título é simples, mas decidido, decisivo e definitivo: “Meu nome é mulher”. Circula pela internet há tempos, e quase sempre (diria que, na quase totalidade das vezes), é citado como de “autoria desconhecida”. Assim me chegou na primeira vez, e não gastei mais que um ou dois minutos para localizar o nome da poetisa, uma policial militar paulista: Fátima Aparecida Santos de Sousa.

Por que conto isso? Porque incomoda-me isso de se divulgar textos sem citar a autoria. As emissoras de rádio, há algumas décadas, começaram a ignorar os autores de músicas, permitindo que o público acreditasse que o cantor era dono e senhor das melodias e letras. O descaramento foi tamanho que alguns cantores passaram a acreditar que eram, sim, autores, e alguns foram punidos pela Justiça a ressarcir os verdadeiros autores.

É que, especialmente no meio musical, houve um tempo em que era normal o autor vender direitos autorais a cantores famosos. A literatura dá conta disso muito bem: a biografia de Noel Rosa por Paulo Didier e João Dias deixa claro que o Poeta da Vila é o verdadeiro criador de Cidade Maravilhosa, mas vendeu a música a André Gustavo (esse é apenas um fato, entre centenas ou milhares). E tenho conhecimento de inúmeros autores, daqui mesmo da terrinha, que assinaram obras literárias criadas por outros. Consta que, em terras de Minas, alguém que assinava obras de um irmão tornou-se famoso sem jamais ter escrito os livros que levam seu nome. E de Goiás, dou-me conta de pelo menos duas autoras que publicaram obras escritas por terceiros; uma delas sequer se dá ao trabalho de transcrever as histórias para o seu estilo (que, acho eu, não é lá grande coisa).



Volto a “Meu nome é Mulher” e transcrevo o poema inteiro:

“No princípio eu era Eva / Nascida para a felicidade de Adão / E meu paraíso tornou-se trevas / Porque ousei libertação!

Mais tarde fui Maria / Meu pecado remiria / Dando à luz Aquele / Que traria a salvação! / Mas isso não bastaria / Para eu encontrar perdão!

Passei a ser Amélia / “A mulher de verdade” / Para a sociedade!

Não tinha a menor vaidade / Mas sonhava com igualdade!

Muito tempo depois decidi: / “Não dá mais! / Quero minha dignidade, / Tenho meus ideais!” / Mas o preconceito atroz / Meus 129 nomes queimou

Então o mundo acordou / Diante da chama lilás!

Hoje não sou só esposa ou filha; / Sou pai, mãe, arrimo de família; / Sou ourives, taxista, piloto de avião, / Policial feminina, operária em construção! / Ao mundo peço licença / Para atuar onde quiser! / Meu sobrenome é Competência / O meu nome é Mulher!”.

A poetisa, portanto, é (Pérola Neggra, com G dobrado) Fátima Aparecida Santos de Sousa, policial militar em Mauá, SP, e registra seus textos na Biblioteca Nacional. Portanto, que se interrompa a “corrente” que dá o poema como de autora desconhecida. O e-mail da autora é fatimaperolaneggra@hotmail.com e seu telefone, (011) 9409-0630.

Como se vê, a moça existe, é talentosa, competente e bonita.




Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.