quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

domingo, 27 de dezembro de 2009

Trânsito: arbítrio e tolerância






Luiz de Aquino



Enquanto escrevo, lanço votos de Feliz Natal a toda a Terra, porque faltam horas, no nosso fuso, para se alcançar a Data Máxima da Cristandade. Enquanto escrevo, lembro aos leitores que estas linhas serão lidas quando muitos dos trabalhadores do mundo estarão, então, a contar números e montar a estatística dos fatos trágicos.


Muitos são os que, enquanto o mundo parece parar, trabalham pela manutenção da paz, pela contenção da violência e das ocorrências do infausto. São trabalhadores da segurança, da medicina e de incontáveis setores de serviço. Os demais mortais, param para as celebrações religiosas do mundo cristão. Festejam e cometem excessos. Ruídos, comidas e bebidas marcam bem os desatinos. Ah, e a velocidade nas rodovias.


Quinta-feira, dia 24 deste dezembro, em plena BR-153, no perímetro de Goiânia, passou por mim um pequeno carro preto, novo, com faixa amarela e a inscrição de autoescola (que, hoje, se chamam “centro de formação de condutores”, capricho eufemístico desnecessário, penso). O carro tinha apenas um jovem ao volante, nenhum passageiro. E tinha pressa. E corria muito e “costurava” na pista, ou seja, mudava de uma faixa a outra celeremente, sem os cuidados que, por certo, se recomendam.


Posso estar enganado, mas entendi que aquele condutor seria um instrutor de autoescola. E imagino que, pelo fato de o então presidente da República que sancionou o atual Código de Trânsito Brasileiro ostentar título de professor, a palavra “escola” tenha sido poupada do despreparo intelectual dos instrutores.


Ocorre-me, também, que algum dispositivo legal já foi aprovado no sentido de fazer com que as escolas regulares insiram a disciplina Trânsito na grade curricular do Ensino Médio. Mas a regulamentação não se fez (ou não chegou a Goiás). Ouço dizerem que o “lóbi” das autoescolas é fortíssimo e busca impedir que tal aconteça, porque o setor já elege parlamentares nos três níveis para defender sua “reserva de mercado”.


Que tristeza! Enquanto esta crônica chega aos olhos dos leitores, as estatísticas de trânsito contam-nos que dezenas de famílias engrossam o rol das que passam a relembrar tristezas nos Natais futuros.Pergunto-me: que razão existe para que as autoridades investidas de poder rejeitem regulamentar coisas simples, como elevar a qualidade da formação de condutores, envolvendo as escolas regulares? E, na mesma filosofia, indago: qual razão existe para permitir que um carro de instrução, nas horas vagas, seja usado como veículo de passeio? Não devia.


Também acho que as pessoas investidas de autoridade no trânsito deviam receber formação substancial no tocante aos procedimentos de rotina. O cidadão contribuinte, o pagador de impostos, torna-se novamente vítima da sanha arrecadadora. Como provar que, no momento em que se lavrou a multa por estacionamento irregular, o veículo multado estava na garagem do proprietário? Ou que o condutor usava, sim, como manda a lei, o cinto de segurança?


Abusos andam acontecendo, sim. Os agentes são poucos, mas abusam do dever que pensam ser direito, o de multar a bel prazer. Recorrer a quem? Os funcionários encarregados de analisar as defesas agem em solidariedade aos colegas fiscais. E ao poder público falta divulgar os números dessa arrecadação extraorçamentária.


Não perco a esperança. Li que o Ministério Público cobra da Prefeitura de Goiânia ações com vistas a normalizar as calças, e esta é uma queixa minha que se arrasta há mais de dez anos nestas crônicas. Espero, pois, que os promotores e procuradores de Justiça cobrem do poder municipal também uma prática fiscalizadora criteriosa e eficaz no setor de trânsito urbano.





Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, 26 de dezembro de 2009

A visita do Anjo de Natal


Antes que me pudesse dar conta
O anjo adentrou a sala
Esvoaçando suas asas
E perguntou-me, num sorriso divertido,
De quem já sabe a resposta:
-Você está esperando?
Foi quando percebi
Que não estava apenas
Deixando-me ficar,
E cansada de repisar
Palavras e idéias,
Respondi:
-Sim, estou esperando.
Então, o anjo levou-me consigo.
Ao acordar pela manhã,
Na bagunça do meu quarto,
Entre cacos da velhíssima história,
E sentimentos carcomidos de todo dia,
Senti ainda presentes,
Ressoando em meus sentidos,
Os acontecimentos daquela
Incrível noite de sonhos.
E num vislumbre,
Por entre as frestas da cortina do dia,
Algo novo se insinuava,
De um angelical brilho
- O mais lindo sorriso -
Enquanto sussurrava em meus ouvidos:
- Estou contigo.
Maria Lúcia de Almeida

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Frase

"Somos o produto de nossas ações e a raiz da nossa consciência."

Chris Herrmann

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domingo, 20 de dezembro de 2009

Algumas palavras antes das Festas




Queridos amigos meus votos para este Natal e ano que chega são; Que seus sonhos se realizem, para tanto energia e conhecimento são imprescindíveis, ou seja saúde e instrução -educação ( auto-educar-se.) Olhar com sinceridade o que é possível mudar...Todos temos resistência em fazê-lo, as vezes preferimos ficar numa situação ruim ( conhecida) a emprender em mudanças(dão trabalho) e olha que a preguiça é um dos sete pecados capitais ...risos


Natal e Ano Novo há sempre promessas e promessas nem sempre são metas...Metas implicam em comprometimentos, exigem planejamento, início , continuidade , prazo, hora marcada...


