quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O TEMPO



http://salobrear.blogspot.com/

O tempo é implacável, não deixa esquecer que as coisas passam, quando se vê já se foi...
A gente tenta que durem pra sempre, mas quando se percebe passaram. Já era!
E vamos vivendo, muitas vezes do passado, amontoando na alma as coisas boas, que deixam aquela sensação de felicidade marcadas na pele, no rosto: o primeiro vestido de noite, todo especial, o primeiro beijo, a primeira transa, o primeiro filho e tantas viagens legais, uma grana insperada, amigos inesquecíveis, a descoberta da primeira poesia.
E aquelas coisas e sentimentos que não queremos nem lembrar, as notas ruins, traições, rejeições, erros, casamentos desfeitos, tristezas, choros, solidão, verbos passados, mas que ficam martelando o presente.
Estão lá nas nossas gavetas da alma, que se abrem sem a gente querer, basta uma breve sensação e pronto! Mostram o que ali está guardado. Essas gavetas são como uma caixa de pandora, dão a tônica do nosso viver, fazem-nos sorrir ou trazem seus lamentos. De minha parte eu tento pular essa parte. Quero viver o meu melhor, dar uma espanada no que foi ruim e trazer o colorido pra meu dia-a-dia do que foi bom.
Tudo por causa do tempo, que provoca esse vai-e-vem, num desenrolar louco e azar o seu se não souber viver, não souber curtir e capturar a beleza dos momentos, vai pro espaço, sem dó.
Mas o tempo, ele ajuda a suavizar as dores, porradas da vida que não tem como não levar: Pais, amigos, conhecidos, que partem pra outros lugares e até para o infinito. Coisas ou pedaços que vamos deixando pelo caminho, perdas, derrotas, que batem duro, e quando, sem querer, lembramos, mesmo voltando a vivê-los, são mais amenos. São do ontem.
O que me dá a sensação de estar vivendo um bom tempo é a Poesia. Nela posso viajar nos meus mundos internos usando uma lente que amplia o que vivi, e neste momento único, só meu, é quando passo a peneira e deixo de lado o que não incomoda e às vezes cutuco a dor. Assim, quando o poema se forma e as letras caem na tela do computador, deixo ali um pouco de mim, tento arrancar o que sangra nas fibras e veios do meu eu e vou virando e revirando as páginas das tristezas, ânsias e mistérios construídos com o tempo. A poesia me permite um olhar melhor sobre o caminho a seguir, dá uma certa paz ao meu presente, tornando a minha carga bem mais leve. Com o tempo a meu favor, que aliás desde que comecei a escrever, sinto que cada verso cura um pouco mais o meu espírito, que foi forjado nas garras do tempo. Sorrio mais, compreendo mais e sei exatamente o que me faz feliz, não perco tempo com bobagens. O mundo está acelerado demais pra isso, com as coisas legais que temos a nosso dispor, como os recursos tecológicos atuais impensáveis até 20 e 30 anos atrás, temos que nos apressar também, deixar pra trás o que não tem mais jeito e ser mais feliz hoje, aproveitando o tempo da melhor maneira possível. Ele passa, então deixemos rastros e pedaços de coisas boas. Eu tenho uma sugestão: faça Poesia!

domingo, 27 de setembro de 2009

HAIBUN




HAIBUN

Chris Herrmann


Dia quente e chuvoso. Hilden amanhece sem suas borboletas.
Será que voaram para a vizinha Dusseldorf?
Não foram para longe.
Devem estar sob um teto aconchegante.
Descansam suas asas sem se molhar.
Não podem perder os tons de primavera.


Gotinhas de chuva
no jardim das borboletas.
Elas voltam já.


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O que é um "Haibun"?

O haibun é um texto curto em prosa, seguido por um ou mais haicai. A prosa que antecede o haicai geralmente se refere a uma experiência vivida pelo escritor. Alguns autores de haibun preferem escrever a prosa de forma simples e direta, ou ainda compacta, curta ou telegráfica, omitindo verbos, pronomes e outros elementos gramaticais (Reichhold, 2002). O objetivo do haicai que acompanha a prosa é dar uma nova dimensão, provocar uma mudança de cena, voz ou tempo, tal como as duas partes de uma tanka. Um haibun também inclui um título e deve ser escrito no tempo presente. Ainda de acordo com a definição da Haiku Society of America, além de brevidade, um haibun pode conter até 300 palavras e haicais entremeados. [Fonte: sumauma.net]

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sábado, 26 de setembro de 2009

Manhã de bom encontro

Manhã de bom encontro


Luiz de Aquino


Nestes tempos em que as praças perderam o encanto, por razão de segurança das pessoas e de descaso das autoridades, a gente se refugia em xópins e, não raro, supermercados. O motivo não é só comprar algo ou ver vitrinas, mas ver gente. Melhor ainda, encontrar pessoas, ver amigos. Muita gente opta por isso, e se observarmos bem, veremos que ir a supermercados pode ser hábito relativamente novo, mas o cafezinho é um costume antigo do brasileiro, remonta aos tempos em que o Vale do Paraíba do Sul consolidou-se com as fazendas da rubiácea.

O cafezinho é da nossa práxis. Como o chá dos ingleses. Só que muito menos formal. O cafezinho a gente toma de pé, encostado no balcão, ou faz dele um adorno para o hábito da leitura de jornal; este, um hábito em desuso por conta da tevê e da Internet.

Supermercado tem algo de íntimo. É onde compramos nossos alimentos e o suprimento da higiene da casa e de nós pessoas. Houve um tempo, passado de poucas décadas, em que se tinha vergonha de comprar coisas como papel higiênico e absorventes femininos. Não mais, não mais (ótimo!). Supermercado, mais que corredores de galeria comercial, é excelente ponto de paquera. Um amigo meu conta que invade a privacidade das mulheres, em especial as mulheres sozinhas, observando-as nas compras. Descobre-lhes o gosto alimentar e adivinha-lhes os períodos menstruais, informa-se de suas preferências quanto a sabonetes e outros cosméticos e consegue, pelo volume de compras, saber se a moça observada mora só, se tem namorado, se divide o apartamento com alguma colega.

Na última sexta-feira, demorei-me por quase uma hora, entre as sete e as oito horas matutinas, numa loja dessas. Tomei meu café da manhã, avaliei falhas de atendimento, consultei preços, analisei, conferi a qualidade dos vegetais (sinto que dão melhor atenção às verduras e aos legumes do que às frutas) e indignei-me com os preços dos queijos.

Já pensava em sair quando me deparei com Yara Moreyra, professora e musicista, pesquisadora incansável. O sorriso dela me leva a viajar no tempo e sua voz de bom-dia, seguida de um abraço carinhoso, desperta a minha saudade: Yara estreou, na Prefeitura de Goiânia, a função de secretário de Cultura. Gostei muito de auxiliá-la, escrevendo notícias sobre os feitos em torno da política cultural da cidade.

Foi ela quem promoveu um inesquecível Salão de Humor. E foi ela quem realizou um concurso de quadrilhas de sanjoão e, com isso, tornou-se público que, naquele distante ano de 1980, ou 81, havia nada menos que seiscentos grupos organizados de quadrilha junina (é preciso qualificar, pois, hoje, quando se fala em quadrilha e organização, vem-nos à mente o tal de crime organizado; não era o caso).

Resumindo, conto-lhes que falamos de música, de pesquisa, de arquitetura e restauro, de arquivos e História. E falamos de pessoas, com ênfase para seu irmão, o também professor (historiador) Paulo Sérgio Moreyra, hoje morador feliz de um bonito casarão centenário em Hidrolândia.

A manhã caminha no tempo. Pessoas passam, rostos estranhos. Sorrimo-nos, um para o outro. Somos jovens daquele tempo de Goiânia mais feliz. Despedimo-nos com outro abraço e a promessa de reencontros (a Internet facilita).

Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras, e escreve aos domingos neste espaço.

Crônica inocente ...das metamorfoses do espírito

*virgínia além mar

Na segunda quinzena de setembro o sol rebordou os campos, terrenos baldios dentro do perímetro urbano foram tombados como patrimônio de aves, sapos, grilos e sementes de toda espécie, ancoradouro de pássaros migrantes.
Não acreditem em tudo que vou contar, porém se crêem que a imaginação produz realidade convido-os a seguir adiante. Nos estacionamentos viam-se bicicletas com cestinhas e muitas meninas portando sacolas ecológicas de tecido reaproveitado. Um gigante cor de brisa engoliu o shopping center, cuspiu um parque de diversões à moda antiga. Um carrossel movido à energia eólica divertia a garotada que das classes escolares haviam sido dispensados, afinal após o rigoroso inverno , aproveitar manhãs ensolaradas era o maior aprendizado. Risinhos como sinos ecoavam nas calçadas, buzinas foram silenciadas. O bom humor reinava junto ao algodão doce... Pipoca colorida numa carrocinha antiga alegrava senhoras que portavam chapéus com laços feito arco-íris ... Uma gravata e alguns ternos forravam a sala dos anteriormente desabrigados, que hora trabalham de guia turísticos à nova cidade . Uma quadra de esportes surgiu do nada, bem naquele lugar horrível onde depositavam lixo à revelia. O Prefeito correu em defesa do parque aquático.
Executivos, viciados em trabalho, esqueceram a hora e divertiram-se como na infância ao admirar as pombas no telhado.
Inocência em dose homeopáticas foi distribuída à população gratuitamente e sem imposição...
A banda tocou no viaduto a cada treze horas. Pedestres ganharam grande privilégio.
À jornada de trabalho foi incrementada, sessões de leitura, instrução e oficinas de criatividade, para quem assim quisesse...
Um banqueiro visitou o presídio, ofereceu auxílio, pediu indulto aos ladrões de galinha e, ainda levou aquele gigante , o de cor de brisa , para fazer uma limpeza
nas galerias, alicerces da alta sociedade...
Juizes ligeiramente, colocaram ordem nos papéis; dizem que foram soprados pela justiça divina...
E por aí foi se gastando a vida , com sorvete de baunilha, Palhaços e Poetas à céu aberto, gangorra, balanços de suspiros...de alívio e, de tão aliviado o guri que o pai pressionava para ser financista, filho do tal banqueiro, foi visto levitando junto ao por de sol...Tinha sonho de ser educador ambiental, músico ou marinheiro, me parece...
Ao confrontar o dragão aos leões a única alternativa cederam, assim a metamorfose se fez...
Então nestes dias burocracia perdeu valor, uma confiança e gente honesta brotou nos caules dos Lírios amarelos. Ganhara-se bastante saúde e ousadia porque a primavera assim pedia...
Bons dias de criança para vocês também !