Amigos , que o cosmo devolva-te o quanto de bondade, honesto comprometimento com as mudanças necessárias para um mundo mais justo, igualdade de oportunidades e tanto que tens feito pelo melhor e para melhorar-te enquanto pessoa..

Que o amor renasça a cada manhã e não falte esperança na busca, procure amigos, pessoas que realmente sabem comprometer-se com aqueles que chamam de amigos , participe de grupos, Jesus escolheu os seus entre os humildes e puros de coração e, sabia que mesmo estes eram humanos e algumas vezes o magoariam e que a traição viria de um dos seus....

Perdoe sempre ...e, quando estiver meio “cheio” com alguém dê um tempo pra si, afinal quem não se cuida não consegue cuidar dos outros, cultive a Paz aja com amor-amizade à vida pois que, para os cristãos o menino representa vida em abundância , humildade alegria e perseverança .

Caminhar é preciso e o fazemos mirando o horizonte , nele há serenidade e confiança, coragem e precisamos ter um pouco de controle sobre os nossos pensamentos eles são produto dos sentimentos que também precisam ser trabalhados.


Se conhecer alguém que sinta-se demasiadamente preso à mágoas e ressentimentos ,encaminhe para tratamento, , há disfunções químicas que deixam as pessoas pessimistas, ressentidas e sem o mínimo de fé... uma boa terapia ajuda a olhar sob novos ângulos a vida e, se necessário for o uso de medicamentos , ajude a pessoa a enfrentar seus preconceitos quanto a utilização destes.
Que um dos propósitos seja de melhorar sua respiração completa e profunda , praticar a contemplação (início para a meditação) , caminhar ao ar livre e ver a vida , "existem mais mistérios entre o céu e a terra que nossas vãs filosofias "...


Boas Festas !


Músicas de relax e classicas aqui

Luiz de Aquino


Era... Era o Natal!


Era o tempo que a gente chama, hoje, de “anos de chumbo”, pois até mesmo o fato de se reunir na esquina parecia suspeito e havia sempre um sujeito mal-encarado a ostentar um enorme revólver na cintura e dar uma ordem invasiva, desagradável, draconiana: “Dispersar! Circulando, circulando!”, e a gente dispersava e circulava, que ninguém queria ser preso, muito menos ser preso à toa.

Eram os meus anos vinte e tantos, aquela fase entre 1965 e 75, tempo de se estudar, trabalhar muito, ver nascerem os filhos, contar o dinheirinho de todos os dias (quando havia) e esticar o orçamento por trinta dias, dos quais pelo menos vinte eram de corda bamba. Moços magros e esperançosos, éramos os bancários da minha época e da minha roda de colegas, coisa que sempre confundi com amigos.

Era o Natal. Goiânia era uma cidade alegre. Dominada por um espírito de burguesia rural nativa e adventícia dos sertões de Goiás, e, ao mesmo tempo, pela outra burguesia, a urbana, vinda de rincões menos periféricos que o nosso, como São Paulo e Minas Gerais. E era o Natal.

Era o comércio a ornamentar-se e, assim, engalanar as ruas. À prefeitura, somente a partir da década de 1980 coube a tarefa de ostentar novas luzes pelas avenidas e praças. Mas era pelo Natal daqueles anos em torno de 1970 que eu gostava de ser mais feliz. Havia o salário em dia – que os bancos pagam mal, mas fazem-no rigorosamente em dia. Em dezembro, havia a antecipação dos créditos, com o salário do mês e o 13º salário creditados. Em janeiro, em plena ressaca financeira dos gastos natalinos, recebíamos a gratificação do semestre – um salário extra que bem supria os gastos desgastantes de todo janeiro.

Éramos, sim, mais felizes. Havia o temor do arbítrio, as notícias dos amigos presos ou desaparecidos e a eterna ameaça de maus chefes a incluírem nomes no índex do DOPS. Por ser Natal, lavávamos nossas almas com as esperanças apregoadas. Se não éramos de igrejas, havia as famílias, e renovávamos sonhos porque era final de ano. “Ano que vem, tudo melhora”.

Era a mim que cabia redigir mensagens de otimismo. Afinal, era Natal. E a mim também atribuíam escrever sobre a Esperança, a Fé e a Caridade, irmãs espirituais que recheiam os corações em tempos de festas no solstício do Verão. É possível que, naquele tempo, eu tenha plantado esperanças e boas festas nos corações dos leitores de tantas mensagens, mas sei que gostava de fazer aquilo, de escrever votos e desejos de paz, de ventura e harmonia.

Era, era... Era eu e a Primavera, em suas últimas semanas, prenúncio do Verão que nascia sob luzes noturnas de cores, faíscas de amor ao próximo, alegrias de presentear e de receber. Pode ser que, para mim, aquela tenha sido uma era de simplicidade feliz e festiva, sim, mas não eram os vinhos e as rabanadas, os cordões verdes com ocorrências de vermelho e dourado, o Papai Noel a torcer pelo Vila Nova que me davam a certeza dos dias melhores no porvir, um breve porvir.


Era o meu próprio coração em festa. Este, sim, o meu, era o coração mais feliz. Afinal, era dele que emanavam meus recados aos colegas de trabalho, os textos formais para se publicar em jornal ao modo comum de, ao fim, deixar claro que “o BEG lhe deseja Feliz Natal e Próspero Ano-Novo”.

Era, sim. Agora, sinto falta daquela energia. Sei que o Natal mudou. Ou não? Vai ver, mudou apenas em mim.


Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Entrevista com o Artista Visual Tchello d´Barros

Chris Herrmann (Dusseldorf/Alemanha) entrevista o poeta e artista visual Tchello d’Barros (Maceió/Brasil) via e-mail. Dezembro 2009.


1) Chris Herrmann: "Nós precisamos da arte para não morrer de verdade." (Nietzsche) Você concorda com esta máxima filosófica? O quão necessária é a Arte para você, além do retorno financeiro?


Tchello d’Barros: Sempre é bom relembrar Nietzsche, até porque muito do que escreveu, continua atual, é como se tratasse de temas de hoje, sobretudo nas questões da arte. Talvez essa sentença dialogue com o pensamento de Artaud, que dizia que “é preciso mergulhar na morte, para começar a viver”, seria preciso ‘morrer’ para o sistema, dedicar-se exclusivamente à sua missão cultural. O fato é que somos seres criativos por natureza, criar está em nossa essência. No entanto, na atual sociedade competitiva e consumista, há que se priorizar tanta coisa, para sobreviver, que muita gente não tem tempo para o lado lúdico da vida, para se dedicar a algum dom, alguma vocação artística. Aquele talento, geralmente revelado na adolescência, fica adormecido, sublimado pelas lides do cotidiano e metas de conquistas profissionais. Na arte, o retorno financeiro é importante, afinal os artistas são pessoas que pagam contas, igual a todo mundo. Mas não é a principal questão, é apenas uma desejável conseqüência. Em meu caso, posso resumir que a arte não é apenas um combustível para seguir adiante, mas uma instância que dá sentido a minha vida.


2) CH: A situação das Artes no Brasil tem mudado para melhor na(s) última(s) década(s)? Ainda há o que melhorar, e o quê?


T. d’B.: As Artes em geral, tem se desenvolvido muito aqui nos ‘tristes trópicos’, especialmente depois que saímos da ditadura. Houve muitos avanços em termos de legislação, direitos, e mesmo qualificação profissional por parte de gestores culturais e na dinâmica das instituições, sem falar da visibilidade que a arte brasileira em geral vem alcançando em âmbito internacional. Ainda assim estamos longe do ‘melhor dos mundos’. Há que se desatar o quiproquó da equivocada e atravancante Lei Rouanet; há que se implantar e consolidar o SNC Sistema Nacional de Cultura, com seus Fundos de Cultura, renúncia fiscal das empresas, e as cidades e estados devem nomear seus Conselhos de Cultura c/ representantes da sociedade civil organizada e não apenas os cupinchas de prefeitos alienados e governadores megalomaníacos. Há que se mudar a mentalidade do empresariado em geral, que precisa entender o quanto sua marca terá uma visibilidade positiva se associada a projetos culturais. E sobretudo, há que se desenvolver uma conscientização por parte da população em geral, de que a Cultura é seu patrimônio, que lhe confere identidade, que é um direito seu, que é justo cobrar políticas públicas de fomento e manutenção das artes em geral. O povo brasileiro é dono de uma das maiores diversidades culturais do planeta, uma riqueza sem paralelo, é até uma questão de se desenvolver a auto-estima desse povo tão híbrido e multifacetado, que já está mostrando ao mundo o potencial de suas manifestações artísticas.


3) CH: Na sua opinião, o que um artista de hoje precisa ter em mente para aumentar suas chances de uma carreira bem-sucedida?


T. d’B.: Bem, já que não existe fórmula para isso, posso apenas comentar o que o senso comum já sabe. Parece que é necessário antes de tudo desejar isso, ter uma vontade ferrenha de que seu trabalho aconteça. Os obstáculos são enormes, é preciso colocar muito, mas muito amor mesmo naquilo que se faz, para que as idéias e sonhos se concretizem, é necessária uma dedicação e disciplina fora do comum para materializar um projeto artístico, é isso que noto nos colegas bem sucedidos. Mas pessoalmente vejo ainda que as coisas vão além disso. É preciso se profissionalizar, permanecer ético em terrenos movediços, saber dizer não, estar conectado c/ os avanços tecnológicos de nosso tempo, dominar ferramentas para se comunicar com seu público. E creio que seja fundamental garantir a qualidade de seu trabalho, seja em qual linguagem artística for, e para além disso ainda, ter algum diferencial, ser original em questões formais ou conceituais. Possivelmente a combinações desses itens, devidamente adequados a cada caso, podem fazer a diferença para alguém que queira deixar sua marca no âmbito cultural.


4) CH: Como você recebe as críticas? Já aconteceu de você fazer alterações em algum trabalho (literário ou não) por conta de uma crítica recebida?


T. d’B.: Antes de responder, não custa mencionar que a palavra ‘crítica’ aqui no Brasil é carregada semanticamente de uma atmosfera desnecessariamente negativa. Há quem diga que a tradução ideal seria ‘análise’, ou ‘exame’ de uma obra. Trata-se na verdade de fazer uma mediação entre a intenção de um autor com as possíveis interpretações por parte do público. Em meu caso particular, confesso que recebo as críticas sempre com curiosidade, pois interessa-me saber o que pessoas inteligentes pensam de minha produção. Naturalmente que observo se tais pessoas têm autoridade, formação e em qual base conceitual fundamentam seus argumentos. E talvez caiba emncionar que, assim como os tradicionais veículos de comunicação reduziram drasticamente o espaço p/ a crítica, na revolução digital cresceu exponencialmente a picaretagem, o favorecimento, as panelinhas, e espaços onde lixo de todo naipe é apresentado como arte e assim as pessoas ficam um tanto receosas quanto aos conteúdos de valor duvidoso. Daí a cada vez mais importante atuação dos críticos, dos que tem sólida formação, para dar legitimidade e qualificar as propostas dos artistas. Sobre minha produção, não modifico trabalhos, independente de como são criticados, mas geralmente percebo aí um termômetro para as coisas que estão dando certo.