Em verdade, não deve haver mais nenhum 'Eu quero'!" O leão não conseguirá criar novos valores, mas apenas liberdade para a nova criação. O começar de novo e a capacidade de criação somente será possível com sua transformação do leão em criança. - Nietzsche das metamorfoses do Espírito – Zaratustra


ilustração- créditos Gunars Binde

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Meia-Ponte do Rosário, Pirenópolis

Luiz de Aquino


No próximo dia 6 de outubro, em Pirenópolis, se Deus quiser, mais um livro meu virá a lume. Trata-se de “Meia-Ponte do Rosário, Pirenópolis”, com crônicas e outros escritos alusivos à cidade, berço histórico das qualidades da nossa terra. O dia é véspera do aniversário da cidade, surgida nos sertões ínvios do Brasil colonial, em 1727. E essa véspera tem, para mim, um significado especial: foi nesse dia, em 1978, que lá estreei em livro, com “O Cerco e outros casos”.

A escolha de Pirenópolis se deu por capricho muito especial. Desde sempre, ouvia canções e causos que me levavam, em alma, à vetusta cidade do Padre Luiz Gonzaga de Camargo Fleury, político e jornalista, redator-chefe do primeiro jornal do Centro-Oeste brasileiro – a “Matutina Meia-Pontense” – e patriarca de numerosa prole que deu origem a influentes famílias goianas.

Meu pai, Israel, pirenopolino legítimo e vivente em Caldas Novas desde 1940, jamais perdeu o fio de união com sua terra. Antes, por cota da família, centrada na figura carismática e feliz do meu avô Luiz de Aquino Alves, e dos amigos de infância, sempre lembrados em Caldas Novas e visitados rigorosamente, quando de nossas idas à velha urbe.

Juntei uns escritos. Não foi fácil selecionar, por isso digo que juntei os textos. O critério foi bem próximo do aleatório, eu quis apenas mostrar que lanço muito distante o nome da cidade e seus encantos, sempre que me é dada uma chance. Deixei de inserir a primeira das minhas crônicas sobre o que Pirenópolis me causa. Também não transcrevi diretamente a letra que compõe uma canção, com música de José Pinto Neto, em louvação àquela terra. Trata-se de “Sentimento pirenopolino” (esse nome não me soa bem e algumas pessoas preferem chamá-la de “Manhãs alegres”, palavras que abre o poema-letra).


Não convidei alguém para prefaciar o livro. A esse propósito, devo contar que dois grandes escritores brasileiros – o mineiro Guimarães Rosa e o goiano José J. Veiga – não gostavam de prefácios. Disse-me o Veiga que isso nada soma à qualidade da obra, que esta se vale mesmo é de si própria. Concordo, sem restrições. Mas ao mostrar originais a um escritor amigo e pedir-lhe um prefácio, o meu gesto é de carinho, é um convite para a festa. E, sem demérito aos demais, o prefaciador é, para mim, o convidado de honra para a festa que é o livro.

Desta vez, portanto, não tenho um convidado especial para o livro. É que, por ser Pirenópolis, a lista de especiais é muito longa, a começar pelo meu pai, passando por um sem-número de amigos e parentes, de escritores que ocupam lugares especiais no meu bem-querer. O prefácio, então, não acontece neste livro. Assim como muitos, muitos escritos ficam também de fora (tenho mais de duzentos textos, entre poemas, crônicas, artigos, reportagens e entrevistas, coletadas e concedidas, em que enfatizo a cidade e suas cercanias).

A obra leva a chancela da Contato, a editora do meu amigo Iuri Rincon Godinho, e sai com o apoio indispensável e valioso do prefeito Nivaldo Melo, do presidente da Câmara Municipal, Eli de Sá, e a eficiência do secretário Gedson Oliveira.

Ah, já me esquecia! A Câmara Municipal de Pirenópolis me presenteia com algo que me toca profundamente os brios: o título de Cidadão Honorário. Recentemente, em conversa com os vereadores, disse-lhes que não preciso dessa homenagem para me sentir pirenopolino. Isso eu sou desde que nasci. Mas, enfatizou-me o vereador-presidente, Eli: “Pois continue se sentindo assim, mas leve o papel para enfeitar sua parede”.

Aceito, sim, meu querido vereador Eli! Esse papel enfeita minha parede, mas, muito especialmente, a minha alma. Alma de pirenopolino.


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Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.

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Afinal, o que está acontecendo?


Luiz de Aquino


O video está no Youtube - http://www.youtube.com/watch?v=UI2m5knVrvg – e, no texto de narração, ouve-se que foi veiculado em 2007 – há dois anos, pois. Mas só agora chegou a mim. Como se vê, a Internet é tão vasta que mesmo para alguém que se conecta todos os dias, por algumas horas diárias, muita coisa importante passa ao largo.

Aos sessenta e quatro aninhos, sou parte de uma geração que conheceu o ferro (de engomar, ou “de passar roupa”) a brasa, a pena de escrever (com tinteiro e mata-borrão), a caneta-tinteiro, o surgimento da esferográfica, o fim da lousa individual (cada aluno levava consigo uma peça de ardósia fina, no tamanho convencional de uma página de caderno), o “zipper” (ou fecho-éclair) nas braguilhas, a substituição das máquinas de escrever por teclados eletrônicos e computadores individuais.

Existem os resistentes, tal como existiram em todos os momentos da História. Estou entre os que aprenderam que não basta conhecer o passado sem se ligar ao futuro, e entendo que o presente é isso: a ponte real entre dois tempos inexistentes, o ontem e o amanhã. Como se fôssemos, cada um de nós, seres virtuais, se considerados na ótica do tempo, essa dimensão que todos pensamos entender, mas na qual nem sempre nos situamos.

Comecei a “navegar” na Internet em 1996. Pessoas da minha idade, na época, olhavam o computador como quem se depara com um tigre de bengala caçando cotia num parque urbano, seja na Avenida Paulista, no Aterro do Flamengo, no Parque Farroupilha aqui, na esquina onde meu prédio foi fincado. Não me surpreendo com as inovações da moderníssima tecnologia e sei muito bem abusar dos adolescentes que decifram teclados e códigos “raitec” como quem devora uma belíssima macarronada. Gostaria de ter um Opala 73, naquele modelo original do selo, desde que com ar condicionado, erbegue, direção hidráulica, freio ABS e, se puder ainda, um modesto GPS bem alimentado com dados brasileiros. Não podendo, queria então poder comprar um Civic ou algo parecido, com tais recursos.

O vídeo mostra um adolescentes destes tempos. Rafael é personagem normal, natural, típico de 2007... Mas é um adolescente, tal como todos nós, ao nosso tempo.

Esta semana, Nilson Gomes, na faixa dos quarent’anos, falava-me de seu propósito de substituir a velha biblioteca de alguns milhares de livros pelo direito (que já temos) de acessar as centenas de milhares (ou mesmo milhões) de livros digitalizados. Eu, não. Ainda que o malfadado acordo da Língua Portuguesa, ao qual apenas o Brasil adere de fato, transforme meus livros em peças antigas e obsoletas, vou conservá-los comigo. Minha viúva e meus órfãos talvez os jogue fora, talvez os doe a alguma biblioteca pública, comunitária ou escolar. Cada um desses livros conta-me uma história, foram eles (e meus discos de vinil, meus cedes e meus quadros) que me ensinaram o valor da solidão, a importância de eu curtir a mim mesmo.

Os meninos adolescentes desta era de bites e satélites são mágicos, aos meus olhos. Eles podem ser muito bem informados, quando o querem. Se aprenderem a selecionar as informações, serão geniais já no início da idade adulta. Precisam apenas aprender a ligar o ontem e o hoje. Meu receio é que se ocupem demais do futuro e seus edifícios de vida fiquem sem alicerces.

Nestes treze anos de andanças pela rede mundial, fiz inúmeras relações de amizade. Pelo meu perfil, aconteceu o que se podia esperar – fiz amigos no meio Internet, o Brasil ficou bem menor, reencontrei amigos que se perdiam nos anos e estavam tão próximos, e também reencontrei meninos da minha infância, garotos da minha adolescência. Não quero mais viver sem eles. Se posso, vou ao seu encontro; se não posso, mantenho amizades virtuais.