5) CH: Literatura, artes visuais e cênicas, moda... enfim, como diz o vídeo em sua homenagem, você é uma ´explosão de arte´! Em qual momento você percebeu que o ´pavio começou a queimar´? Você planejou percorrer por diferentes vertentes artísticas ou elas foram traçando o seu caminho?


T. d’B.: O vídeo Explosão de Arte, no Youtube, mostra algumas das facetas do que andei produzindo nos últimos quinze anos. Admiro artistas que se dedicam à apenas uma modalidade de expressão (cerâmica, trovas, marchinhas, por exemplo), mas este nunca será meu caso, tenho interesses múltiplos e acredito que seguirei assim. Para mim, o ‘pavio começar a queimar’ muito cedo, sempre me imaginei escrevendo e/ou lidando c/ artes visuais. Passei alguns anos no meio teatral, tive curtíssimas passagens por música, dança e vídeo, mas chegou uma hora em que tive que me decidir por atividades que dependem exclusivamente de mim. Optei sim por me exprimir em diversas linguagens, mas as pessoas que escrevem sobre meu tralho tem notado que em tudo há um fio condutor, elementos de aproximação temática, formal ou conceitual. Depois de meia dúzia de livros solo publicados e participações em mais de sessenta exposições, entre individuais e coletivas, creio ter achado um caminho, embora eu intuo que o melhor ainda está por vir. O pavio segue queimando. Nesse percurso, creio ter produzido um currículo razoável e um portfólio honesto. Na próxima década penso em aprofundamento e aprimoramento, num conjunto de ações para consolidar esse trabalho. Quem vir ver, verá.


6) CH: Fale dos ´ismos´. Eles são imprescindíveis ou apenas servem como um ´guia prático do passado das artes´? Se você tivesse que usar um ´ismo´ para definir seu momento artístico atual, qual seria?


T. d’B.: Os ‘ismos’ da arte foram imprescindíveis em seu tempo, pois norteavam o pensamento, as idéias e principalmente as escolas estilísticas de seu tempo, aglutinando alguns dos talentos mais expressivos. Além disso, influenciavam a cultura em outros países e contaminavam, no bom sentido, muito da produção industrial em design, moda, arquitetura e diversos outros segmentos. Muito disso se deu principalmente na esfera das artes visuais, embora o Surrealismo, só pra citar um desses movimentos, teve desdobramentos na literatura, na pintura, no cinema e estimulou o desenvolvimento de áreas como a psicologia e a psicanálise. Hoje a chamada arte contemporânea aglutina incontáveis estilos, técnicas, suportes, conceitos e propostas, onde os tradicionais ‘ismos’ com suas cartilhas e manifestos já não tem mais espaço, temos no máximo os chamados Coletivos de artistas. Mesmo assim, os tais ‘ismos’ permanecem como um rico referencial da História da Arte, onde eventualmente alguns artistas fazem releituras ou atualizações desses movimentos. Recentemente produzi uma série de retratos, no estilo da Pop Art de Andy Warhol, como uma forma de homenagear esse revolucionário e polêmico artista, que ainda influencia muita gente, principalmente na atitude diante da arte. Já meu trabalho, nunca pretendeu se enquadrar em rótulos, em ‘ismos’, escolas, pós-isso ou pós-aquilo, apenas sigo em frente, produzindo. Deixo essa tarefa para futuros pesquisadores, jornalistas especializados, formadores de opinião, ou teóricos acadêmicos, caso meu trabalho mereça alguma atenção nesse sentido.


7) CH: Onde se encontra o poema visual na cena artística brasileira atual? Você já vivenciou algum tipo de barreira, por exemplo, preconceito ou rejeição do que não seja bastante popular e de fácil assimilação?


T. d’B.: O poema visual na cena artística brasileira atual se encontra... bem escondido, eu diria! Isso porque não é uma modalidade de expressão muito conhecida, não tem apelo popular nem alcança as mídias com divulgação de massa, digamos assim. Só muito recentemente é que vem sendo aceito por parcelas bem restritas do meio acadêmico e muito timidamente já aparece aqui e acolá no currículo de ensino de alguns educandários onde a Literatura é levada a sério. Minha humílima contribuição tem sido dar palestras e oficinas sobre o tema, e também tenho uma exposição de poesia visual, que se chama ‘Convergências’, onde apresento uma seleção de meus principais poemas visuais. Por enquanto a mostra já itinerou por meia dúzia de Estados, mas pretende andar um bocado ainda, antes de se transformar num livro. O que percebo é que essas ações pontuais ajudam a divulgar a Poesia Visual. A boa notícia é que a própria Internet tem sido o meio onde novos poetas visuais (semi-novos também!) têm apresentado sua produção, ainda embrionária, mas já permitindo muita troca e intercâmbio. O que me parece é que a Poesia Visual nunca será exatamente popular, mas isso mesmo também a torna especial, rara, quase um segredo entre iniciados, um código entre poetas, um trigo raro na literatura de nosso tempo. Quanto à questão da assimilação, meu trabalho nunca sofreu preconceito ou rejeição, apenas uma vez cancelaram uma exposição já em plena montagem, só porque havia alguns desenhos de mulheres nuas, nada demais. Mas a produção em geral é bem aceita, mesmo as criações mais conceituais, embora evidentemente haja um certo distanciamento entre as camadas de público com menor formação cultural, pois estamos num país ‘em desenvolvimento’, onde as estatísticas apontam que menos de 10 % de nossa população já entrou num museu ou galeria de arte.