E “la nave va”... Ou, em linguagem dessa belíssima geração de jovens, a fila anda. Entre um tempo e outro ao computador, conectado à Rede Mundial, saio à rua, dirijo um velho automóvel, exerço ações tradicionais, como a fila do banco, a espera nos congestionamentos, o bom-dia a um velho amigo que passa, as horas de conversa e cerveja num bar – e os bares, ainda que administrados com recursos eletrônicos e oferecendo telões onde vemos xous e futebol, têm a mesma alma das tavernas de outras épocas.

A vida segue seu curso, feito o rio visto por Heráclito. E não somos mais nós mesmos. Ao terminar este texto, não sou mais o mesmo que começou a escrevê-lo, pois aprendi com ele (o texto). Ao concluir, envio-o ao jornal, posto-o no blog e envio-o a vários leitores via Net. Mudei-me, sem sair do lugar.



Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, e escreve aos domingos neste espaço.



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Datas de riso e de siso


Luiz de Aquino


“Muito riso, sinal de pouco siso”, diziam os avós dos meninos da minha geração. Demorei a entender o que era “siso”. Tinha um certo pudor de perguntar demais, receava broncas, receava que alguém já me ensinara num momento de meus devaneios, e como eu devaneava!

Siso. Juízo. Dentes do siso. Dentes-siso. Dia desses, li numa página de Internet, de propaganda de uma clínica dentária (eles preferem “odontológica”), a palavra “ciso”. Ou terá sido “cizo”? Lutei contra meus princípios, entre eles o de rejeitar categoricamente profissionais de nível universitário que não sabem grafar corretamente palavras do seu próprio ofício. Como aquele pediatra que escreveu “fraudas” (sim, ele se referia àquele paninho que se dobra formando vestimenta para a genitália e o bumbum das crianças). Vislumbrei naquele médico uma vocação para estelionatário (ou político sem escrúpulos, que os há).

Carrego comigo, por conta daquele malfadado provérbio da infância, o receio de rir em momentos sérios, já que evito ser grave nos instantes do riso. O siso. Ah, o siso! Meu filho Lucas, trazendo da escola os aprendizados de intervalos e recreios, soltou-me essa: “Não crio juízo porque não sei o que ele come”. Gostei! Ah, esses garotos escolares, sempre cheios de novidades!

Costumo festejar o 15 de setembro como uma data feliz. Afinal, marca o aniversário do poeta lusitano Manuel Maria Barbosa Du Bocage e, também, da brasileira admirável e decantada Lya Luft. E as vésperas me dão aniversários marcantes, como o de meu primo Léo (10), o do mais brilhante dos nossos presidentes, Juscelino (dia 12, dividido com a minha médica amada Mara Narciso e a jornalista Sueli Arantes); dia 14, meu filho Léo e meu irmão Ângelo. Daqui a alguns dias (19), minha mãe completaria 86 aninhos (que falta nos faz, Dona Lilita!). Como não festejar?

O sábado passado, dia 12, prometia ser feliz. Sempre evoco JK, o maior de todos os bandeirantes, o mineiro com alma gigantesca e olhar profundo não para o longe, mas para o futuro. Bocage, o de versos exatos, viajando do lírico ao erótico e ao chulo, sem perder a técnica, a graça e o talento. Lya, a que expõe com maestria a alma feminina, compondo o time de Gilca Machado, Cecília Meireles, Clarice Lispector e tantas outras menos referidas, mas não isso menores.

Foi Leda Selma, poetisa e contista de fina pena, quem me ligou quase acordando. Contou-me que acabara de ler na Internet: faleceu Antônio Olinto. Sim, o nosso amigo, autor de A Casa da Água e dezenas de outros belos livros de poesia, contos, romance, dicionários, gramática etc. O professor, diplomata, jornalista, crítico etc. e tal. Aquele que, há dois anos, convidado por este poeta, com apoios como os do secretário Kleber Adorno, do prefeito Iris Rezende, dos líderes do Comércio José Evaristo e Giulio Cysneiros, veio inaugurar o Espaço José J. Veiga na Biblioteca Central do SESC.

Antônio Olinto nos deixou, pois. O Brasil sente. O Rio de Janeiro e Minas Gerais sentem (especialmente Ubá, dele e de Ari Barroso). Sentem os leitores e escritores de Goiás. Sente mais a Beth Almeida, sua alma-viva. A Cadeira 8 da Academia Brasileira de Letras será declarada vaga nesta quinta-feira, 17 de setembro.

Nos últimos dez anos, tive com ele bons momentos de prosa sobre poesia e vida. Contava da África e dos Bálcãs, de Ubá e do Rio de outras décadas. Perguntava pela Academia Goiana de Letras, contava da Brasileira, recordava goianos vários e realçava: “Precisamos eleger o Gilberto”. Falava de Gilberto Mendonça Teles. Agora, sinto que Olinto sorrirá feliz se Gilberto vir a ocupar a Cadeira 8 da ABL.



Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.



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terça-feira, 15 de setembro de 2009

"Vive l'amour"


‘Vive l’amour’ é um filme especial e também uma obra prima visual. Quase desprovido de diálogos e misturando contrato de sagacidade, estranho erotismo e profunda tristeza, é um filme realista e, ao mesmo tempo, poético e sensível. Um filme para poucos, pois está muito além do mero entretenimento e acima da superficialidade do cotidiano jornalístico.
No enredo, Hsiao é um tímido vendedor de urnas funerárias, possui tendências suicidas e, como forma de redenção, busca coragem para por fim à própria vida. Mei-mei é uma corretora de imóveis que encontra no sexo uma forma de compensar seu intenso sentimento de abandono e infelicidade. Ah-rong vende roupas usadas e se ‘vira’, pelas ruas, para sobreviver. Três jovens solitários e fechados em seus próprios desesperos que acabam se encontrando em um apartamento vazio da cidade em busca da satisfação nos atos compartilhados. Vidas tristes e trocadas, caminhos densos, onde o viver ‘cada um por si’ e a incomunicabilidade são condições do mundo atual e a principal causa do sentimento de abandono e exclusão.
É o cinema contemporâneo que vem tratando da solidão urbana, da falta de amor e de comunicação entre as pessoas. De um mundo onde o materialismo e a alienação urbana ganham espaço e imperam sobre a civilidade e a razão da grande parte das sociedades. Onde o capitalismo com seu efeito globalizar produz uma realidade fria que não mais reflete o interior das pessoas, mas apenas o exterior. Vida de desencontros, vida de excluídos, sofrimento sem nenhum atenuante.
Geralmente , ouvimos, vemos e sentimos conforme nossas inclinações e evitamos, até mesmo excluindo, pessoas com a sensibilidade para enxergar determinadas facetas de nossa realidade. Uma dessas pessoas é o diretor Tsai Ming-Liang que através de seu excepcional “Vive l’amour” veio nos confirmar que muitas vezes mentimos mais alto quando mentimos para nós mesmos.

Maria Lúcia de Almeida

sábado, 12 de setembro de 2009

SÁBADO, SETEMBRO 12, 2009



Giulio Cysneiros, Antônio Olinto e eu, inaugurando o Espaço José J. Veiga na Biblioteca Central do SESC, em Goiânia, dia 5 de setembro de 2007.



Almas materiais

Luiz de Aquino

Beth Almeida, entre mim e Antônio Olinto (*)


A vida era ainda, para mim, algo de muito novo e a descobrir a cada instante. Ou melhor, não era a vida, mas eu próprio a novidade. A vida, propriamente, estava aí, tal como está ainda, desde quando Deus fez a Terra com planícies, montanhas, rios, mares e praias e planaltos e geleiras etc. E sobre ou sob, dentro e fora, colocou as cores das plantas e o ânimo dos animais.

Pois bem: nunca me esqueço que a vida começava todos os dias, e começava cedo. O sol era a mesma bola de fogo centímetros acima da linha do horizonte, e o horizonte de Caldas Novas era verde de matas, e as manhãs eram frias e sonoras de pássaros e poucas vozes de gente. As pessoas eram todas nossas conhecidas.

Era essa a infância de mim. E já naquela época eu sabia que algumas pessoas, algumas famílias, algumas casas tinham sua alma repetida. Não a alma individual, mas alguém que dava equilíbrio à alma imaterial de cada um. Ou à sua família, ao seu lar, a sua casa física (também). Essa “alma”, visível e palpável, era alguém sem a qual a pessoa em questão, ou a família que a rodeava, ou a casa que ganhava calor e harmonia não existiriam. Ou não existiriam como a entendemos.

Numa família, que me era próxima, a alma era Maria, uma empregada de décadas. Maria dedicou cerca de cinquenta anos de sua vida a equilibrar a família que lhe dava salário. Mas não era apenas salário: era o lar, o sustento, o social... O equilíbrio, enfim. Aquilo era, e eu menino já o sentia, a troca perfeita. O mesmo se dava na humilde casa do meu bisavô, o mais bonito dentre todos os velhos da minha terrinha natal. Para ele, o fiel de balança era Sebastiana.

Na tevê, já se veiculou matéria jornalística mostrando pessoas que são “almas” de personalidades políticas, esportivas ou artísticas. Dão-lhes nomes outros, como assistente, secretário (a), governanta e outros mais. Sinal dos tempos, que gosta de criar novos nomes para funções antigas. Para mim, são almas materiais.