8) CH: A concisão sempre o acompanhou? Muitos de seus poemas mínimos dão a impressão de que histórias máximas (reais) sobre o autor estão sendo sutilmente reveladas. É isto mesmo?


T. d’B.: Por razões que a (minha) própria razão desconhece, sempre produzi obras em que a concisão, o rigor, o emprego de recursos mínimos, dessem conta de comunicar a proposta daquele trabalho, seja nos poemínimos, nos ideogramas ocidentais, nos labirintogramas e por aí vai. Nada contra obras que trafegam em outras vertentes, mas para mim, determinados excessos, tagarelices, verborragias e barroquismos apenas não são minha praia, simples assim. Já vivo num país exuberante, com um povo exuberante, plural, onde tudo é superdimensionado e no superlativo. Meus trabalhos nunca pretenderam negar essa realidade, mas gosto de escrever poemas breves, contos curtos, crônicas precisas. Um desenho, uma gravura, ou uma de minhas pinturas comunicam com poucas cores ou poucos elementos visuais. Não que seja uma regra rígida, mas um tipo de ecomomia conceitual. No fundo persigo uma coisa difícil de se fazer na arte, o simples fato de se comunicar com clareza. O desafio está em fazer isso com poucos recursos, com poucas informações, sejam plásticas ou semânticas. E não trato de temas biográficos, pessoais, qualquer vocábulo “eu” que apareça em meus escritos será sempre um narrador fictício. Mas há quem não acredite muito nisso...


9) CH: Conte sua trajetória com o haicai e o que essa experiência o acrescentou como artista e pessoa.


T. d’B.: Meu contato com o haicai e suas variações começou lá por 1.993, quando comecei a publicar meus primeiros poemas e expor meus primeiros quadros, ainda na germânica cidade catarinense de Blumenau, onde eu vivia nessa época. Lia haicaístas locais, de outros lugares e também de outras épocas, mas apenas pelo prazer de ler e conhecer cada vez mais dessa poesia de origem nipônica. Até que comecei a escrever também, quase sem querer, de brincadeirinha... Mas essa coisa pega a gente por dentro e na primeira noite escrevi logo uns 50, depois fui vendo que não é só técnica, há que se pesquisar com seriedade e praticar muito também. Como quase tudo, é a prática aliada ao estudo que leva ao aprimoramento, à evolução. Na virada do milênio, publiquei o livro Olho Zen, minha coletânea de haicais. Nessa modalidade literária sou adepto do haicai tradicional, com kigô falando da natureza, métrica tradicional etc, embora aprecie muito ler os adeptos do haicai urbano, tropical, erótico e até os mais experimentais. Atualmente tenho escrito haicais em guardanapos, sem assinar, e deixo sempre sobre alguma mesa... Acredito que nenhum poeta sai incólume após passar pela experiência do haicai. É um aprendizado que permanece e amplia nossa visão de mundo, nosso jeito de estar nesse mundo, sobretudo diante da transitoriedade da vida e da inexorabilidade do tempo. Talvez por isso o haicai é muitas vezes associado à uma fotografia, constituída de palavras, mas que congela o tempo, ou registra um ato, um fato, presenciado pelo autor. Em meu caso, até meu trabalho em fotografia foi influenciado. Não fotografo como um fotógrafo convencional, mas como um haicaísta... Sou também autor de um haicai visual, o Haicai Para Os Sem-terra, onde se vê três fios de arame farpado, com 17 farpas, claro...


10) CH: Kerouac e Leminski foram duas grandes revelações do haikai ocidental. Sem dúvidas que eles estimularam o gosto de novos poetas por este tipo de poesia tradicional japonesa. Quais os ´haijins´ brasileiros de hoje que você recomendaria a leitura?


T. d’B.: Não há dúvidas de que Jack Kerouac e Paulo Leminski foram pessoas que captaram o ‘zeitgeist’ de seu tempo e lugar, o espírito de sua época, influenciaram muita gente e continuam fazendo escola. O haicai, enquanto novidade, já foi considerado um mero poema exótico, no entanto, na atualidade é inegável sua difusão cada vez maior, especialmente no ocidente. No Brasil, terra de todos e dos japoneses também, foi inevitável sua introdução, expansão e até mesmo as polêmicas inovações de estilo. Hoje, crescem nas universidades os TCCs, monografias e teses sobre essa arte onde Bashô segue sendo uma figura emblemática. Em nosso país, o que não faltam são haicaístas de qualidade. Recomendar é um exagero que não ouso, mas cito alguns que já me deram prazer na leitura e muito ensinamento, como Helena Kolodi, Masuda Goga, Teruko Oda, Alice Ruiz, Leila Miccolis, Nempuku Sato, Paulo Franchetti é também uma referência, e ainda o extraordinário haicaísta catarinense Martinho Bruning (em memória), com mais de 10 livros publicados, mas injustamente esquecido. Dos haijins brazucas recentes é impossível citar tanta gente, menciono apenas os que tem me surpreendido mais recentemente, como Benedita Azevedo, Chris Herrmann e os epifânicos haicais de Jiddu Saldanha. Mas prestem atenção nas dedicadas Isnelda Weise e Margit Didjurgeit, que em breve estarão lançando seus livros de haicais.