Pouco tempo após a morte de José J. Veiga, conheci, em pessoa, o escritor Antônio Olinto, que personaliza, para mim, a figura do acadêmico completo. Imortal da Academia Brasileira de Letras, ele reúne em si funções várias, todas ligadas ao mesmo ofício de cultor das letras. Jornalista, critico literário, professor, poeta, ficcionista e diplomata (neste item, o adido cultural perfeito). E quando o conheci, ainda vivia ao seu lado a também escritora e pesquisadora incansável Zora Seljan, que hoje o acompanha do outro plano de vida.


Antonio Olinto, Célia Siqueira Arantes e Beth Almeida

Imaginei ser Zora a alma andante de Antônio Olinto. Não era. Esta era, para o casal Zora e Antônio, ninguém menos que a pessoa que os acompanhava em todos os passos: Elizabeth Almeida.

Nestes quase dez anos, estive muitas vezes com Antônio Olinto. Visitei-o várias vezes, no Edifício Itaoca, em Copacabana. Ele veio a Goiânia algumas vezes, a última delas a meu convite, para inaugurar o Espaço José J. Veiga na Biblioteca Central do SESC. Estando aqui, sempre foi palestrante na Academia Goiana de Letras ou no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Estar com ele é aprender sempre, e muito. E bem!

Antônio Olinto vive, no momento, época de restabelecimento da saúde, abalada com o peso de um pouco mais de noventa anos de intensa vida intelectual. Jamais o vi sem Beth Almeida ao lado. Tenho certeza, pelo que vi sempre, e pelo que ouvi dele mesmo, que o autor de A Casa da Água não vive sem seu anjo de guarda (e vida). Afinal, são quase trinta anos de zelo ininterrupto.

Um beijo, Beth Almeida! Sou seu fã, tanto quanto o sou do nosso grande amigo e ídolo comum.




Luiz de Aquino (http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com) é jornalsita e escritor, membro efetivo da Academia Goiana de Letras, e escreve aos domingos neste espaço.

Antônio Olinto autografa para Célia Siqueira Arantes (Goiânia, 05/07/09).


(*) Antônio Olinto faleceu no sábado, 12 de setembro, horas depois de esta crônica ser escrita.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Dói nos olhos e ouvidos


Luiz de Aquino


Circula na Internet um vídeo em que a cantora Vanusa, que integrou o movimento “musical” chamado “jovem guarda”, nas décadas de 1960 e 1970, tenta cantar o Hino Nacional Brasileiro. A louríssima (ainda loura) começa imitando Fafá de Belém, mas é traída pelo talento, pela memória e pelo desapego. Pelo visto, ela sequer sabe torcer pelas seleções brasileiras de futebol e vôlei, ou pelos atletas olímpicos que, passo a passo, vêm consolidando o nome do Brasil como expressão esportiva.


A arrasadora maioria dos que se manifestam sobre a “interpretação” de Vanusa condena-lhe o feito. É sabido que preparar-se é missão de todo profissional, mais ainda de artistas músicos, atores e similares. Um agudo fora do lugar dói no ouvido. Um descaminho completo, como ela fez naquele evento de agentes públicos do Estado de São Paulo, é totalmente imperdoável. Os que a defendem inventam um mal-estar; os maliciosos falam em bebida alcoólica e até mesmo em drogas; e os inimigos do nome Brasil lhe dão razão, dizem

que a cantora fez um justo protesto contra o despreparo do presidente Lula, a corrupção institucionalizada, os descaminhos que os políticos cometem com o dinheiro público etc. e tal.


Ligo a tevê e me desespero com as invenções dos apresentadores, especialmente os esportivos (mas sem perdão aos demais) que confundem a Nação com suas concordâncias errôneas e suas regências descabidas. Não fosse o bastante, ainda vemos professores universitários inventando novas terminações para palavras usuais. Lembra o personagem Odorico Paraguaçu, na novela e na série O Bem Amado, de Dias Gomes, a trocar desinências.

A publicidade, mais que o jornalismo, é responsável por inúmeros erros repetidos à exaustão. Lá pelos idos de 1984, quando da campanha “Diretas-já”, apareceu-nos um “Muda Brasil”, sem a pontuação correta. Isso se repete ainda e até mesmo a Secretaria da Educação já bancou uma campanha “Acelera Goiás”, no mesmo molde. Agora, vejo por aí afora um não-entender o que é acento agudo e o que é crase, como “á partir de “ (com acento agudo) e a expressão “sale” em lugar de liquidação, ou “30% off” em vez de “desconto” .

Agora, canso-me de ler “Disk Pizza” e “Disk Oração”. Pergunto-me: por quê? Aonde andam os professores da Língua? Ah, eu sei! Boa parte deles, com preguiça de refinar os estudos e atualizar-se com a gramática, jogam a culpa de tudo na Linguística. Quando não, viajam na própria baba e dizem tratar-se de “liberdade poética”.

Eu, hem?!



Luiz de Aquino – http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com - é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.



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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Pensamentos que não me largam...