11) CH: Sartre defendia a tese de que a liberdade dá ao homem o poder de escolha, mas está sujeita às limitações do próprio homem. No caso da internet, como conviver com a ´avalanche artística´ onde a qualidade duvidosa e o plágio disfarçado (ou não) também são empurrados ao público como obra artística genuína? Há o que fazer?


T. d’B.: Eu não sou livre para fazer o quero fazer, apenas para o que posso fazer e ainda devo escolher entre o que é necessário fazer. Sartre era um sujeito que sabia das coisas, e escrevia com propriedade sobre o existencialismo, embora muitos ainda hoje considerem uma sandice ele recusar o prêmio Nobel. Nessa questão aí da liberdade, parece nos lembrar do quanto somos limitados, e que toda liberdade é relativa. Não sei se O Ser e o Nada, sua principal obra, faria tanto sentido nesse mundo meio caótico do novo milênio, mas é inegável que essa questão da liberdade traz uma série de prós e contras, principalmente se o assunto for a qualidade do que é considerado arte e é despejada diariamente na internet, sem crivo, sem crítica, sem critério, sem crime, sem nada. Cada um posta o que quiser e sempre haverá a turminha que aplaude. Quando o conteúdo é bom, os plágios acontecem, é outra praga nefanda. Mas o artista profissional é aquele que registra sua obra antes de publicar por aí, assim resguarda seus direitos autorais. O que fazer com tudo isso? Ser seletivo. Sobre o que ler/ver/ouvir. E para quem é artista, ser seletivo onde publicar. Na internet, o menos é mais, e sendo assim, pode ser muito mais.


12) CH: Você tem um público bem definido para cada tipo de manifestação artística ou se surpreende com frequência? Há algum caso curioso que queira contar ocorrido em alguma de suas exposições?


T. d’B.: Existem sim os públicos específicos, é até natural isso, mas as categorias e modalidades de expressão em que participo, vão meio que somando esses públicos. Já aconteceu de pessoas que curtem meu trabalho em gravura começarem a ler meus haicais. Ou o pessoal que lê minha prosa começar a curtir meu trabalho experimental em fotografia. Frequentemente ocorrem relatos assim, entram pela via do cordel, logo se deparam com a produção em desenho... Já a turma da moda é mais eclética, meio que gostam de tudo... Quanto às exposições, nunca aconteceu nada de tão extraordinário, até porque gosto das coisas muito bem organizadas, mas na década passada eu sempre dava um jeito de colocar atores para realizar alguma performance, geralmente com meus poemas, antes ou depois da abertura. Numa dessas, colocamos um ator nu todo coberto de lama, recitando poemas. Noutra um ator foi todo pintado de tinta metálica e ficou o tempo todo na posição de O Pensador, de Rodin, e muitos pensaram que era uma escultura. Outra vez, um ator entrou pela janela da exposição, como um invasão, dizendo poemas a plenos pulmões. Certa vez uma atriz dizia poemas meus enquanto jogava pétalas de rosas no público. Eu mesmo, nos tempos de teatro, participei de diversas performances e intervenções, essas ações enriquecem um evento cultural, dão um ar de happening e geram interatividade entre diversas linguagens artísticas. Isso nos dá a deixa para concluir dizendo que apesar dos meios digitais de divulgação de uma produção artística, seguirei fazendo exposições físicas, e lançamentos de meus livros, pois acima de tudo, essas ações culturais promovem a coisa mais difícil nesses tempos cibernéticos: a antiga e insubstituível arte do encontro entre as pessoas.


13) CH: Como você vê a situação hoje, no Brasil principalmente, de se publicar livros impressos? Quais os prós e os contras?


T. d’B.: Vejo a situação com muito otimismo. Tenho frequentado bienais e eventos literários de porte e o que noto é um desenvolvimento do setor, começando pelas estatísticas que apontam que o brasileiro está lendo cada vez mais. Naturalmente que estamos longe da média de leitura de países desenvolvidos, mas é um fato que o povo aqui quer ler mais e publicar mais. Outro item é o desenvolvimento do que se chama de parque gráfico nacional, hoje algumas das melhores gráficas do planeta estão aqui, atendendo editores de todo o mundo. E o papel já é certificado com selo de origem ambiental. Pode ser que não se deva comprar um livro pela capa, como se diz, mas os brasileiros produzem os livros mais bonitos, em termos de capa, projeto gráfico e matéria prima. Aqui, um livro é também um objeto estético. Mesmo agora com a invenção do Kindle (livro eletrônico) nosso fetiche por livros só vai crescer. Há também todo um esforço de políticas públicas no sentido de multiplicar bibliotecas, tornar o livro mais acessível, e fomentar a produção por parte de autores brasileiros. A Câmara do Livro e Leitura, coordenada pela Biblioteca Nacional é uma dessas ações. O Proler tem se consolidado. E, pululam pelas cidades do interior as chamadas academias municipais de letras, que estão aí imortalizando um monte de gente... A nota dissonante talvez seja a facilidade em se publicar um livro por aqui, basta chegar numa gráfica com uma graninha no bolso, e plim!... vira escritor da noite para o dia. Sem conselho editorial, sem estudo, sem critério, sem qualidade, muita gente apenas movida pela vaidade, publica seu livrinho para impressionar os amigos, os parentes e algum colunista social. Chique, né! Fora isso, viva a literatura brasileira contemporânea!


14) CH: O que é o belo para você?