Pensamentos que não me largam...
Eliana f.v. – Li Andorinha

Por que o simples se torna tão complicado,
quando solicitamos a liberdade dos inocentes?!
Onde as pessoas começaram a desviar suas alegrias
e a gentileza na convivência? Agindo com esse imenso
descontrole e inexplicáveis ações carcerárias?!
Seguem caçando animais para seu bel prazer.
Roubam suas vidas por um punhado de dinheiro.
Passam por cima da natureza e do sentimento alheio...
sem o menor constrangimento.
Que fizeram os pássaros para estarem engaiolados?!
O que disseram os peixinhos confinados em aquários?!
E as árvores... que silêncio deixaram escapar para terem
seus sonhos de alcançar o sol absurdamente podados?!
Quero a metamorfose desses desacertos. A simbiose com a
Natureza e o Universo. Para sossegar minha alma em meio
a tantos questionamentos.
Preciso beber da serenidade e a grandeza da plantinha, que a
despeito de tantas agressões, surge com sua frágil aparência.
Sorrindo com um verde de encher os olhos e orvalhar a alma!
Quero junto a ela crescer em flor... Iluminada da mais doce cor.
E na primavera proclamar a conquista da liberdade compartilhada
Com a gentileza do “ser e deixar ser”

sábado, 5 de setembro de 2009

Escrito na testa?


Luiz de Aquino


Pessoas sensíveis percebem, pelo olhar ou pela sequência de gestos, o que se passa na alma de outrem. Há os que carecem ouvir para entender o próximo. A percepção da alma alheia enseja muito conhecimento. Mas todos somos metidos a entender de tudo, não é mesmo? Qual é a idade dos provérbios? Alguns se perdem na História, estão na Bíblia; outros surgiram no eterno caminhar da humanidade, romperam fronteiras, sobreviveram ao tempo vital de línguas hoje tidas por “mortas”.

Sim... As ideias sobrevivem até mesmo aos idiomas!

Certo é que nos metemos a opinar sobre tudo. Curiosamente, quando mais estudamos um assunto, quanto mais dominamos um tema, menos opinamos sobre ele. Tenho amigos que gostam de aconselhar sobre tudo. Outros, de encontrar defeito em tudo, e incluo-me entre estes. Um quadro torto na parede, uma letra no lugar errado, a completa ignorância da regência e da concordância (quando professadas especialmente por professores e jornalista, dói mais ainda de se ouvir), a gravata torta... Ah, a gente nota, não é?

Gosto de recordar os tempos de escola, quando estudávamos Platão e seu sistema de Educação. Parecia cruel aquilo de o Estado tomar as crianças dos pais, preparando-as para a vida social, submetendo-as a filtros temporários em que se revelavam serviçais, empresários, profissionais liberais ou políticos. Para Platão, as pessoas de governo eram as mais sábias, as que detivessem maior escolaridade (isso seria independente da vontade da pessoa, mas selecionado entre os de melhor aproveitamento).

Nos últimos vinte e cinco séculos, Platão remexeu-se muitas vezes na tumba (para evocar um antigo dito popular). Ou, na possibilidade da reencarnação, as vidas posteriores devem ter aprimorado seu espírito de filósofo. Mas quanta coisa esdrúxula se vê por aí, se considerarmos que o sábio grego estava certo! E devia estar, ou não sobreviveria dois mil e quinhentos anos por suas ideias.

“De médico e de louco, todos temos um pouco”, diz a sabedoria milenar. Os médicos multiplicaram-se em especialidades e mesmo em outras profissões. Em torno da Medicina, surgiram enfermeiros, farmacêuticos, bioquímicos, veterinários, psicólogos... Não sou capaz de enumerar todos os ofícios derivados, mas pode se dizer que desde os nutricionistas até os cabeleireiros e pedicuros (agora chamados de “podólogos”) são crias da Medicina.

Mas a petulância dos “sábios de esquina” é muito maior que a simplicidade científica de um filósofo grego. Isso de se dizer que policial que mata bandido merece medalha é dar poder de julgamento instantâneo e irrecorrível a um agente, a quem compete o policiamento ostensivo, a repressão a distúrbios e encarregados de investigação. Não precisaríamos mais de juízes, promotores e advogados. Se é verdade que bandido traz escrito na testa essa condição, será que os policiais sabem ler isso? Ou apenas os deputados eleitos sabe-se lá por quais artifícios?

Escreveram algo na minha testa, certamente. O que será? Poeta? Puxador de assunto? Intransigente? Intolerante? Carinhoso?

Tudo mentira! Ninguém tem nada escrito na testa. Se o tivéssemos, certamente teríamos políticos de muito melhor qualidade. Poeta também, é claro. Mas ninguém precisa de votos para ser poeta.

Se os policiais soubessem ler isso, aquele brasileiro assassinado pela Scotland Yard estaria vivo.




Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. Escreve aos domingos neste espaço.


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