T. d’B.: O fator beleza na arte sempre foi definido por um conjunto de conceitos complementares, como a harmonia visual, o equilíbrio cromático, composição da cena, aplicação da perspectiva e ponto-de-fuga, domínio do claro-escuro, perícia da representação da anatomia, abordagem do tema, etc. Até o início das vanguardas históricas do Séc. XX havia uma pergunta tácita que se poderia fazer diante de uma pintura: _Isto é belo? De certa forma a beleza é o que se poderia procurar em uma pintura, gravura, escultura, desenho, ou seja, nas formas tradicionais de expressão plástica. Com o advento das vanguardas, dos já citados ‘ismos’ e de toda a revolução de comportamentos que o século passado presenciou, é natural que as artes visuais não apenas se desenvolvessem, evoluíssem, mas que mudasse também a postura do observador diante de uma obra. A própria beleza passou a ser relativizada e em muitos casos o que se busca hoje em uma obra é uma emoção estética e até mesmo uma reflexão filosófica. A pergunta hoje seria: _ Isto é Arte? Esses estados de espírito podem ser encontrados, por exemplo, em obras cuja proposta seja de forte teor de protesto, um trabalho que, sem ser panfletário, seja altamente engajado. O trabalho em si não é “bonito”, mas desperta sentimentos de crítica ao assunto tratado e atitudes de mudança da realidade. Ou consideremos uma obra que desperte questionamentos quanto ao status quo vigente. Ou obras apresentadas em recursos tecnológicos sofisticados, mas conferindo forte significação em termos de identidade regional. Na contemporaneidade, talvez o belo seja apenas aquele tipo de objeto estético que enfeita paredes da burguesia alienada, combinando com a decoração. Mas arte mesmo, é aquela que transforma nossa visão do mundo, nossa relação com o homem e o modo como encaramos a vida. Evoé!

sábado, 12 de dezembro de 2009

Poesia, dinheirama e truculência

Poesia, dinheirama e truculência


Luiz de Aquino


Enfim, o fim do campeonato brasileiro, o mais indeciso de todos os tempos, imagino eu. Até o último minuto de cada jogo, à exceção de Goiás x Vitória que cumpriam tabela, ficou aquela expectativa de mudanças radicais, coisa provável a cada novo gol. Mas, para alegria da maior torcida do mundo, deu Flamengo. E a vida se refez em rubronegro. Em Curitiba, a pancadaria programada pela torcida “inferno verde” aconteceu. E os bandidos quebraram tudo, desafiaram e atacaram a polícia (o contingente era muito pequeno para a horda desenfreada).

Em Brasília, o panetone do Arruda faz o maior sucesso! Com fidelidade à denominação de seu partido, democraticamente a turma do governador viabilizou o tráfico de cédulas de real, em imensa quantidade. Tinha dinheiro em cuecas, paletós, calças, meias e, dizem, até mesmo em carteiras de bolso, dessas que o pacato cidadão comum usa para abrigar suas parcas notas para o consumo indispensável.

Em Goiânia, os muros do Goiás Esporte Clube ostentam poemas de poetas locais. Fiquei feliz com o pedido de Leda Selma, poeta e cronista de elevada qualidade e assessora da diretoria do “Verdão”: Quero um poema seu para o nosso muro”. E, como eu, vários poetas encaminharam seus versos: Maria Helena Chein, Edival Lourenço etc, e tal.

Mas o dinheiroduto do Arruda, no Distrito Federal, enervou os estudantes e alguns sindicalistas. E estes foram às ruas, ocuparam a assembléia distrital, foram retirados de lá por decisão judicial mas, com muita saudade dos tempos em que podiam tudo, alguns coronéis mobilizaram a turba fardada, quero dizer, a tropa, e reinstituiu a repressão com coices, porradas, tiros e espancamento em público. Quer dizer, a PM de Brasília não é covarde, não se oculta nos porões para torturar, mas o faz a céu aberto.

Aqui em Goiânia, um médico muito moço, acometido de algum grave incômodo (passageiro, disseram alguns) partiu com quatro patas contra minha mulher, que pedia socorro no posto de enfermagem ao lado do apartamento onde a mãe dela estava internada. O moço parecia militante da torcida organizada do Coritiba. E a gente para e pensa... Se cursou medicina, deve ser de “boa” família; o tempo de escolaridade devia ter lhe amaciado os pelos; médicos têm formação sólida e bem calculada... Então, uma médica da mesma equipe (o logotipo no jaleco é o mesmo), educadíssima, supre a carência dos familiares quanto a atendimento e informações esclarecedoras. E responde-me sobre o colega: “Não é do feitio dele”... E alguém mais diz que o moço “deve estar com algum problema”. Tudo bem: os familiares de Dona Haydée, também.

Volto às notícias e aos medos. E, feito aquela atriz que temia pela economia brasileira há oito anos, estou com medo. Sim, eu mesmo, Luiz de Aquino Alves Neto tenho medo. Não pela economia, que o Brasil vai tão bem que ainda existem esses fatídicos mensalões. Receio, sim, pelo retorno do arbítrio de coronéis policiais saudosistas. E pensar que o governador Arruda, mesmo apanhado com a boca na botija, ainda tem o poder de mandar a PM truculenta contra o povo!...

Bem, eu não invadi a Câmara Legislativa do DF, mas faço também o meu protesto: mais poesia nos muros! Mais taças de campeões em todas as modalidades! Mais médicos bem-formados e educados! Menos ladrões! Menos falcatruas! Nada de soldados e cavalos contra os que exigem honestidade!



Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. Escreve aos domingos neste espaço. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Linguagem que aproximam


em tempos marcados por
dissonâncias afetivas
divagações filopoéticas

ao meu filho e aos amigos Athur ML e Lao

"A vida sem música é um erro, uma tarefa cansativa, um exílio”F. Nietzsche In Assim Falou Zaratustra


Encontros deram-se através das paixões comuns tais como a música e filosofia, às afinidade pré existentes agregaram-se outras, isto aconteceu tanto em relacionamentos reais quanto nos virtuais, mas é sobre este últimos que atenho-me com mais acuidade nos parágrafos a seguir.O diálogo virtual proporcionou e proporciona aprofundamento no mundo das idéias, leituras e universos pessoais encontram-se, tangenciam-se no invisível atemporal. O interior se faz compreensível através de diversas linguagens. Como explicar aproximações fulminantes? No virtual uma memória de futuro antecipa-se aos fatos e nele mesmo devires são permeados de intuição, esta que está contida na escrita onde o rítmo , musicalidade íntima deixa-se perceber.
Busquei expressar em palavras recentemente; Do invisível -A música parceira de todas horas preenche a atmosfera com as cores da alma... Entre ausências imagens, sons -mar-rítmos movem meus cataventos ...Antecipa-se ao pensamento todo sentir, ou seja a emoção é primordial à razão, esta estando à serviço da primeira. Tentamos explicar racionalmente, através da linguagem, que é pensamento o sentido, incomensuravelmente maior que o vocabulário existente e disponível. O corpo tem sua própria linguagem, na teatrealidade expressar-se, toda arte é tentativa de fazê-lo e, quando impossibilitado compõe patologias...Entre as "loucuras" inclui-se a busca de sentido a tudo que nos acontece, a vida talvez não tenha sentido , mas é certo que o que sentimos por vezes causa espanto devido as proporções que os sentimentos tomam .
Talvez o que haja é o inexplicável e inexpressibilidade e, que assim continue até o último dos dias, contudo intentar compreender e expressar é nos peculiar. Por ventura aceitamos as inúmeras interpretações possíveis aos acontecimentos?Permitimos, admitimos singularidades filosóficas, abertura ao pensamento que buscar criar conceitos que descrevam percepções... ?
A Poesia, enquanto arte, permite-nos a liberdade expressiva que outras áreas do conhecimento humano impedem, além de não requer outra instrumentação que o corpo do Poeta escrivinhador...
Gosto de crer que atraímo-nos consoante aproximações entre nossas leituras individuais do mundo, este que nos cerca e permeia.Por motivos que não sei explicar a não ser pela intimidade ocorrida muito cedo, desde que tenho lembrança de existir, com audição musical dos clássicos, música erudita, instrumental em geral, incluindo as composições medievais, incrivelmente belas, em detrimento ao popular , tornei-me ouvinte sensível e não por questão de erudição musical. O gosto viria da alta freqüência vibracional que as notas atingem transcendendo o palpável, o vivido, resgatando o elo dos sentidos universais ? ...A música é linguagem universal. Através dela o especial torna-se visível...Com este devaneio um pouco longo e talvez desinteressante pretendo ilustrar a profundidade que algumas aproximações atingem. Ocorre que a palavra magia vem à mente em certas ocasiões.Das Articulações Invisíveis - nos silêncios mais íntimos das madrugadas/ no pulsar da chama acesa na audição solitária de Bach /no mais ermo recanto da terra /o mistério nos aproxima/ águias, pombas, gaivotas/seres do silêncio a quem nada escapa /ouvido atento aos chamados dos ventos/ah! nós que ouvimos um pouco /cremos nas flautas/nos tique taques nos assovios /a menor dissonância / atentos /em nós sempre um berço /um terço a mais pianiedade...O conceito pianiedade criei nos idos de 1979, para dar conta de encontros de intensidade semelhantes onde parece que são as infâncias ( in fante que não possui fala ) que dialogam utilizando a linguagem primordial - a música possibilitando entendimento capaz de superar dissonâncias que linguagens outras apresentam. De maneira que quando em pianiedade o encontro se faz, acontece , silêncios e verbo harmonizam-se abrindo portas ao infinito...Tido como de conhecimento amplo é o efeito benéfico que a música exerce sobre os seres vivos não somente ao homem, existem vários estudos sérios a respeito.A música é som com harmonia e ritmo, mas fisicamente trata-se de energia cinética, energia em movimento ligando cada nota em seqüência e formando a linha melódica. Essa energia cinética determina a ressonância fazendo com que outras coisas ressoem em uníssono, entre esta o organismo. A ressonância que ocorrer sobre a matéria orgânica faz com que os ritmos vitais naturais das células, dos tecidos e dos órgãos sofram alterações, entrem em ritmos especiais e isto pode se refletir em algum tipo de desequilíbrio ou de equilíbrio que irão se refletir sob a forma de doenças ou como saúde.
Aos que encontram na filosofia de Nietzsche uma identificação e , ou gostariam de mais conhecer sua relação com a música , há um excelente Livro a consultar intitula-se , NIETZSCHE E A MÚSICA de Rosa Maria Dias.
Boa pedida é rever Dias de Nietzsche em Turim , de Júlio Bressane- um filme sensorial, que não deixo poeira sentar, há cenas extraordinariamente belas - diria ...um ode à vida !
Finalizo com as sábias palavras do filósofo tão querido, que a mais de quarenta e tantos anos, tem sido amigo de cabaceira e, companheiro em ocasos e auroras mais pungentes..." temos a arte para que a verdade não nos destrua"
Ilustrçs. Piano Vladimir Kush Moonlightsonata
Músicas de relax e classicas aqui